Robert Parker: Um olhar sobre o mais conceituado crítico de vinhos

Por Carlos Mazon

O que você pensaria, caso lhe dissessem, que uma única pessoa foi capaz de mudar totalmente o perfil de produção de toda uma indústria, em âmbito global?

Mais ainda … somente baseado em seu próprio gosto!

Seria ele um rei?  Um deus?  Um mito?

Como poderia uma pessoa comum, como qualquer outro cidadão norte-americano de classe média e fruto de uma família que jamais teve qualquer tradição ou envolvimento com a indústria do vinho, mudar globalmente a filosofia de produção desse produto, por duas ou mais décadas?

Esse artigo não é técnico, mas uma reflexão sobre a influência que Robert Parker, um renomado crítico norte-americano de vinhos, exerceu sobre a indústria, estabelecendo padrões que afetaram a forma de produzir e comercializar vinhos globalmente.

Teria sua influência sido benéfica ou maléfica?

Fonte: Decanter Agosto/2020

Uma legião de simpatizantes e outra de críticos fervorosos

É comum ouvirmos declarações do tipo:

“Acho uma pena que toda uma indústria tenha se moldado ao gosto dele …”

ou

“Ele tirou toda a magia e encanto do vinho ao criar um sistema de pontos que não reflete a história de cada vinho …”

Algumas dessas expressões, proferidas por gente igualmente influente e renomada na indústria do vinho, parecem-me carregadas de ressentimento, até de certa inveja, culpando-o de ter provocado, deliberadamente, essa mudança no perfil de produção da indústria.

Uma indústria que, na minha opinião, insiste em se pautar mais pelos relacionamentos, informalidade e manutenção das aparências, do que por rigorosos padrões éticos e de transparência.

Uma breve visão de como surgiu Robert Parker[¹]

Robert McDowell Parker, Jr. nasceu em 23 de julho de 1947, em Baltimore, no estado de Maryland – EUA.  Criado numa pequena cidade chamada Monkton, é o único filho de um casal que não possuía qualquer proximidade ou tradição com o vinho.

Advogado de formação, o gosto pelo vinho surgiu de suas viagens à Europa, no final dos anos 60 e início dos 70, para visitar a então namorada, Patrícia Etzel, que lá estudava e que se tornou sua esposa em 1969.  Nos jantares de sua primeira viagem à Paris, teve a oportunidade de provar os vinhos da casa, servidos em jarros, muito diferentes dos que o crítico viria a preferir no decorrer de sua carreira.

De volta aos EUA, Parker criou um grupo de degustação com amigos, cujo objetivo era muito mais apreciar os vinhos do que os analisar.  Nesse período, Parker e os amigos se viram perdidos, no meio de tantas opções, cujas informações disponíveis na época eram irrelevantes para decidir se deviam, ou não, comprar um vinho (isso lhe parece familiar????).

Na década de 70, houve uma explosão no consumo de vinhos da classe média norte-americana.  Nessa época, uma série de escritores e críticos de vinho surgiram, acompanhando esse aumento expressivo da demanda, mas Parker os via com reserva, porque aparentemente haviam evidentes conflitos de interesse (muitos vendiam os vinhos que analisavam, ou eram amigos dos produtores, ou recebiam vinhos grátis, viagens, jantares e etc.).

Nesse contexto, Parker criou seu periódico (newsletter) sobre vinhos em 1978, chamado The Baltimore-Washington Wine Advocate.  O foco do periódico era ser um guia para o consumidor de vinho, sem qualquer tipo de vínculo ou conflito de interesses.  Nesse propósito, Parker foi muito bem sucedido, inclusive estabelecendo políticas que lhe deram credibilidade e reconhecimento, como pagar pelas amostras degustadas, não veicular nenhum tipo de anúncio ou matéria paga, pagar suas próprias despesas de viagem etc.

