“O Alfrocheiro tem um aroma que me faz recordar as memórias de infância na companhia da minha avó”

Uma entrevista de vida com a Enóloga de Canas de Senhorim, Patrícia Santos, com créditos firmados nas regiões do Dão e Beira Interior. Criou a sua marca Rosa da Mata, e reconhece o papel do seu Mestre, na sua carreira: Anselmo Mendes, um nome que dispensa apresentações.No Dão, para além da Quinta de Silvares, em Santa Comba Dão, vão agora também reestrututar a Quinta da Alameda (Santar), sucedendo a Carlos Lucas.

Vamos começar pela história da Rosa da Mata, a marca que já se afirmou no panorama do Dão e nacional, suscitando cada vez maior curiosidade aos enófilos. Como foi a vida da tua avó e como chegaste a esta ideia para os teus primeiros vinhos? Quais já foram lançados no mercado?

A minha avó foi uma lutadora, casou tarde e teve três filhos. Ficou viúva muito cedo, e teve que trabalhar como podia e com o que sabia, para poder criar os filhos. Foi sempre uma mãe e avó cuidadora, muito rigorosa e atenta. Passava muito tempo com a minha avó, nas férias escolares e fins de semana, na mata onde vivia. Foi a nossa cuidadora, vivia connosco sempre que os meus pais trabalhavam por turnos.

A ideia de lhe fazer esta homenagem, surgiu porque  o Alfrocheiro tem um aroma que me fez recordar estas memórias de infância na companhia da minha avó. O Alfrocheiro é um vinho que tem uma personalidade que me define e que personifica a minha avó.

Qual o teu percurso como enóloga e agora produtora? O que mais destacas? 

O meu percurso ao longo destes 20 anos tem-me permitido aprender e crescer nas dificuldades que foram surgindo.

Poder estar em diferentes projetos permitiu-me uma abordagem diferente em cada um deles, cada um com as suas caraterísticas, uns com com mais, outros com menos tecnologia, criando maior ligação com o terroir, as uvas e a identidade de cada vinho. Ser produtora tem sido uma aventura maravilhosa, que preenche a minha sede de querer sempre mais.Faço os vinhos que me preenchem e que me dão prazer, não só de fazer, mas também de beber.

Todos os vinhos e produtores com quem trabalho são o mais importante, porque sem eles nunca teria evoluído, nem seria o que sou hoje profissionalmente.  

Destaco o meu grande mestre, Anselmo Mendes, com quem continuo a aprender. 

Quinta da Alameda. Os vinhos de Santar, coração do Dão, são dos mais representativos e icónicos deste terroir único. O que te fez aceitar o desafio de fazer a enologia e abraçar este projeto do empresário Luís Abrantes?

O projeto Alameda é uma referência no Dão, e é sempre desafiante poder contribuir para a sua continuidade e garantir a consistência que um projeto deve ter.

A Quinta de Silvares, é um projeto Dão, Anselmo Mendes, e a Alameda é agora parceira de Silvares, já estava com o Anselmo na Quinta de Silvares e com esta parceria fiquei também na parceria onde a Enologia é comandada pelo Anselmo Mendes.

Dão e Beira Interior. Conheces, com profundidade, as duas regiões. Que diferenças e semelhanças vês e o que pode ser feito para as elevar cada vez mais?

A Beira Interior é uma região muito honesta onde os vinhos são genuínos e transpiram o caratér da uva, altitude e frescura. É a região da minha paixão, que nos últimos 10 anos vi crescer e a ver num lugar mais que merecido no mundo dos vinhos. Por gostar e respeitar tanto a Beira Interior, tive que fazer o meu Branco, e o Branco tinha que ser Beira Interior: Rosa da Mata Fernão Pires.

O Dão é a região do meu coração, tem tintos gulosos, cheios de charme e intensos, daí escolher a casta que me define, o Alfrocheiro.

São duas regiões de interior, muito distintas, não só no clima, mas também na forma como se trabalha a vinha e as castas plantadas. Mas a identidade é a semelhança que nos prende ao copo.

Por último, como estás a viver, pessoal e profissionalmente, esta pandemia?

Tem sido um ano difícil para todos, e esperamos que 2021 nos permita recomeçar, porque começa a ser complicado manter os projetos com a continuidade destas dificuldades. As vendas on-line ajudaram a segura00r as empresas, fomos aprendendo a dar a volta, a encontrar estratégias… mas continua complicado.

José Miguel Silva