A praga dos eucaliptos quando plantados sem ordenamento. Opinião por José Miguel Silva

Investigadores de Coimbra registaram em terrenos afetados pelos grandes incêndios de outubro de 2017, a maior densidade de eucaliptos alguma vez identificada fora da Austrália. Numa experiência em cinco terrenos em Santa Comba Dão, que arderam nos incêndios de 15 de outubro de 2017, num dos locais, contabilizaram uma densidade de eucaliptos de 804 mil plantas por hectare, a maior alguma vez registada na literatura científica fora da Austrália em plantas provenientes da regeneração natural, disse à agência Lusa o responsável pela investigação, Joaquim Sande Silva.
Esta é apenas uma amostra, mas basta olharmos para os dois lados do IC6, entre Arganil e Oliveira do Hospital, para vermos, junto à estrada, como crescem manchas e manchas de eucaliptal.
Nada que nos surpreenda – a nós, à população em geral, aos partidos mais ecologistas, a alguns autarcas e a outros que a olham sem “ganância” e  veem a floresta como um verdadeiro pulmão do Planeta (o que mais absorve o CO2, o que nos dá oxigênio).
Começamos por dar dois exemplos a este nível. Em setembro de 2018, quase volvido um ano depois dos maiores incêndios de sempre na Beira Alta, o autarca de Carregal do Sal e líder da CIM Viseu-Dão Lafões, dava o alerta:
“Rogério Abrantes (CIM Viseu Dão Lafões) preocupado com regeneração de eucaliptos e limpeza de bermas” (https://www.centronoticias.pt/2018/09/25/rogerio-abrantes-cim-viseu-dao-lafoes-preocupado-com-regeneracao-de-eucaliptos-e-limpeza-de-bermas/).
Em conversa informal comigo, no seu gabinete, nos Paços do Concelho, talvez uma semana depois do fatídico 15 de outubro de 2017, Rogério Abrantes, revelando um profundo conhecimento do terreno, desde logo se mostrou muito “cético” quanto ao futuro. Disse-nos mesmo que se o ordenamento florestal não mudasse rapidamente,  10 anos depois poderíamos ter incêndios ainda piores (ou até antes).
Oxalá não tivesse razão, mas de facto o edil estava certo. Este estudo de investigadores da Universidade de Coimbra só lhe vem dar razão. A ganância, a mira do lucro fácil, fatores que destroem o mundo e a natureza, estão bem fincados na nossa região. Nunca tivemos tanta densidade de eucaliptos, de forma desordenada. Lembramos que o eucalipto é altamente combustível, com as suas folhas e pedaços, a poderem manter-se a arder, levados pelo vento, pelo menos até 2 kilómetros.
Outro exemplo, veio do Partido Ecologista “Os Verdes” que denunciou esta situação em 2019:

Questionamos nós: Onde andam as ZIF´s , o que fazem, para quer servem? Para nada de facto … como nos disse, por exemplo, num local público, o ex Vice Presidente da Câmara de Nelas, Manuel Marques, dois ou três anos antes dos incêndios, de forma muito clara, como é seu timbre (e nisto teve razão): NÃO ACREDITO NISSO. Outro homem que conhece muito bem o “seu” território.

Tenho como certo que apenas têm servido para desvio de muitos milhões de euros, vindos da UE, e do Fundo Florestal Permanente (que todos pagamos em cada litro de combustível). E também para os alegados compadrios e amiguismos entre alguns autarcas e alguns dirigentes de algumas Associações que “gerem” estas ZIF´s, que, na nossa opinião, apenas são grandes sorvedouros do erário público. Muitas suspeições, alegados favorecimentos, e até, alegadamente, prisões domiciliárias já aconteceram.

Uma vergonha para a Beira Alta, brincarem com um dos nossos bens mais preciosos.

Então para que têm servido as ZIF´s? Contactámos o CEO da Mentastro, Nuno Tavares Pereira, empresa que atua na área florestal, como um dos maiores proprietários da região da Beira Alta, também com a vertente de gestão de resíduos, para nos dar a sua opinião, daquele que consideramos um dos grandes embustes num país tão florestal como o nosso :

“As ZIF´s que foram bem desenhadas para termos em Portugal um mosaico florestal exemplar, onde existiria uma organização que ajudaria os pequenos produtores na gestão e limpeza do seu território, nunca passou disso. De um desenho. Aliás até veio complicar mais a gestão, favorecendo os grandes produtores e anulando os pequenos produtores que ficarem no meio desses territórios. Isto quer dizer que, ou estás com a ZIF ou não tens acesso a apoios para limpeza ou para projetos florestais futuros. Isto porque tudo tem de passar pelas ditas ZIF para ter pontuação e ser aprovado. Mas isso criou gigantes na floresta. Os gestores das ZIF passaram a monopolizar os seus territórios onde recebem do estado para a sua manutenção, mas ainda vão cobrar aos proprietários a verba que supostamente já foi gasta para a gestão florestal. Estamos a falar de uma duplicação de processos e custos para o estado. Os apoios ao investimento na floresta devem ser diretos ao produtor e não entregues a intermediários que são suscetíveis de estar junto de grandes empresas que controlam o sector. As ZIF´s deram já um grande prejuízo ao país, isto porque o estado investiu milhões nesses territórios para a sua manutenção e gestão e depois foram esses os territórios que arderam mais. Curioso é que os territórios que não tem ZIF´s têm sido os menos afetados por incêndios, proporcionalmente. Entendo que foram bem concebidas, mas utilizadas pelos que têm o monopólio da floresta e se quisermos plantar hoje mais de meio hectare numa zona ardida de pinheiros não podemos, mas de Eucaliptos já podemos… Estamos a “navegar” ao ritmo do grande interesse”.

José Miguel Silva

DIRETOR