Além disso, criou uma escala de pontos que era mais compreensível pelas pessoas em geral, pois se assemelhava a outros tipos de avaliações com as quais estavam acostumadas (notas escolares, por exemplo).  Os vinhos eram avaliados por alguns critérios, objetivos e subjetivos, mas a pontuação final sempre se situava na faixa 50-100 pontos.  Essa escala ficou conhecida como a escala dos 100 pontos e foi muito bem recebida pelos consumidores.

+ Conheça a escala criada por Robert Parker

Ele se via como um paladino do consumidor, que não poderia ser influenciado pela fama, renome e tradições, fatores que sempre imperaram na indústria do vinho.  Não importava se o Château era famoso, pois se o vinho não lhe proporcionasse prazer ao beber, não seria recomendado.  E isso se tornou o seu lema.  Em uma das suas primeiras edições, ele condenou os Bordeaux 1973, incluindo os 1er GCC como o Château Margaux, ao qual se referiu como “um vinho terrível, muito delgado e acídico …”, para o qual atribuiu somente 55 pontos.

Parker sempre acreditou que o vinho deveria ter, como principal função, proporcionar prazer às pessoas que o bebem.  Essa busca pelo prazer, chamada de hedonismo, na verdade refletia, e reflete, o gosto de muitos consumidores, o que foi fundamental para estabelecer a credibilidade de suas opiniões e artigos.

Sua fama, contudo, se estabeleceu ao avaliar a safra de 1982 de Bordeaux como excepcional, contrariando a opinião de outros críticos renomados nos Estados Unidos de então (ex.: Robert Finnigan), despertando o interesse da indústria, e do público em geral, pelo seu periódico e suas considerações.

Foto com Taca na Mao

O impacto na indústria e suas prováveis causas

A partir da década de 90, o crescimento da reputação e influência do crítico foi exponencial.  Gradualmente, as avaliações e as notas de Robert Parker começaram a definir o sucesso, ou fracasso, de um vinho e de um produtor.  Uma nota alta do crítico, e posteriormente seus associados, significava um aumento certo na demanda, possibilitando inclusive o aumento dos preços.

O sucesso e a credibilidade se tornaram tamanhas que Parker conseguiu restabelecer o prestígio de regiões há muito esquecidas, como Châteauneuf-du-Pape, no Sul do Rhône, onde os próprios produtores reconhecem a importância do crítico no ressurgimento da apelação.

Tamanha influência e exposição deram margem ao aparecimento de apelidos como “O Imperador do Vinho” ou “O Rock Star do Vinho”.

Contudo, dado suas origens, como poderia esse crítico ter alcançado tamanha reputação e prestígio?

A meu ver, Parker ganhou a credibilidade com o público não por ser um estudioso e catedrático do vinho, mas por falar francamente ao consumidor, de uma forma simples e direta.  Chegou a ser processado, declarado como persona non grata em muitas regiões vitivinícolas, mas nunca deixou que isso abalasse a sua filosofia, seus credos e seu julgamento.  A imparcialidade, talvez tenha sido apenas afetada, como é natural, pelo seu próprio gosto, que aliás, coincidia com o da maioria dos consumidores.

Por que digo isso?   Simples …

Você pode comprar um vinho a primeira vez porque Robert Parker lhe deu uma nota alta.  Mesmo que você não goste do vinho, talvez você compre um segundo vinho, que também ganhou nota alta do crítico, muitas vezes assumindo que você não é um expert no assunto e que talvez por isso você não tenha gostado da primeira compra.

Mas não vai haver uma próxima vez, se você continuar não gostando das sugestões dele …  é natural … e você não vai mais confiar nas recomendações dele.  Atualmente, há outros críticos no mercado que parecem sempre atribuir notas altas aos vinhos que avaliam, quaisquer que sejam, e até o consumidor comum já desconfia da imparcialidade de tais avaliações.

Na minha opinião, a credibilidade do crítico não veio só pela transparência e imparcialidade, mas também porque a maioria das pessoas, na maioria das vezes, ficaram satisfeitas, talvez até encantadas, com os vinhos por ele recomendados.

