Vindima 2020 na Adega de Penalva do Castelo

Por Virgílio Loureiro

Ainda fermentam os últimos vinhos da colheita do ano da pandemia na Adega de Penalva, mas já é possível fazer um primeiro balanço.

Quando se planeou a campanha o otimismo não era a palavra de ordem, não só por a profunda crise que vivemos ter afetado profundamente as vendas de vinho, mas também por algumas geadas tardias terem vindimado boa parte da “novidade” ainda antes dos santos populares. Em contracorrente com este malfadado ano bissexto, há que realçar os poucos trabalhos que as doenças e pragas da vinha causaram aos produtores. Foi um ano calmo, onde o míldio pouco se fez sentir e o oídio também. No entanto, o clima foi, mais uma vez adverso, pautando-se por muito calor e pouca chuva, principalmente nos últimos meses do ciclo vegetativo, que conduziram a uma inesperada antecipação do início das vindimas.

Face à prevista quebra de produção e à maturação muito rápida das uvas as expetativas não podiam ser altas. Como diz a sabedoria popular “Galinhas apressadas dão pintos carecas” e, por igualdade de razões, uvas apressadas deixam os enólogos de pé atrás.

As vindimas começaram a 8 de Setembro, com a receção de uvas para preparar os vinhos base de espumante, que exigem elevada acidez e pouco grau. Uma semana mais tarde começou a vindima das uvas para os vinhos brancos e quando estas começaram a chegar à adega deixaram toda a gente contente, pois estavam sanitariamente imaculadas e com um equilíbrio perfeito entre o açúcar e álcool. A colheita das uvas tintas estava aprazada apenas para a semana seguinte, mas os primeiros sinais de alerta foram dados quando nos apercebemos que o calor e a seca estavam a desidratar rapidamente as uvas. Resolveu-se, então, antecipar o início da vindima em dois dias, permitindo que a casta Jaen, a mais temporã, não sofresse tanto com o calor.

As uvas tintas estavam, também, perfeitas, mas ninguém estava sossegado, pois os meteorologistas prenunciavam chuva e, até, tormenta, durante quase dez dias seguidos! Era tempo de dirigentes, associados e enólogos da cooperativa consultarem a toda a hora a previsão meteorológica que lhes aparecia no telemóvel, na esperança – quase sempre vã – de verem a previsão melhorar. As primeiras chuvas foram “bem molhadas” e os enólogos começaram a ter noites mal dormidas! Será que a podridão ia entrar em cena e frustrar os projetos de grandes vinhos de Alfrocheiro, Tinta Pinheira e Touriga Nacional? Para enorme surpresa de todos nós os meteorologistas, que só se costumam enganar quando anunciam bom tempo, também se enganaram desta vez, com a previsão da chuva.

A meio da vindima regressou o otimismo, pois as uvas tintas continuavam imaculadas, bem maduras e cheias de perfume. Começava-se a acreditar que a vindima do malfadado ano de 2020 podia vir a ser histórica. Os primeiros vinhos feitos deixavam-nos contentes e as uvas que chegavam à adega até tinham beneficiado com as chuvas da semana anterior, pois tornaram os bagos mais túrgidos e com excelente aspeto.

No feriado de comemoração da República entraram as últimas uvas na adega – os vinhateiros não se podem dar ao luxo de gozar os feriados em época de colheitas – e, com quase todas as cubas da Adega de Penalva cheias, podíamos começara fazer contas à campanha. Foram mais de 4,7 milhões de quilos que os associados entregaram na sua cooperativa. A quebra de produção causada pelas geadas e pela chuva que perturbou a floração foi da ordem de 28%, relativamente à campanha do ano anterior. Em todo o País e na região a quebra foi grande, mas em Penalva do Castelo não nos podemos queixar, pois houve regiões onde a quebra foi de 40%. Porém, se a produção foi fraca, a qualidade promete muito.

A fermentação maloláctica dos tintos ainda não se realizou e, por isso, não se podem deitar foguetes, mas toda a gente da adega anda com um sorriso na cara. O ano de 2020, de má memória para todos nós, talvez possa vir a entrar no quadro de honra das grandes colheitas da região do Dão.

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