Abandono desportivo empobrece o país.Opinião por Vítor Santos

O ano de 2020 acaba com a esperança de que a vida, tal e qual a conhecemos, irá voltar à normalidade dentro de meses. Para o Desporto, foram duas épocas desportivas atípicas e que vieram trazer mais abandono e pobreza aos clubes/modalidades mais modestos.

O abandono precoce da prática desportiva tem sido um tema para o qual temos alertado com muita veemência. O excesso de pressão e as elevadas expetativas que se criam a crianças desde os sub-8, e que nos sub-15 não se confirmam, levam à frustração e ao cansaço. Agora são os escalões acima dos 15 anos a desistirem por não haver competição. A desmotivação leva ao abandono. As razões para o abandono podem ser positivas ou negativas, mas estas últimas são, de certeza, em maior número. Reduzir a taxa de abandono deve ser um desígnio de todos – a saúde e economia agradecem.

O desporto em Portugal sofre a maior perda de praticantes que alguma vez aconteceu. As associações, os clubes e todos quantos estão ligados ao desporto vão ter de fazer renascer a paixão pela prática desportiva de forma a se conseguir minimizar essa perda. Estima-se, que só a nível federado, estejam parados mais de 150 mil praticantes. Muitos destes já não regressam e outros terão menor capacidade para socializar, para se superar e para traçar objetivos.

Na temporada passada, nas modalidades de futebol, futsal, andebol, hóquei em patins, basquetebol e voleibol existiam 220 735 jovens federados e atualmente contam-se apenas 47 774. Elucidativo. A superação e a resiliência são características dos atletas e por isso vamos acreditar.

Ainda não sabemos bem como, nem quando, mas todos queremos retomar. As boas práticas têm de vir com a retoma da atividade desportiva. Cada um de nós tem uma função e, ao exercê-la, deve ser exigente consigo mesmo e com os outros.

Ao contrário do que muitos apregoam, o desporto continua a ter intactos todos os seus valores. Não está na moda o desvio comportamental. O que está na moda é a bacoquice, a ausência de solidariedade, a falta de exemplo de quem ganha milhões e deve transmitir através da atitude e da palavra os valores de que se faz o futebol.

As punições têm de ser revistas. Quem ganha milhões tem de pagar em consonância com o vencimento. Não faz sentido treinadores, jogadores e dirigentes que ganham imenso dinheiro serem penalizados em meia dúzia de euros por promoverem o ódio, a violência, o racismo, a descriminação. Quando se releva qualquer ato destes, está-se a criar impunidade. A justificação de não saber perder não valida absolutamente nada!

O futebol é “só” a atividade mais mediática e escrutinada no mundo. As redes sociais amplificam. Mas esta é a sociedade atual e tem coisas boas e más, como sempre foi.

O que é fundamental não esquecer, e muitos infelizmente esquecem-no, é que o desporto é uma escola de valores e não de egos. Quanto melhor for a educação desportiva da criança e do jovem, melhores adeptos, treinadores e dirigentes vamos ter. Por agora, urge cumprir as regras de saúde pública e esperar que o futuro traga de volta as crianças e o desporto na sua plenitude.

Votos de um excelente ano de 2021.