Isto posto, produtores, negociantes, importadores etc., viram a oportunidade de capitalizar sobre o reconhecimento e credibilidade do crítico e, naturalmente, foram adaptando seus vinhos para se adequarem a um perfil de gosto que era mais recompensado pelo seu paladar, ou seja:  vinhos com fruta mais madura, mais alcóolicos e macios, com complexidade aportada pela madeira, mais robustos e menos austeros do que produziam anteriormente.

Eles perceberam que, caso Parker não viesse a gostar dos vinhos, ele definitivamente não os recomendaria, usando uma linguagem clara e simples.  Sua postura era diferente da de seus predecessores, os quais nunca criticavam os vinhos que provavam, pois os recebiam gratuitamente, prejudicando a imparcialidade dos seus julgamentos.

A questão fundamental é a credibilidade … tanto do crítico, quanto dos atores …

Parker foi reconhecidamente um brilhante degustador de vinhos de Bordeaux, Califórnia e Rhône, mas também foi reconhecido por não ter um paladar ajustado à Borgonha e outras importantes regiões produtoras de vinho.  Assim, pergunto aqueles que têm algum conhecimento sobre vinhos:

Os vinhos da Borgonha, são fáceis de tomar e entender??

A Borgonha deixou de ser renomada, por que Parker não avaliava bem os vinhos dela?

Teria o Domaine Romanée-Conti perdido algum prestígio por uma eventual crítica ruim do Parker?

Será que Vega Sicília e a sua principal cuvée (Único) perderam reputação porque receberam alguma nota inferior do Parker?

Tenho a impressão de que os produtores que sempre tiveram renome e nunca se descuidaram da qualidade de sua produção, não tiveram problema ou favorecimento significativos a partir da opinião de Parker.  Eles também não mudaram a forma de trabalhar por causa do crítico, mas sim se mantiveram fiéis aos seus credos, autênticos, procurando sempre fazer o que fazem de melhor …  superar-se a cada ano!!  A reputação que construíram é tão sólida que raramente sofrem algum impacto negativo da opinião dos críticos.

Além disso, os vinhos de estilo econômico e de alto volume, encontrados nos supermercados e que são a esmagadora maioria dos vinhos produzidos e consumidos no mundo, muitos sequer são avaliados por críticos e são produzidos com foco no consumidor e na facilidade de bebê-los (drinkability), não sendo afetados pelas opiniões dos críticos.

Estima-se que somente 5% de todos os vinhos produzidos sejam de guarda, ou seja, podem melhorar com o passar do tempo.  Normalmente, esses são os vinhos na agenda dos críticos, os quais são direcionados para as classes média e alta, onde a busca por status e glamour é uma questão de desejo.  A meu ver, Parker de fato influenciou o estilo de produção desses vinhos, que também eram consumidos e julgados pelos outros críticos e isso é o quê se tornou o ponto de disputa e ressentimento.

Contudo, é fato que os produtores das regiões que Parker bem avaliava poderiam ganhar mais ou menos com base na sua avaliação.  Lançamentos en primeur (mercado futuro) em Bordeaux, eram diretamente influenciados pela avaliação direta do crítico, dada sua reconhecida preferência e conhecimento dos vinhos da região.  Porém, de certa forma, isso sempre ocorreu, porque Bordeaux é uma das regiões onde a safra faz diferença, devido as condições de crescimento de cada ano.  Parker, na verdade, era mais um dos julgadores de como o produtor trabalhou o que obteve no vinhedo e do resultado que atingiu, diferenciando-se dos demais por sempre preservar sua imparcialidade.

Os produtores e regiões menos renomados é que talvez tenham capitalizado mais nas opiniões do crítico e moldado seus métodos de produção para agradá-lo.  E isso faz sentido, já que quem tem menos prestígio, precisa de patrocinadores, defensores (champions) para influenciar os consumidores que não conhecem seus produtos.

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Completando a questão da credibilidade, relato dois eventos para refletirmos:

Uma pessoa que tem milhares de seguidores numa rede social me ofereceu um excelente Chardonnay da Borgonha dizendo que ele era “comparável ao Haut-Brion Branco” …

Um site de uma importadora, que respeito demais pela seriedade do trabalho, anunciava que um vinho Espanhol era “melhor que o Vega Sicília Único, na opinião de muitos clientes …”, ainda que custasse 10 vezes menos.

