A banalização do medicamento.Opinião por Helena Batista

A utilização benéfica de medicamentos pressupõe informações adequadas, quer para os medicamentos de prescrição médica quer para os de venda livre. Infelizmente, os medicamentos têm sido tratados como bens de consumo e o seu uso inadequado ou indiscriminado pode causar problemas. Mesmo os medicamentos isentos de prescrição podem trazer sérias consequências quando utilizados de maneira inapropriada, sem o acompanhamento de um profissional de saúde.

Existe uma grande diferença entre o que é remédio e medicamento. Remédio é a prática eficaz no alívio de sofrimento, desconforto ou dor. Pode ser um banho quente, uma massagem ou tudo o que fizer algum bem à pessoa. Já o medicamento é um produto farmacêutico tecnicamente obtido ou elaborado. Assim, a necessidade de tomar um remédio não significa necessariamente que se trata de um medicamento. “Todos os medicamentos, até os mais simples, podem produzir reações medicamentosas”.

Hoje em dia é possível encontrar medicamentos em supermercados, bombas de gasolina, mercearias, etc., locais onde comprimidos poderão ser adquiridos e usados como um produto qualquer, inclusive como troco. Esta facilidade de comércio, a publicidade em rádio, televisão, revistas e placares de rua, assim como a venda de medicamentos sujeitos a receita médica sem a respetiva apresentação em muitas farmácias, demonstram a banalização do medicamento.

Historicamente, a cultura da propaganda de medicamentos incentiva a automedicação, mas compete à pessoa refletir se isso realmente é a melhor opção para a sua saúde. “Uma propaganda convence mais do que um profissional de saúde e isso causa a banalização do uso de medicamentos”. A automedicação é uma prática que pode trazer danos à saúde e se caracteriza pelo uso de medicamentos sem prescrição médica, uso de forma incorreta quanto a doses e horários ou ainda o consumo de medicamentos de uso contínuo sem reavaliação. Entre os principais motivos que levam à automedicação estão economia de tempo, facilidade de acesso, influência de propagandas e indicação de conhecidos. “É muito mais fácil tomar uma pílula do que mudar os seus hábitos”.

Os medicamentos são produtos de alto risco, podendo causar uma série de problemas graves, não podendo ser vistos como produtos iguais aos outros. Apesar de o medicamento ser uma tecnologia muito sofisticada, este facto, aparentemente evidente, tende a ser esquecido. A prescrição de medicamentos constitui um dos atos mais comuns e frequentes da prática clínica, assim como a sua aquisição pelos utentes. Esta banalização apresenta múltiplas consequências: a) o ato de prescrever é visto com alguma indiferença pela sociedade, por oposição ao uso de tecnologia invasiva, cada vez mais valorizada; b) o medicamento é considerado como um dado adquirido e c) os seus riscos tendem a ser desvalorizados ou ignorados.

As pessoas devem ter em mente que nenhum medicamento é livre de risco, o medicamento que faz bem a uma pessoa pode ser prejudicial a outra e nenhum medicamento, mesmo de venda livre, deve ser utilizado sem o devido esclarecimento. Além disso, uma grande parte dos adquirentes não recebem informações suficientes sobre como devem utilizar os medicamentos. A automedicação da sociedade está mais ligada aos tempos modernos, ao stresse, a uma pressão maior para cumprir metas. Há também outra variável: os especialistas da psiquiatria defendem que as pessoas hoje não conseguem conviver com a dor e acabam por querer um refúgio – um deles é o medicamento. As pessoas entram nos consultórios e esperam sair com uma receita na mão. Se o médico não prescreve e diz só para controlar a alimentação e fazer exercício, o paciente imediatamente classifica o profissional de saúde como mau ou incompetente. A sociedade tem ânsia por medicamento. Nas farmácias, os medicamentos de venda livre, isentos de prescrição, na maioria das vezes, podem ser comprados sem pedir conselhos a ninguém. Isto, de certa forma, ajuda a passar uma imagem para sociedade de que o medicamento não faz mal, imagem essa reforçada pela propaganda.

O profissional de saúde tem de ser sensibilizado desde a sua formação na faculdade. Tem de deixar claro ao utente que é fundamental estimular o uso racional e fornecer-lhe todas as informações sobre os medicamentos. Um profissional bem treinado não vai prescrever pressionado por ninguém, e o farmacêutico, no balcão, não deve fazer aquilo a que se chama “empurroterapia”, que é oferecer vários medicamentos, ou deixar o utente comprar medicamentos sem precisar, só porque sim ou por comodismo, facilitismo ou, ainda, para ficar nas “boas graças” do utente ceder a tudo que ele quer.

Sejamos todos responsáveis e conscientes.

A bem da saúde

Helena Baptista