Me, myself, o Teatro Viriato, a Amarelo Silvestre … e a rótula do meu joelho esquerdo

Foi em 2003 que vim pela primeira vez ao distrito de Viseu.
Nascida e criada em Lisboa, fiz-me actriz e dei os primeiros passos na encenação e formação de teatro também em Lisboa.

A minha rótula do joelho esquerdo saiu dos “carris” durante uma formação para encenadores no Teatro Nacional D. Maria II, e este episódio impediu-me de fazer uma peça de teatro já anteriormente acordada. Foi então que, durante os quase dois meses de recuperação, soube que a Leonor Keil (fantástica bailarina e à época responsável pelo projecto pedagógico da Companhia Paulo Ribeiro – CPR, em Viseu) estava à procura de actores e bailarinos para fazer uma peça de teatro físico, encenada pelo John Mowat a ser estreada em Viseu. Liguei-lhe (já nos conhecíamos dos corredores do Conservatório – ela de Dança, eu de Teatro) e disse-lhe que queria muito trabalhar com ela e com o John Mowat. Assim vim para Viseu e em 10 dias criámos um espectáculo com 10 actores (Leonor Keil, Lira Keil Amaral, Marta Cerqueira, Marta Silva, Rafaela Santos, Cristóvão Cunha, Francisco Keil Amaral, Jorge Cruz, Marlon Fortes, Romulus Neagu). Fizemos mais de 40 espectáculos pelo distrito de Viseu (também chegámos a ir a Coimbra, Guarda, Covilhã e Lisboa) e foi das experiências mais compensadoras da minha vida. A peça era baseada no “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente, mas sem uma única palavra, e no fim de cada espectáculo tínhamos sempre uma conversa com o público. Era nesse momento que fazíamos as pontes necessárias para que o entendimento da proposta fosse total e lembro-me que a Lira Keil (que era sempre quem falava mais e melhor), conseguia através do diálogo e das questões que lançava, quer aos jovens que tinham assistido ao espectáculo quer aos adultos, criar uma predisposição para o entendimento da época do Gil Vicente e das condições de vida do século XV.

Foi na sequência desta experiência que apreendi um sentido mais lato para o teatro e para a vida de quem o faz – nós criadores – e para quem ele é feito – o público. Assim, iniciei um novo ciclo de viagens de comboio semanais, entre Santa Apolónia e Nelas, para fazer formações de Teatro naquela que viria a dar lugar à Escola de Dança (e Teatro) Lugar Presente, em Viseu. Foi um orgulho participar na génese deste projecto que a Leonor Keil e o Albino Moura desenvolveram, inicialmente no âmbito da Companhia Paulo Ribeiro e nas instalações do Teatro Viriato, mais tarde autonomizando-se, sendo hoje uma escola de referência e a única de ensino integrado de dança em Viseu.

A par destas formações de teatro para adultos, jovens e crianças com o LP, iniciei uma colaboração regular com o Teatro Viriato, no âmbito do então recém- criado Serviço Educativo, criado pela Ana Lúcia Figueiredo.
Em 2005, Miguel Honrado, então director artístico do Teatro Viriato, convidou- me para apresentar naquele teatro “ALICES”, a minha primeira encenação a solo, que tinha estreado em Lisboa no ano anterior. Foi também nesse mesmo ano que conheci o Fernando Giestas, meu companheiro, meu amor, pai da minha filha e cofundador da Amarelo Silvestre.

O Teatro Viriato (onde aliás o conheci) era uma casa das artes do espectáculo que deixava entrar uma luz contagiante e frenética, proporcionando a quem lá passava, um céu limpo de um azul com tons de futuro e com um forte sentido de mudança. Tem sido essa mudança a que tenho assistido na cidade de Viseu e nas localidades próximas, como reflexo directo e indirecto do trabalho do Teatro Viriato e das muitas pessoas que tem envolvido – todos os artistas que se fixaram e continuam a fixar na região e as já várias gerações de espectadores, fruidores das suas muitas propostas artísticas e formativas. Este desenvolvimento artístico sem dúvida que ajudou a tornar esta região mais rica, mais exigente, mais crítica, mais atenta à vida e à arte como papel fundador da liberdade.

A força que senti então, ao descobrir este valor acrescido do papel da arte na sociedade, ditou o vir viver para Viseu – mas a Lira Keil tinha uma casa para alugar em Canas de Senhorim e vim, temporariamente, arrendar uma casinha n’As Casas do Visconde. Há 14 anos, portanto, que estamos a viver, temporariamente, (e não é sempre assim a vida?), numa casa pequenina, mas que tem o mundo inteiro dentro. E foi n’As Casas do Visconde que a Lira e o Pitum Keil Amaral nos deixaram plantar a nossa magnólia e a Amarelo Silvestre.

Em 2007 estreámos no Teatro Viriato, já novamente com a direcção artística do Paulo Ribeiro, o nosso primeiro espetáculo a quatro mãos – “MEXE-TE!”, seguindo-se “Raiz de Memória”, e em Março de 2010 estreámos “MULHER MIM” já como Amarelo Silvestre.

Em Canas de Senhorim enraizámos a Amarelo Silvestre e, a partir deste território, com a cumplicidade dos muitos parceiros, partilhamos com o resto do país os objectos de Teatro contemporâneo criados em contexto semi-urbano, atentos ao mundo e à vida.

O Teatro Viriato fez 21 anos em Fevereiro e a Amarelo Silvestre fará 12 anos este ano. Se isto não é uma capicua feliz, então não sei o que será.

Rafaela Santos
Co-Directora artística da Amarelo Silvestre