Muitos dos atores nessa indústria acabam por criar uma falsa percepção de valor dos seus produtos, infelizmente.  Não acredito que, na maioria das vezes, isso ocorra por má fé, mas sim por desconhecimento sobre a indústria e as características dos produtos que eles representam.

Nos dias de hoje, existe um contingente de influencers, vendedores, consultores etc., muitos dos quais não estão adequadamente preparados às funções que se dispõem a executar ou são diretamente interessados nas vendas dos produtos que recomendam.  E essa realidade não é nova.  Como dito anteriormente, Parker e seus amigos a enfrentaram desde quando começaram a beber vinhos, nos anos 70, mas devido às mídias sociais o volume hoje é incalculável.

A melhor arma contra esse comportamento tendencioso de muitos dos atores, como sempre, é o conhecimento e, quando você não o tem, ter alguém de confiança que o tenha é de extrema ajuda (credibilidade da fonte).

A meu ver, foi a própria inabilidade da indústria de vinho de focar no consumidor final e suas necessidades, de forma verdadeira e autêntica, a causa do surgimento do mito Robert Parker.

Reconhecimento da crítica especializada[²]

Após anunciar sua aposentadoria em 2019, vendendo seu periódico e o site robertparker.com para o Guia Michelin, Robert M Parker Jr criou condições para que a prestigiosa revista britânica Decanter o elegesse para a sua Calçada da Fama (Hall of Fame) em 2020.  E a revista escolheu um dos seus mais brilhantes jornalistas e críticos, Andrew Jefford, para uma entrevista muito interessante com Parker sobre sua carreira, realizações e frustrações.

Nessa mesma edição, Andrew Jefford escreveu em sua coluna habitual um fantástico artigo que questiona se as pessoas que bebem vinho realmente o fazem para buscar o prazer acima de tudo, ou não.

É incontestável que Parker deixa um legado importante ao mundo do vinho como um todo, desde a crítica especializada imparcial até as mudanças de estilo de produção de vinhos que influenciou.  Dificilmente outra pessoa conseguirá assumir o seu lugar com a mesma proeminência que teve.

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Entretanto, apostas à parte, é justamente a nova Editora Chefe do site robertparker.com (Lisa Perrotti-Brown MW) o crítico que mais me impressiona nos dias de hoje.  Ela une o conhecimento do seu merecido título de Master of Wine, com muito do aprendizado prático de degustação que teve com um dos maiores críticos de todos os tempos.

Robert Parker e Lisa Perrotti-Brown

Finalmente, tão logo Parker passou a dar sinais de uma iminente aposentadoria, surgiu uma nova onda no cenário global de produção de vinhos.  Agora, a tendência é fazer vinhos com mais acidez natural, com uvas colhidas mais cedo, mais elegantes, menos concentrados e alcoólicos e diferentes do estilo consagrado pelo gosto de Parker, ou seja, produzir vinhos “não parkerizados” ou “não pasteurizados”.  Finalmente a indústria do vinho se libertou do palato implacável e rude de Robert Parker e voltamos a era do terroir e dos bons e velhos tempos …

Porém, a pergunta que fica é:

Será que essa nova onda foi iniciada como uma resposta legítima à demanda dos consumidores de vinhos?  Ou será que é mais uma tentativa de agradar aos paladares dos críticos que agora disputam o trono vago?????

E você?  Qual sua opinião sobre Parker?

Vilão ou mocinho?????

Referências:
¹McCoy, Elin (2005)  Robert Parker – O Imperador do Vinho, (Rio de Janeiro, BRA) Editora Campus 1ª Edição 2006 – Português – ISBN 978-85-352-1939-5
²Decanter Magazine (2020) Robert M Parker Jr – Decanter Hall of Fame – Edição de Agosto de 2020 – pags 18-25
Carlos Eduardo Mazon
Consultor Independente de Vinhos
Sommelier ABS-SP | WSET 3 | EVP | FWS

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