As estradas da morte (incluindo EN234 na Urgeiriça). OPINIÃO por Amadeu Araújo

Celebrados todos os santos e lembrados os fiéis defuntos, é tempo de recordar os que já partiram e reencontrar os que ainda resistem, como o de 24 de junho de 2015, ferido ligeiro num acidente na Estrada Nacional 234, que escapou de sinistro aos Valinhos que logo ali, há 4 anos, tinha sido peticionado 3 semanas antes. Ora deste fim-de-semana alargado, e alagado, sobreveio a morte a dar mote para lembrar. Mais um acidente no cruzamento da Urgeiriça, numa situação que é de todos, e por todas para ser puritano dos costumes, conhecida.

Fregueses, munícipes, deputados, Governo e até aquela empresa pública, a sociedade anónima que gere, administra e conserva a rede viária nacional. De tão anónima que as estradas estão como estão, mas não queria assarapantar o mapa e vou ficar ainda de bússola na Infraestruturas de Portugal, que teima em não dar respostas, em não resolver o grave constrangimento da EN-234, quer seja para a Urgeiriça, para Canas ou para Vale de Madeiros. Até para as Caldas da Felgueira. Por ali passam trabalhadores a caminho do emprego, mercadorias em deslocação para exportação, fruta em direção à mesa e à mercearia. Por certo que não será difícil, tão pouco caro, resolver o raio da estrada que mata. E se houvesse entre os anónimos das infraestruturas responsáveis pela estratégia, veriam até que a estrada composta aliviaria o IP-3, que neste domingo registou colossais atrasos, daqueles que reclamam quase 3 horas para fazer 70 quilómetros. Enquanto uns morrem, outros atrasam-se, como o socorro em Carrazeda de Ansiães onde o Humberto Coelho, o padre, não o jogador, prega por 19 paróquias. Padre e bombeiro sabe o que são estas coisas da interioridade e dos atrasos. Por isso anda de desfibrilhador automático externo no carro. Num território que vive os dramas do interior, quis assegurar que mais ninguém lhe havia de morrer nas mãos por falta de socorro que o Estado teima em não garantir. Como acontece ali em Santa Cruz da Trapa, que só é notícia quando há fogos ou o Pedro Dias por lá passa, talvez em dias aflitos do rio Teixeira. Pois bem, teve de ser um orçamento participativo, votado pelo povo, a prover 15 456 euros e um cêntimo para melhorar as comunicações dos bombeiros da terra. Uma linguagem inclusiva que escapa à Infraestruturas de Portugal que esquece as máquinas de britar e asfaltar, mas conhece muito bem as debulhadoras e as serradoras. Em Ribeiradio, na EN-16 que é outra via que mostra bem o zelo e a qualidade dessa sociedade anónima que cuida das nossas estradas. Lá, em Ribeiradio, a sede da Banda Marcial Ribeiradiense ficou descascada e, quando regressar o astro rei, ficará encalorada e ensolarada. A nossa empresa Infraestruturas de Portugal, que sustentamos à laia de impostos e a cujos administradores pagamos generosos salários, voltou a pegar na motosserra. Foram 80 carvalhos, daqueles que levam tanto a crescer que dá para extinguir a Junta Autónoma de Estradas e criar a Infraestruturas de Portugal. Lá em Ribeiradio, enxugo as lágrimas e retomo, foram abatidos oito dezenas de carvalhos, sem que alguém fosse notificado, alertado ou pudesse impedir a tragédia. Em Ribeiradio como na Urgeiriça o ferro da tragédia tem o mesmo braço e nem o tempo o apagará. Recordaremos os que morrem, árvores e pessoas, na berma de uma estrada. Até que quem manda na máquina do Estado, nesta república de doidos, consiga somar todos os afetos que nos arrancam da alma e perceba as coisas simples da vida. O direito a ter uma estrada segura e sombreada.

Amadeu Araújo

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