A campanha é uma oportunidade perdida! Opinião por José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira é natural de Folhadal e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Natal)

A campanha eleitoral que agora decorre, e que acompanho a praticamente seis mil quilómetros, mostra que o debate político é cada vez menos de ideias e propostas concretas, é um concurso de televisão em que ganha o candidato mais engraçado e/ou o que lança mais farpas para o ar. Sendo que dificilmente algum candidato consegue ter graça. Vale tudo, até baralhar os posicionamentos de esquerda, direita e centro. Na verdade apenas escutamos os figurantes. Muitos candidatos e respectivos partidos lançam nomes mas nenhum lança propostas para ir ao centro das questões.

Inquietante é ver a comunicação social, a dita de referência, que se diz sempre isenta, alinhar na brincadeira. Tanto alinha que marcou a agenda dos temas e o zigue-zague de alucinações. Pergunto para que servem os tais frente-a-frente, pois nunca avaliamos se esclarecem os eleitores ou apenas melhoram as audiências e ajudam a retirar das cinzas candidatos em decomposição. Gostaria de assistir a um ou mais desses debates na escala local e sem o aparato das televisões ou rádios nacionais. Tenho dúvida quanto às bazucas que mandam os ilustres líderes partidários. Se são propostas de políticas futuras ou apenas bombas perfumadas para atraírem a atenção das audiências. A estratégia que usam passa por mudar a cenoura a meio do percurso para abrir o apetite a quem prefira cenouras fresquinhas, mas no fundo não mudam nada, a cenoura é da mesma colheita e estava guardada no frigorífico para as ocasiões. Mesmo os novos partidos que se apresentam a votos não acrescentam nada. Produzem cenouras no terreno ao lado, mas os métodos de produção são idênticos, o mesmo é dizer, as suas propostas não acrescentam nada. Valem as boas intenções, porém, revelam desconhecimento das políticas actuais e da dificuldade em implementar meras generalizações.

Quem perde com tudo isto é o país. Na verdade, quem perde é a democracia e não é apenas a nossa, pois o problema não é apenas português. É a democracia e as formas de representatividade tradicional que está a ser posta à prova. Mostra, mais uma vez, que é necessário reforçar a participação social e inovar no referente a mecanismos de participação. Por outro lado, se estamos a gastar dinheiro público nas campanhas este deveria ser usado para colocar em prática novos formatos participativos. Se os partidos querem ser eleitos nesta base podem eles, através de financiamento transparente, suportar os custos das campanhas. Ninguém entende bem isto. Nunca temos dinheiro para envolver as populações, mas para comícios e panfletos nunca falta dinheiro. Podemos argumentar que as eleições são a base da democracia, direi que é parcialmente verdade. A base da democracia são as pessoas, a sua vontade legitimada, a confiança que conferem a quem elegem e o seu contributo em processos de decisão. Votar pode não garantir nada e temos visto em vários pontos do globo que nem a democracia garante. O voto e a convocação dos cidadãos por ocasião da necessidade da aprovação de qualquer plano ou projecto não motivam nem representam na íntegra os interesses colectivos. Participar na perspectiva de somente se legitimar elites não é bom, gera descrédito e desincentivo. Precisamos de novas metodologias que estimulem a cidadania activa. O acto eleitoral é apenas uma componente. Acompanhar as políticas é tão importante quanto eleger lideranças, infelizmente o processo participativo desaparece após a ida às feiras e mercados dos candidatos.

A campanha em curso reflecte tudo isso e a necessidade de se repensarem modelos e tempos de envolvimento dos cidadãos e não apenas dos eleitores. A campanha a que assistimos é mais em jeito de leilão que escuta e apresentação de propostas. Apesar de tudo isto, não é a democracia que está em causa, não adianta qualquer tipo de oportunismo para enganar as pessoas menos atentas. O que está em causa são os modelos de envolvimento cívico e o contributo dos arranjos partidários no regime democrático. Não estou com isto a ignorar a importância dos partidos, mas a questionar se realmente estão dispostos a servir o país ou se procuram a atenção dos eleitores para serem servidos. Nunca se viu uma campanha com propostas tão ridículas e fora dos eixos.

Um dos casos que ganhou destaque na antecâmara da pré-campanha foi o possível regresso do referendo à regionalização. Por obra e graça de alguém e patrocínio da grande comunicação social, o debate sobre o referendo e em particular sobre o desenvolvimento regional foi como que banido da campanha depois de ter partido na dianteira. Outro caso, é o da falsa entrada das  temáticas ambiental e climática na campanha, usadas essencialmente para amolecer o eleitorado e dar um tom de modernidade ao que tem mofo e está murcho. Os partidos do eixo do poder (que inclui igualmente os principais partidos da oposição) não apresentam nada de novo, prometem esverdeamento em áreas nas quais têm falhado. Pior ainda, foram a reboque dos novos partidos, que se dizem defensores do meio ambiente, mas usam o tema para florear o programa eleitoral, sem qualquer visão ecossistémica, conhecimento e ambição. É uma felicidade esse atirar de atirar flores para os olhos dos portugueses, que além de felizes ficam perfumados e inactivos.

A campanha é uma oportunidade perdida! Com tanto tema a necessitar de debate e escuta fazemos o pior que se pode.  Muitas ideias importadas, muita ciência dita sem consciência, muita voz a reproduzir poeira quando a água não corre. Quando o foco é a maioria absoluta ou derrotar a maior absoluta, ninguém quer escutar ninguém. Ganha a inutilidade, o populismo ganha. O disparate ganha e sai do armário. Seja qual for o resultado, partimos em desvantagem para o novo ciclo e estamos a atribuir um salvo conduto aos deputados para no futuro decidirem o que acharem melhor sobre temas que deveriam ter amplo debate aqui e agora, mas não interessa aos partidos discutir temas que podem gerar conflito. Após a eleição resta-nos aceitar as decisões e ficar calados, assim vai a democracia.

* O autor não escreve segundo o Acordo Ortográfico

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