Eu e Rescaldo Eleitoral.Opinião por Francisco Cardoso

EU

Há cerca de 40 anos escrevi uns quantos artigos em alguns meios de Comunicação Social Local, mas nunca escrevi uma Crónica

                                         IN NILLO TEMPORE era um homem acabado de sair da juventude, decorria em Portugal a revolução dos cravos de que há muito ansiava, e pela qual já havia pago algum preço.

                                        Eram tempos de sonhar, idealizar e de lutar por uma sociedade mais livre, mais justa, mais igual e mais digna.

                                        Juntei-me a centenas de jovens, mulheres e homens menos jovens, e com eles, pretendi percorrer um caminho para que os princípios da revolução francesa, (Liberdade, Igualdade, Solidariedade, fraternidade) fossem efectivos no meu país.

                                         Sabia que o caminho não seria fácil, sabia que seria moroso e que possivelmente não seria na minha vida, que todos esses princípios se implantariam neste cantinho a beira-mar plantado, sabia que tinha de trabalhar muito e lutar muito mais, sabia que teria que ultrapassar barreiras, mas também sabia que valia a pena.

                                        Muitos, talvez a maioria, não estavam preparados para o sacrifício da espera, os mais jovens eram os mais apressados, o culto da palavra “já”, encarregou-se de os levar a fazer desvios e a atrasar a marcha para o objectivo.

                                     Em 1975 depois da maioria dos meus companheiros se terem desviado da rota e terem aderido a partidos de extrema-esquerda, estudei os programas dos partidos que me pareceram mais fiáveis, PCP, PS, PPD, CDS e analisei a personalidade dos seus líderes.

                                          Operário Fabril, filho de Mineiro, Irmão de Operários Metalúrgicos, admirador da Social-Democracia e do Socialismo Democrático, decidi filiar-me no Partido Socialista onde milito há 44 anos. Mário Soares, foi e será sempre a minha referência política, Camilo Cienfuegos o meu herói de juventude  

                             Sindicalista, Autarca e Dirigente partidário, no cair do pano, vou-me divertindo, vendo os meus companheiros da esquerda radical de então, agora filiados nos partidos de direita

                                       Agora que sabem alguma coisa de mim, vamos à Crónica, que eu preferia chamar artigo de opinião.

                 NO RESCALDO ELEITORAL

                                    Na verdade o que vou escrever faz-me lembrar um livro que li há muitos anos “Crónica de uma morte anunciada”, creio que esse livro foi adaptado ao cinema e deu origem a um filme com o mesmo título.

                            Pois, em relação às eleições legislativas o que se pode escrever é “Crónica de resultados eleitorais esperados”.

                                Quem esteve atento ao resultado das várias sondagens que a comunicação social fez, ou mandou fazer. Quem esteve atento ao decorrer da pré-campanha e à campanha eleitoral, às declarações feitas pelos líderes das forças partidárias, facilmente se apercebia da normalidade dos resultados das eleições de 6 de Outubro da 2019.

                                 Sabia-se que o PS ganharia as eleições (36,7%), logo sem maioria absoluta. O PSD não iria ter uma grande derrota (27,9%). O BE se iria manter, embora com uma descida muito ligeira, (9,7%), tão ligeira que nem deu para perder sequer um mandato. O PC no seu movimento de sobe e desce, (6,5%), vai-se esboroando muito lentamente, tem uma pequena derrota, perde 5 mandatos, mas mantém-se como força política que poderá fazer de charneira à esquerda e obter ganhos durante a legislatura. O grande derrotado nestas eleições, que também já se previa, foi o CDS-PP (4,3%) elege apenas 5 deputados e perde a sua referência no distrito de Viseu, Hélder Amaral. Se alguém ficou surpreendido com o crescimento do PAN (3,3%), com certeza que andou distraído durante estes últimos 4 anos.

                                  Vou por agora deixar o Chega, a Iniciativa Liberal e o Livre para a análise final e concentrar-me nos outros 7 partidos com maior representação na AR.

                                Quem conhece o Secretário-Geral do Partido Socialista, sabe que ele não gosta de maiorias absolutas, dir-me-ão, então porque veladamente a pediu; mal feito seria, se desse a entender que a não queria. Ele sabia que os portugueses ficaram fartos de maiorias absolutas, também sabia que se não reforçasse a sua posição teria que fazer mais cedências num programa conjunto de governo, por isso, aí temos a justificação do apelo.

