Ut invidia*. Opinião por Rui Marques

Era um poderoso Senhor das trevas, Mostrengo de seu nome, dono de uns terrenos pantanosos divididos por uma encruzilhada e habitado por umas poucas figuras de má índole, por seres tenebrosos, bestas malcheirosas e uma récua de pouco mais de duas centenas de indivíduos, que, por isso mesmo, dava nome ao lugar: Récuas!
O Mostrengo invejava as terras do lado, terrenos cultivados e verdejantes, com carpinteiros, oleiros, sapateiros e tecelões… Dizia-se, sem nunca alguém ter visto, que existiam fadas e elfos no bosque que rodeava por completo aquele lugar… Os ribeiros, com águas cristalinas e cascatas límpidas, formavam um arco-íris desde o nascer ao pôr do Sol… Os cavalos, por viverem num lugar tão idílico, tinham asas e eram montados por cavaleiros de coração nobre e puro!
O lugarejo chamava-se Pégasos, não era possuído por donos ou senhores, todos os habitantes tinham a responsabilidade na gestão, todos tinham os seus direitos e deveres… Diria eu … Uma democracia utópica!
O Senhor de Récuas, de modo a conseguir a posse de Pégasos, teria de fazer um pacto com o Diabo por forma a que tivesse a sua posse eterna!… Em troca, Mostrengo e todos os seus sucessores, controlariam as terras, seus frutos e feitorias, mas nunca os seus habitantes e seus nobres cavaleiros…
Récuas estaria obrigada, para todo o sempre, a invejar Pégasos!…

(Continuará…)
“….
Aqui ao leme sou mais do que eu
Sou um Povo que quer aquilo que é seu
E mais que o Mostrengo, que me a alma teme
E que até invejam estes versus
Manda a vontade, que me ata ao leme
Da mui nobre gente de Pégasos
…”**

* invejar
** O Mostrengo, Mensagem – Fernando Pessoa – Adaptação