A epidemia oculta.Opinião por Helena Marques

O novo ano surpreendeu-nos com um novo inimigo: o covid-19.

O inimigo de 2020 não tem rosto, não dá para fugir dele. Pode estar em qualquer lugar, o que representa um perigo permanente. A única medida ao nosso alcance para travar o avanço e diminuir o impacto nos sistemas de saúde é o isolamento social: com menos gente a circular pelas ruas, a taxa de transmissão do vírus diminui. No estado atual, permanecer confinado em casa é vital para lidar com a pandemia. Todos devemos ser responsáveis e obedecer às orientações das autoridades em saúde pública. No entanto, essa estratégia não é isenta de efeitos colaterais: não sair às ruas afeta a mente das pessoas. Vários estudos demonstram que quanto maior a duração da quarentena, maior o impacto sobre a saúde mental. Os maiores fatores que desencadeiam transtornos de humor, como a depressão, são a duração da quarentena, o medo da infeção, a frustração, o tédio, a falta de bens essenciais, as perdas financeiras e o estigma de ser ou ter sido infetado. A falta de informação e a ausência de previsão de quando a situação anormal vai passar, também são fatores agravantes, e tornam-se cada vez mais preocupantes.

É natural que toda a população sofra alterações de humor, como picos de ansiedade, stress, irritabilidade ou tristeza, com a situação que se está a viver: as crianças entediadas em casa, os adultos preocupados com o distanciamento físico, o abalo na economia e a incerteza do futuro, os idosos, mais vulneráveis, preocupados com o risco da sua saúde e distantes dos próprios filhos e netos. Além de todas essas situações comportamentais provocadas pela mudança drástica na rotina, um fator natural também tem influência direta no aumento dos casos de depressão: a luz solar. A luz solar é extremamente importante para o funcionamento do nosso organismo, quer a nível físico, nomeadamente ósseo, quer mental. Com o isolamento, as pessoas estão menos expostas ao sol e, como estamos a entrar no inverno que, naturalmente, é uma época do ano em que essa exposição é menor, os casos de transtornos de humor agravam-se.

A diminuição da estimulação sensorial, o apoio social limitado e a falta de acesso às habituais estratégias para lidar com a adversidade, como a prática espiritual e religiosa, os exercícios ao ar livre e as viagens de lazer, podem desencadear uma forte sensação de perda de controlo e liberdade. Outro dos fatores que tende a afetar a nossa estabilidade emocional é o bombardeamento de informação a que estamos sujeitos diariamente, principalmente a não fidedigna. Um estudo da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, estima que a falta de contatos sociais traz riscos à saúde comparáveis a fumar 15 cigarros por dia e chega a ser duas vezes mais danosa que a obesidade. Para piorar, nas raras vezes em que nos aventuramos no mundo exterior, nas visitas ao mercado ou à farmácia, somos confrontados com rostos cobertos por máscaras que nos impedem de interpretar as emoções das pessoas. Não há dúvida de que, como seres sociais, necessitamos da troca de experiências, do diálogo e da convivência em comunidade para sermos felizes.

Um estudo publicado por investigadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston confirma que a covid-19 triplicou a taxa de depressão identificando a perda de emprego, a morte de um amigo ou familiar e problemas financeiros como principais “fatores de stress” em todas as faixas etárias. Infelizmente, também nestas situações, a maior diferença foi detetada entre ricos e pobres, dado que a desigualdade aumenta durante este tempo, assim como as lacunas de saúde. O psiquiatra Miguel Xavier explica que “não saímos exatamente iguais das crises”. “Se a pandemia leva ao desemprego e o desemprego leva à depressão, o tratamento não se faz com antidepressivos, mas sim com empregos”. Há desigualdades sociais “elevadíssimas” em Portugal, que é “um país de gente endividada”. Ter dívidas “massacra as pessoas do ponto de vista da saúde mental”. Na última década, o consumo de antidepressivos quase duplicou e, desde 2000, mais do que triplicou.

Os mais velhos, aqueles em que se concentra a maior taxa de mortalidade, parecem estar a lidar melhor com a adversidade. A sensação de que o estado de saúde mental se deteriorou nestes meses singulares é mais prevalecente nas mulheres do que nos homens, mas é entre os mais jovens (dos 18 aos 24 anos) que os efeitos da pandemia no estado psíquico estão a ser mais prejudiciais. Quase metade dos jovens entre os 18 e os 24 anos considera que o seu estado de saúde mental se agravou nos últimos meses, enquanto que, entre os mais velhos (65 ou mais anos), apenas 17% dizem sentir-se pior do que antes da pandemia.

No primeiro semestre deste ano, venderam-se mais 248 mil embalagens de antidepressivos do que no mesmo período de 2019, o que representa um crescimento de 6,5%.

O medo do vírus desconhecido, o tédio do isolamento, a diminuição e perda de empregos, a incerteza quanto ao futuro e as dificuldades financeiras causadas pela pandemia de Covid-19 estão a gerar uma nova e grave epidemia: a epidemia da depressão.

A bem da saúde, há que não perder a esperança.

Helena Marques

(Farmacêutica Comunitária)