                               António Costa é um negociador nato, (costela indiana), adora negociar, não gosta de dar e receber sem regatear, é genético nos indianos, não gostam de receber muito porque sabem que têm que retribuir na mesma medida, preferem receber menos dando pouco ou quase nada, em suma, negócio sim, mas com lucro.

                               Em meu entender, Rui Rio embora não tenha ganho as eleições também é um vencedor, a sua capacidade de resiliência é notável. Herdou de Passos Coelho um PSD falido de ideias, envolto num emaranhado de bruxas e diabos, derrotado copiosamente nas eleições autárquicas de 2017, um grupo parlamentar que mais parecia um saco de gatos assanhados, que não escolheu, e muitos não conhecia.

                              Após ser eleito presidente do PSD passou a maior parte do tempo a por ordem na casa, lutou pela credibilização dum partido que tinha concorrido às eleições legislativas de 2015 em coligação com o CDS (PAF), que apesar dos (36,86%) de resultado obtido não se sabia quanto valia. Segundo o que foi acertado entre os dois partidos os mandatos seriam divididos na proporção de 80% para o PSD e 20% para o CDS, correspondendo 29,49% e 7,37% dos votos respectivamente. Ora assim sendo o partido mais votado nas eleições legislativas de 2015 foi o PS com 32,3 % dos votos.

                               É nesta confusão, nesta teia de interesses, que Rui Rio se encontra quando da feitura das listas para as eleições de 6 de Outubro de 2019; abandonado pelos barões do partido, que se juntam e conspiram com os facas longas, resistiu a esquerda e à direita nos debates, promoveu uma campanha de resistência e obtém 27,9% dos votos no país, e, vai ter mais umas décimas do votantes na Europa e no resto do mundo, que o fará ultrapassar os 28%

                                Rui Rio, em condições muito adversas resistiu, e conseguiu um resultado honroso para o PSD. Consegue segurar o núcleo duro do eleitorado do partido, coisa que duvido que Luís Montenegro com a sua empáfia conseguisse.

                                Uma derrota, ainda que honrosa é sempre uma derrota, eles aí estão, a brigada do J`Accuse, capitaneados por Montenegro, a pedirem a Rio as contas que nunca quiseram dar. Estes rapazes nunca puseram a cabeça no cepo, mas sempre adoraram pegar no machado.

                                O Bloco de Esquerda, navegou em águas calmas, já se previa que iria ter problemas com algumas cedências feitas a António Costa, mas esses problemas foram colmatados com algumas vitórias, umas de Pirro, outras efectivas, que obteve durante a legislatura.

                                 Catarina Martins, como boa, faz de conta que é, (actriz), conseguiu gerir muito bem o percurso da nau, levando-a a bom porto apenas com aranhões ligeiros. Mas bom porto, não é o mesmo que porto seguro, e, a coordenadora do BE sabe disso, está atenta, não quer mais geringonças à, ”Paulo Portas”, prefere uma geringonça à “Catarina Martins”

                               Os resultados eleitorais do PCP, estão dentro da normalidade. Sempre que uma legislatura corre bem, as populações deixam de estar pressionadas pela imprevisibilidade do dia seguinte, os rendimentos aumentam, as famílias respiram um pouco mais e a pobreza, ainda que pouco, retrocede, o voto de protesto tende a diminuir.

                               Os eleitores fiéis ao PCP apesar de terem menos representantes na Assembleia da Republica, sabem que não será por isso que deixam de estar muito bem representados, também sabem que a força do PCP é bicéfala, está no Parlamento e no mundo do trabalho. Quem pensar que o PCP saiu enfraquecido das eleições de 6 de Outubro desengane-se, pois está completamente enganado.

                              O desastre eleitoral de 6 de Outubro estava guardado para o CDS-PP. Assunção Cristas cavalgou os 20% que obteve em Lisboa em 2017, toma a árvore pela floresta, planifica a campanha para as eleições legislativas, dispondo a suas forças em tenaz.

                          Pretende com esta táctica atacar os flancos mais centristas do PS e com o grosso da coluna sub-repticiamente atacar e capturar o eleitorado de direita do PSD.

