A dieta”moderna” e a obesidade. Opinião pelo médico, Vasco Jorge Almeida

Vasco Jorge Almeida

“O que há de mais poético no mundo é não estar doente” G.K. Chesterton

Existem poucas pessoas, entre nós, que desconheçam as causas mais comuns de morte: doenças cardiovasculares, distúrbios metabólicos e neurodegenerativos ou cancros.

Apesar do melhor que temos tido na nossa vida “moderna”, vivemos mais, o que é uma das razões do aumento importante das doenças neurodegenerativas, que aparecem mais frequentemente na velhice. A doença de Alzheimer e a demência são a causa de morte em pessoas com mais de 85 anos.

Todos esperamos e queremos viver mais.

No último século, acrescentámos mais de três décadas ao nosso tempo de vida. A esperança de vida tem estado a subir rapidamente e previa-se que as mulheres poderiam aumentar dois anos às suas vidas e os homens três. Mas, nos últimos sete anos, houve um tropeção nestas contas. Em 2010 a esperança média de vida para as mulheres era de 82,6 e 78,7 para os homens. Até 2015, estes números deveriam ser de 83,6 para as mulheres e de 80,2 para os homens.

Ambos ficaram longe e os números que se registaram foi de 83,1 e 79,6, respetivamente para as mulheres e homens.

A nível mundial, a esperança média de vida saudável emerge um padrão semelhante no qual a saúde relativa de um país se alinha com a sua riqueza.

Entretanto, à medida que a ciência progride, à medida que a ciência continua a operar “milagres” com estratégias de cuidados paliativos, a esperança média de vida irá continuar a crescer.

Para muitos a ideia de envelhecer é deprimente. Pensar que a vida depende de prescrição médica, da toma de medicamentos, ficar amarrado às limitações da mobilidade, ser “obrigado” a sair da sua casa, pagar assistência, enfraquecer ao ponto de não sair da cama e tomar banho sozinho- A verdade é que toda esta cascata de fases da vida, não nos dá uma perspetiva convidativa.

Mas este não é, seguramente, o futuro de todos. A expectativa de vida está mais do que ligada à situação financeira, embora muitos dos elementos que contribuem para um bom futuro, estão associados a um rendimento inferior, mas não inevitavelmente ligados a ele.

O fator principal, talvez seja, a dieta. As calorias são baratas, os produtos biológicos não são; e será que mesmo os melhores alimentos biológicos são nutritivos?

Estamos a engordar por causa de um aumento de ingestão de calorias contrabalançando com uma queda “brutal” no gasto de calorias, quer no trabalho, quer nos momentos de lazer, que cada vez mais nos obriga a ficar sentados, para usufruir deles.

O tempo que estamos sentados, em média, é de cerda de 100 horas por semana, o que é mais tempo do que aquele que dormimos.

O corpo humano mudou significativamente ao longo da história, condicionando a própria evolução da espécie. Num mundo em mudança acelerada, o nosso corpo está a sofrer impactos imprevisíveis. Como podemos tirar partido da vida moderna sem comprometer o nosso bem estar?

Ao mudarmos “o mundo” os novos hábitos mudaram o nosso corpo e alteraram o ADN.

A obesidade é uma doença complexa, com muitas causas entre as quais: a influência genética, biológicas, pré natais, sociais, ambientais e psicológicas.

Num artigo da revista The Lancet, de 2012, que primeiro relacionou os riscos de mortalidade do sedentarismo com o tabagismo. Nesse artigo diz-se “ A inatividade física sobrecarrega a sociedade através do custo do oculto e crescente dos cuidados médicos e da perda da produtividade. Fazer com que o público se exercite é uma prioridade de saúde pública, porque as pessoas inativas estão a contribuir para uma carga de mortalidade tão grande como o tabagismo”.

Este artigo faz-nos pensar nas causas dos anos de vida ajustados por incapacidade: riscos dietéticos; tabagismo; Índice de Massa Corporal alto – IMC (excesso de peso e obesidade); tensão arterial alta (Hipertensão Arterial); consumo de álcool e drogas; açúcar no sangue elevado (diabetes); colesterol alto (dislipidemia); doença renal; reduzida atividade física; riscos ocupacionais. Tirando o tabaco, o consumo de álcool e drogas e os riscos ocupacionais, os anos de vida ajustados por incapacidade parecem ser quase totalmente determinados por dieta e movimento e se tivermos que escolher entre os dois o maior fator de influência maior será o movimento.

Nesta lista, há muitas correlações; pois, o excesso de peso ou a obesidade está associado à baixa atividade física e aparece associado a outras patologias, tais como, a hipertensão arterial, a diabetes, a doença renal. Tudo isto são fatores favorecedores de outras patologias e não as suas causas.

No nosso país, muito do que está a acontecer, obesidade infantil, excesso de peso e obesidade grau I, II e obesidade mórbida, deve-se fundamentalmente pela ingestão muito calórica das nossas refeições, pelo imobilismo.

Portugal, tem uma história rica com o tipo de alimentação que fez durante décadas – dieta mediterrânica. Hoje, com o tipo de vidas profissionais que a maioria das pessoas têm; as condições económicas e a falta de vontade e empenho de contrariar tudo isto, estamos a ter números assustadores no que se refere ao aumento enorme da obesidade infantil, juvenil e nos adultos.

Urge, mudar os comportamentos alimentares; mas, não menos importante, iniciar exercício físico diário de cerca de 45 minutos. O exercício é aquele que mais gosta de fazer, caminhar, correr, bicicleta, natação….Todo o exercício é bom, a preferência terá a ver com o nosso gosto e as nossas limitações físicas.

“Nenhum conforto material pode igualar o luxo de um sapato sem folga, amplo e flexível. Naturalmente, o segredo é que um bom sapato minimalista nos permite caminhar naturalmente e encontrar em exercícios naturais simples não apenas saúde, mas sanidade e também felicidade. Se eu fosse uma fada e me pedissem para dar um presente ao homem e à mulher do século XX, dar-lhe-ia um par de sapatos confortáveis à medida” Bliss Carman, 1908

Este portal utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização Saiba mais sobre privacidade e cookies