Manifestação em defesa do mundo rural no Terreiro do Paço

Sexta-feira, dia 22 de novembro, pelas 15 horas, o mundo rural, desloca-se até ao Terreiro do Paço, em Lisboa. Trata-se de uma manifestação pacífica em nome de um mundo rural que, segundo os organizadores, está a ser atacado por decisões tomadas nas cidades sem enquadramento daquilo que é, efetivamente, a realidade do interior.

Os organizadores, ou mentores, desta ideia apresentam o movimento como totalmente apartidário e com um único objetivo, defender a ruralidade e uma faixa de território que está cada vez mais desertificada e que pode, com toda esta legislação, ficar mesmo ao abandono.

André Grácio é advogado. Manuela Ruivo é produtora agrícola. São ambos de Abrantes e defendem, com unhas e dentes, o mundo rural nas suas mais variadas faces.

“Esta manifestação junta o caçador, o pescador, o agricultor, o apicultor, o criador de gado, o canicultor, o ganadero (…) porque são eles que fazem o mundo rural”, salienta André Grácio ao mesmo tempo que explica que “não temos objetivos partidários, nem temos colados a nós qualquer partido”. E depois acrescenta, com mágoa, que este movimento está a ser colado à direita porque, por exemplo, “já ouvi, recentemente, uma entrevista (…) na qual a dirigente do Partido Ecologista Os Verdes, Heloísa Apolónia, explica que o seu partido está ligado à CDU porque os ambientalistas são de esquerda. Nada mais errado. Nós não somos de esquerda, centro ou direita. Nós queremos defender o mundo rural. Apenas isso”.

Já Manuela Ruivo salienta que este movimento não tem nenhuma mensagem para nenhum ministério em particular. “Queremos mostrar que o mundo rural existe, está unido e tem voz”.

Manuela Ruivo revelou que o mundo rural “é o interior. São as pessoas que ocupam este espaço. Que continuam a produzir riqueza neste meio. Que existem tradições que se devem manter. Mas que não haverá vida se acabarem com todas as tradições e a vida”.

Já André Grácio sustenta que “o mudo rural é autossustentável. Não lhe tirem a vida”. E deu o exemplo de um partido [PAN – Pessoas Animais Natureza] que criou uma “mensagem contra o leite, carne, produção de milho, produção de arroz, contra a pesca, contra a caça (…) tinha um deputado e agora tem quatro. E isso assusta-nos”.

O movimento diz que não vai a Lisboa contra ninguém. Querem apenas defender as tradições e André Grácio sustenta esta mensagem “gostar das nossas tradições, das nossas raízes, da nossa gastronomia não tem lado, não é de esquerda ou direita. Trata-se de defender aquilo que é nosso”. Daí que não apontem qualquer mensagem a qualquer um dos ministros. Porque Teriam de juntar a Agricultura, o Planeamento, o ambiente, a Coesão Territorial e todos os outros. Dizem os mentores do movimento que no dia 23 [dia seguinte à manifestação] não haverá movimento político ou mensagem política. Apenas querem defender o mundo rural contra aquilo que dizem ser as muitas políticas definidas por uns senhores em Lisboa que não percebem nada do campo, do mundo rural e das suas tradições.

Manuela Ruivo deu o exemplo da tauromaquia como sendo aquele mais visível na sociedade porque cria os extremismos mais visíveis dos movimentos ditos ambientalistas e animalistas. Olha-se para este setor apenas para a arena da praça de touros. E sustenta esta tese. Ninguém olha para aquilo que é a economia do setor. Aponta-se só o dedo à barbaridade sobre o touro. Trata-se de um setor que “pode morrer”. E adianta. Se num estalar de dedos fossem proibidas as touradas, podiam acabar a raça de touros que é criada [mantendo as características genéticas] para este meio. Acabam os empregos que essas herdades criam. E os cavalos. E as costureiras que fazem as fardas. É muito fácil olhar só para o momento da arena e criticar. Mas se isso acontecesse, por decreto, era mais uma facada no mundo rural e no sustento de muitas famílias que vivem à volta dessa economia. E André Grácio acrescenta. “São quatro anos a preparar o gado para aquele efeito. São quatro anos de investimento nos animais. Isto não pode ser apenas olhado pela rama”.

E nos exemplos do mundo rural, “o qual querem acabar” os caçadores são outro exemplo. André Grácio diz claramente que a mensagem que passa é que os caçadores são uns “tipos” que andam ali a matar animais por prazer. Mas, mais uma vez, é mais fácil olhar para a rama do que para toda a árvore ou até para a floresta. “Já não há caça livre, como na década de 70 ou 80. Agora, para haver uma zona de caça as associações têm de ter autorizações e, nalguns casos contratos, com os proprietários dos terrenos onde irão caçar. Este é um trabalho de cadastro [que o Estado tanto fala] e que nós, os caçadores, fazemos. Não podemos ter uma zona de caça em terrenos que não tenhamos autorizações para tal. Mas nisto ninguém fala. Apenas que é uma atividade para os ricos”.

Mas André Grácio vai mais longe e depois revela que, mesmo nos locais onde é proibido caçar, haverá sempre dispositivos, por exemplo, de controlo da densidade populacional de determinada espécie. E aí recorrem aos caçadores. Mais uma vez, revela, trata-se de uma questão “ambiental”, mas só vista de uma perspetiva dos “animalistas” muitas vezes sem qualquer fundamento ou conhecimento daquilo que são as realidades do país, do interior do país.

Para sexta-feira ambos revelam que não sabem quantas pessoas vão estar no Terreiro do Paço. Podem ser umas centenas ou uns milhares. Apenas sabem que há movimentações de norte a sul do país. “Há associações que se juntaram a nós. Outras não quiseram associar-se, mas temos, individualmente, os seus elementos.” Garantem que haverá presenças de Trás-os-Montes ao Algarve. Garantem que há todos os setores de atividade do mundo rural, inclusive armadores de pesca que, mesmo sendo do litoral do país, se querem juntar a este movimento.

Há uma garantiam que André Grácio e Manuela Ruivo deixam. É que nada será igual depois de 22 de novembro de 2019. Porque “temos o caçador a falar à mesma mesa

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