                               O plano não estava mal gizado, mas as forças eram poucas e desorganizadas, deixaram os seus próprios flancos desguarnecidos. Mas se a desorganização era muita, as armas eram tão poucas que confrangia, eram Tancos, Sócrates, Impostos, Corrupção, Insultos, mas algo que levasse os eleitores a acreditar, nada.

                               À Assunção tudo corria mal, as sondagens, a adesão popular e para mal dos pecados da Senhora até o Melo veio dar um empurrão para trás. Depois de uma noite de insónia, um turbilhão de pensamentos na cabeça que quase lhe provocara uma cefaleia: Eureka! Descobriu! Baixar em 15% no IRS para todos.

                             Assim, bibós cartazes, profusamente pendurados em tudo quanto era sitio no país.

                      Assunção Cristas cometeu mais um erro de casting, retrocedeu até aos anos 50 do século XX , quando o analfabetismo grassava na Belle-Époque Salazarista. Esqueceu-se que o tempo passou, que estamos em 2019, e que o 25 de Abril entre outras coisas boas que trouxe foi a educação, poder-se-há discutir a qualidade, mas nunca a quantidade, de analfabetismo só umas pequenas franjas brancas, todo mundo sabe fazer contas e sabe que os milhões de euros que ficariam por cobrar, iriam parar ao bolso de uns poucos, os mesmos do costume, e, uns muitos, também os mesmos do costume, iriam ficar apenas um pouquito menos que a apitar.

                               Quando alguém se apresenta para liderar seja quem for e dependa da vontade dos liderados para fazer de Cipião, tem que ter atrás de si a força necessária para se poder impor, neste caso para se fazer acreditar, deveria vir munida de determinação, humildade e respeito pelos adversários e pelos que pretende representar.

                               Tancos, Sócrates, Impostos, Corrupção, Insultos, uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, são fogos-fátuo que não convencem ninguém e se perdem no abismo. Terminada que é a contenda e se retira do campo de batalha, o contendor apercebe-se que a grade derrota não esteve na frente de combate mas sim na retaguarda; o terreno do seu flanco direito foi ocupado pelo Chega e os seus benfiquistas e o seu flanco esquerdo pela Iniciativa Liberal financeira.

                               Nos militantes e simpatizantes reina o pânico com o medo do benfiquista Ventura, que Chega. O perigo não está no Chega, está no PP, o Popular Popularucho apenas serviu para abastardar a Democracia Cristã, uma ideologia da direita civilizada e social que tanta falta faz a Portugal e às democracias europeias.

                                O perigo está nos neoliberais liderados por Luís Montenegro que se prepara para assaltar o PSD. O CDS-PP corre o risco de ser engolido pelos neoliberais se não for capaz de fazer introspecção e decidir que caminho pretende percorrer.

                               É difícil, é! Mas vale a pena, o tempo está a contar, agora depende dos militantes e simpatizantes da democracia cristã se querem ou não resistir, se pretende ser apenas CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL, ou se também pretendem ser PARTIDO POPULAR. Se os popularuchos se conseguirem impor dentro do CDS, os democratas cristãos terão sempre no PS um porto de abrigo, onde a pluralidade de opinião não e coisa vã, mas sim efectiva.

                              Se o CDS-PP e o grande derrotado, o PAN é o grande vencedor, multiplica por 4 o número de deputados eleitos em 2015. Dizia eu quando introduzi o tema desta crónica. Se alguém ficou surpreendido com o crescimento do PAN (3,3%), com certeza que andou distraído durante estes últimos 4 anos.

                              Há muito que se viam as madames e os monsieurs a passear os seus caniches pelas ruas do país. Nestes últimos 4 anos a coisa pegou moda, os animais passeantes mais que sextuplicaram e ouvem-se miaus por tudo quanto é lado. Claro que os jardins públicos e os passeios de manhã e à tardinha estão sempre cheios de dejectos, isto é, “merda de cão”, que os donos têm nojo de apanhar e os transeuntes são forçados a cheirar.

                               Conseguidas algumas leis que protegem os animais, tendo em conta a economia nacional, consumo cada vez maior de ração para cães e para gatos, mais algumas preocupações ambientais, eis os elementos catalisadores, da subida da votação no PAN.

                                Quanto ao LIVRE, é um partido simpático Liderado por uma pessoa, vão-me desculpar não me lembrar do nome dela, muito inteligente, com muitas preocupações sociais, o BE que se cuide.

Este portal utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização Saiba mais sobre privacidade e cookies