“Temos uma boa noticia para os portugueses: os medicamentos em Portugal são muito baratos; e temos uma má noticia: são tão baratos que não temos os medicamentos de que precisamos”

Presidente da Delegação Centro da Associação Nacional de Farmácias (ANF), Augusto Meneses, é também o gestor das Farmácias Marques em Viseu e Faure em Nelas. Em entrevista dá-nos conta dos grandes desafios do setor, que continua a passar uma fase difícil.

Pode revelar-nos os grandes objetivos do seu mandato como responsável pela ANF na região Centro – até 2022 -, assim como consegue conciliar o cargo com a sua atividade profissional ? 

Sou Presidente da Delegação Centro da ANF desde 2014. Com sede em Coimbra a Delegação Centro da ANF abrange cerca de 700 farmácias dos distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu e tem como missão catalisar a proximidade aos associados, promovendo a estratégia desenhada pela Direção Nacional. Através de iniciativas próprias e dando apoio local a projetos e departamentos do universo associativo materializa a valorização associativa. Nesse sentido fomenta a capilaridade da rede de farmácias, através de um aumento da acessibilidade ao portefólio de serviços disponibilizados pela ANF, apoia as suas atividades profissionais e gere a relação com os líderes de opinião e agentes do sector regionais.Para uma melhor articulação desenvolvo uma constante interação com a Direção Nacional o que me obriga a deslocações frequentes.

Tem vindo a ser feito um enorme trabalho de desconcentração de algumas valências da ANF para a Delegação Centro o que levou a uma aumento da sua atividade e consequente necessidade de novas instalações. De referir que a Associação Dignitude, IPSS tem a sua sede nas nossas instalações. Entretanto foi adquirido um edifício na cidade de Coimbra cujo projeto de requalificação acaba de ser aprovado. Um dos principais objetivos desta Direção a que presido é dotar a ANF deste novo equipamento. Só é possível conciliar este cargo com a minha atividade profissional porque a gestão da empresa tem a participação muito ativa do meu pai e as equipas de colaboradores atingiram um elevado grau de maturidade e profissionalismo.

No ordem do dia está a dificuldade que as farmácias têm em abastecer-se de certos medicamentos, alguns de uso diário de pacientes com doenças crónicas, como asma e hipertensão. Essa dificuldade pode estar relacionada com o aumento das exportações da indústria farmacêutica portuguesa? Recentemente (setembro 2019), numa carta enviada ao Infarmed, uma representante das 70 associações de doentes, associada à Convenção Nacional de Saúde, alertou para o problema.

O problema não é novo, não tem uma só causa e, embora se faça sentir com muita prevalência em Portugal, não é um exclusivo português. É, de facto, um problema bastante complexo e procurarei resumir os principais fatores que levam a que os nossos doentes não tenham acesso à medicação de que tanto precisam. À cabeça eu diria que o mercado do medicamento português não relevante nem em numero de unidades e ainda menos em valor. O preço do medicamento em Portugal é regulado.

Tipicamente os medicamentos em Portugal são vendidos a preços muito baixos quando comparados com outros países.Por outro lado o fenómeno da globalização levou à concentração da produção dos princípios ativos (matérias primas) e dos próprios medicamentos (produto acabado) que abastecem grandes geografias. O papel da indústria farmacêutica portuguesa neste cenário não é muito relevante.

Já a industria multinacional, quando tem um problema de escassez de medicamentos, que pode ter várias origens: o lote não passou o controlo de qualidade, a produção programada ficou aquém das necessidades, etc., etc., não olha para Portugal como uma prioridade de abastecimento. Por outro lado as diferenças de preços para o mesmo medicamento entre Portugal e outros países, nomeadamente do norte da Europa, justificam, economicamente, operações de exportação.

Há ainda situações em que o preço a que a indústria farmacêutica tem que vender o medicamento é tão baixo que pura e simplesmente não há interesse em produzir. Ou seja, temos uma boa noticia para os portugueses: os medicamentos em Portugal são muito baratos; e temos uma má noticia: são tão baratos que não temos os medicamentos de que precisamos.

Que balanço faz do crescente uso de medicamentos genéricos, ao longo dos anos? Tem sido este um fator que tem deteriorado a rentabilidade das farmácias, levando mesmo algumas à insolvência?

O crescente uso de medicamentos genéricos é um sinal de maturidade e inteligência e infelizmente a sua penetração no mercado estagnou e até diminuiu um pouco. Um medicamento genérico tem a mesma qualidade do original, gera poupança para o doente e para o co-financiador (normalmente o Estado) e induz à investigação de novas moléculas e novas soluções terapêuticas e assim vemos o arsenal terapêutico à nossa disposição mais alargado.Esta questão, por si só, não tem contribuído para que as farmácias vivam dias muito difíceis. Mais uma vez há uma complexidade de causas. A anemia que o mercado farmacêutico, como um todo, vive desde os tempos da Troika. Recordar que na altura foram prescritas medidas que gerassem uma poupança de 50 M€ no setor do medicamentos (farmácia e grossistas). As medidas foram de tal ordem que a poupança gerada se aproximou dos 350M€! A dose foi claramente excessiva e apesar disso nada foi feito para reverter a situação. Também o despovoamento e os territórios de baixa densidade ou a imposições regulamentares desnecessariamente onerosas contribuem para este cenário.

No plano anual das vossas atividades, além de rastreios diversos, têm também promovido a semana da saúde. Que balanço fazem destas atividades paralelas?

Vamos para a 4.ª Semana da Saúde de Nelas. É o nosso contributo para a literacia em Saúde. E, entendemos que é já uma instituição! É uma enorme satisfação ver como as pessoas aderem e aprendendo noções simples de saúde se divertem connosco.Todos os anos temos atividades novas e algumas exclusivas.Este ano vamos, por exemplo, promover uma visita ao Museu da Farmácia no Porto. Vamos também dedicar uma sessão para avaliar a “farmácia lá de casa”. Vamos fazer uma triagem dos medicamentos que as pessoas guardam e recordá-las para que servem e se ainda servem…

Que problemas de saúde verificam que nos últimos anos têm vindo a agravar-se, no que aos vossos clientes diz respeito? A prevenção em Portugal tem vindo a evoluir positivamente?

Com o aumento da esperança média de vida há uma série de problemas de saúde crónicos que surgem naturalmente. Os nossos clientes não fogem à regra quando a sua longevidade aumenta. Destacamos a hipertensão arterial, a doença pulmonar obstrutiva crónica e a diabetes. A prevenção tem vindo a evoluir mas não à velocidade necessária. Da nossa parte damos, no contato que temos de proximidade com os nossos clientes, o nosso contributo quer diariamente durante o atendimento quer por exemplo através da Semana da Saúde.

O farmacêutico faz muitas vezes o papel de médico? 

O âmbitos das profissões de médico e farmacêutico é bem claro e jamais o farmacêutico deverá fazer o papel de médico e vice-versa. Entendo que a sua pergunta possa antes ser: O farmacêutico pode ajudar a resolver problemas simples e recorrentes de saúde? Nesse caso eu diria que dentro dos limites da intervenção farmacêutica há muitos problemas que podem ser abordados na farmácia, libertando o médico para questões mais complexas. Mais, em muitos casos poderá informar o médico e consensualizar uma abordagem mais efetiva.

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