Magis quam Vita*. Opinião por Rui Marques

Rui Marques

O principal motivo pelo qual o Carnaval de Canas de Senhorim é muito difícil de explicar ao comum dos mortais, deve-se ao facto de ter um conjunto de tradições e não uma simples semana de folia.

O raiar do novo ano traz-nos os Pisões e as Paneladas, os preparativos dos diferentes grupos que fazem os carros alegóricos e umas discussões amigáveis no café!
Bem, na verdade, este Carnaval, chamado ainda hoje pelos mais velhos de Entrudo, não começa no raiar do novo ano, terá começado no século XVII com canenses, do Paço do Rossio…
O Carnaval de Canas de Senhorim, para simplificar, é Paço e é Rossio. São as pessoas do Paço e do Rossio. Os de hoje, os de ontem e os de amanhã!
A partir daí, a população canense começou a transmitir de geração em geração os seus rituais, símbolos e memórias que nunca mais se perderam no que é de mais essencial…
Os já referidos Pisões, Paneladas, Segadas, Farinhadas, os Mascarados, as Comadres e Compadres, os cartazes e vozes mordazes, os cortejos de Domingo Magro, Domingo Gordo e Terça feira de Entrudo, o Despique, a Segunda Feira das Velhas (diria eu, um ainda resquício do carnaval ancestral), as Noites dos Bailes e, a terminar, a Batatada e Queima do Entrudo são as tradições. Mas haverá mais.
Hoje o Carnaval de Canas de Senhorim é muito mais que o somatório das pessoas dos dois bairros… Há lisboetas do Paço ou aveirenses do Rossio, temos lapenses foliões dos dois lados da barricada… O Carnaval de Canas de Senhorim é, por assim dizer, maior que a própria Vila:
Não depende do dinheiro, de partidos ou dos políticos.
Não depende do sol, da chuva, da neve ou de vírus.
Não depende de “vontadinhas”, amizades ou público.
Não depende da idade, da dificuldade ou do tamanho.
Não depende de um obrigado, dum olá ou de um sorriso.
Não depende de local, país ou continente que vem plasmado no cartão do cidadão!
É egoísta, porque por muito que batamos no peito pelo Carnaval Canas de Senhorim, naquelas semanas, achamos mesmo que somos melhores que o outro bairro, temos prazer em deitar cascas de banana aos outros, perdemos a sensatez, mesmo que queiramos fazer passar cinicamente uma mensagem de união! No final sim!… Podemos soltar um vibrante:
– “Viva ao Carnaval de Canas de Senhorim! Cof, cof, cof! Mas… o meu bairro esteve melhor… Como sempre esteve e estará!”
O Carnaval de Canas de Senhorim não tem donos, iluminados ou senadores. Tem os bravos diretores das associações, do Paço e do Rossio, que lutam arduamente para que o barco tenha um rumo e chegue ao porto! Sempre os mais mordazmente criticados!
É um Carnaval em que dois bairros se confrontam e nunca ninguém perdeu, nem por falta de comparência!

E é por tudo isto (e muito mais!) que Canas de Senhorim tem um Carnaval único, um património único, tradições únicas…
Não morrerá enquanto existirem pessoas do Paço e pessoas do Rossio!

*mais do que vida