Fluxodrama, um projecto que caminhou para um espectáculo fluxogramático

A propósito da mais recente criação da companhia de teatro Amarelo Silvestre (Canas de Senhorim, Nelas), o espectáculo Fluxodrama, aqui partilhamos o caminho traçado para chegar a palco.

Começámos por querer fazer um espectáculo que aludisse a um dos maiores acontecimentos da humanidade: o movimento de refugiados decorrente da II Guerra Mundial, com rotas que passaram por vários hotéis do país, suscitando a convivência mais ou menos pacífica, num país neutro, entre estrangeiros, sobretudo judeus, e portugueses do Portugal do Estado Novo.

Naquela época, se, por um lado, as minas portuguesas – entre as quais as Minas da Urgeiriça, na freguesia de Canas de Senhorim, concelho de Nelas, onde vivemos – alimentavam a guerra com volfrâmio e urânio, por outro, os hotéis nacionais eram abrigos para milhares de refugiados. Um desses abrigos foi o Hotel da Urgeiriça, localizado em Canas de Senhorim, ainda hoje em actividade, e vizinho das Minas homónimas.

Pareceu-nos importante partir deste contexto local para reflectir sobre o Mundo e a Vida. Importante e urgente, tendo em conta a contemporaneidade universal em que vivemos.

Chegados a palco, encontrámos uma proposta performativa que coloca o problema, as questões essenciais, do lado de quem assiste. Do lado dos espectadores – actores.

Chegámos ao fluxograma: perguntas que permitem duas possibilidades de resposta que levam a perguntas que permitem duas possibilidades de resposta que levam a perguntas que permitem duas possibilidades de resposta. Sim ou não.

Foi o início de Fluxodrama, a nossa proposta de palco. Consoante as respostas, assim se posicionam os espectadores – actores no espaço cénico. E ficam o Sim e o Não frente a frente. Olhos nos olhos. Sem barreiras físicas ou virtuais. Ali somos nós. São as nossas cabeças a falar através das nossas bocas. O nosso corpo inteiro presente para dizer e ouvir. Para assentir ou rebater.

É sempre possível mudar de opinião e, nesse caso, mudar de lugar. Porque as nossas opiniões podem não valer para sempre. Podem deixar-se permear pelos outros.

Fluxodrama é esse espectáculo em que pessoas pensam e falam entre si. E em que pessoas se vêem a pensar e a falar entre si.

Depois de apresentado em Canas de Senhorim (Antigo Balneário dos Ingleses, nas Minas da Urgeiriça), Coimbra (Convento de São Francisco), Carregal do Sal (Centro Cultural) e Funchal (Teatro Municipal Baltazar Dias), Fluxodrama será apresentado no Teatro Municipal da Guarda a 12 de Fevereiro de 2021.

Fernando Giestas

Co-Director Artístico da Amarelo Silvestre

Canas de Senhorim, 11 de Dezembro de 2020