Prof. Virgílio Loureiro: “Que vinho deve acompanhar uma boa cara de bacalhau?”

Nestes tempos difíceis de confinamento há que dar largas à imaginação para resistir. Para alguns privilegiados, que não se confrontam com desemprego, “lay-offs”, redução do salário ou perda de familiares pelo vírus ou outras causas, uma das melhores formas de o conseguir é à refeição. É preciso enganar o tempo e, por isso, planeia-se tudo com a devida antecedência, desfruta-se do frenesim da confeção, goza-se com a escolha da baixela e, obviamente, vibra-se com a eleição do vinho.
O cardápio de hoje ao almoço previa uma bela cara de bacalhau, com cerca de um quilo, demolhada durante 36 horas, tempo mais que suficiente para ter em conta todos os detalhes e eleger o vinho ideal para a acompanhar. Entretanto, houve o cuidado de cozer o grão com a cebola e a folha de louro, pois qualquer semelhança com o da lata, que se abre na hora e se aquece no micro-ondas, é pura coincidência. Os grelos tinham vindo do “norte”, da zona de Lamego, graças ao privilégio de ter como vizinho um lugar de hortaliça de lamecenses. Só as batatas eram forâneas, pois a moderna distribuição assim o impõe, para minha resignação, pois não consigo descobrir quem venda as de Montalegre.
Para um prato tão prosaico quanto saboroso e desafiante o vinho tinha de estar em consonância. Por isso, era mais adequado um vinho de cooperativa do que o de uma quinta famosa. O azeite do Douro, em abundância, com que teria de ser regada a dita cara de bacalhau, exigia um vinho fresco, de acidez vibrante e sabor forte, mas sem ser pesado e cansativo, pois uma cara de bacalhau, para ser devidamente apreciada, exige (muito) tempo à mesa da refeição. Compreende-se, pois, que a escolha recaísse num vinho do Dão ainda na adolescência. Mas deveria ser branco ou tinto? Qualquer dos dois seria aceitável, mas para não fazer a desfeita a nenhum deles optei por um clarete, na linha do vinho mais popular que se possa imaginar. Sim, um clarete não é para pratos de luxo, como as notas que os nossos gurus atribuem a todos eles bem o confirmam! Lembrei-me, então, do Adega de Penalva que tinha na cave. Uma hora antes do repasto se iniciar coloquei-o no frigorífico, para ficar a catorze graus no momento de servir.
Depois de dispor a cara de bacalhau e seus “adubos” num magnífico prato desenhado pelo genial Rafael Bordallo Pinheiro, louça rústica a condizer com a natureza do pitéu, e de abrir a garrafinha de clarete, a impaciência exigia que se abrissem as hostilidades. Depois de se regar o bacalhau com o azeite, onde foram alourados um dente de alho e uma folha de louro, verteu-se o clarete no copo e sentiu-se-lhe o aroma. Estava perfeito, desafiante e apetitoso! Durante a refeição portou-se galhardamente, comprovando a justeza da escolha.
No final ainda houve tempo para um cálice de licor de poejos, o digestivo “caseiro” que os alentejanos elegem sempre que quebram a monotonia do dia-a-dia. Esquecemos, de vez, a pandemia, não ouvimos as sinistras notícias da televisão e ultrapassámos mais um dia de confinamento. Há dias de sorte!