O campeão Nelense de um desporto motorizado em que se parte sem conhecer os troços …

Tiago Santos, natural de Senhorim (Nelas), acaba de se sagrar campeão Europeu de Bajas – um desporto altamente desafiante. Ao nosso jornal, em entrevista, conta como surgiu o impulso para a modalidade, fala-nos da sua vida pessoal e como autarca e revela que vai fazer uma pausa na carreira desportiva.

Tiago em primeiro lugar faz-nos sucintamente uma resenha da tua carreira no desporto motorizado, precisamente desde o momento em que sentiste o impulso para esta ou estas modalidades ..
Desde muito cedo que olhava para o desporto motorizado off-road de uma forma especial!
Acordava bem cedo para ver, quando ainda eram transmitida em direto a “Baja de Portalegre”.
Enquanto miúdo, sempre que existia essa oportunidade, dava umas voltas nas motorizadas dos meus amigos que tinham “herdado” dos pais!
Já com 16 anos, quando fui obrigado a deixar o futebol, devido a uma má formação nos joelhos, com a ajuda dos meus pais, comprei a minha primeira mota : Uma Yamaha DTR 125, usada para o quotidiano, mas que rapidamente alterei de forma a poder andar nos caminhos e fazer alguns passeios TT com amigos.
Entretanto perto dos 18 anos, já com trabalho fixo, acabei por vender essa mota e comprar a minha primeira mota de competição, uma Suzuki RMZ250, tendo feito entre 2007 e 2009 algumas provas “piratas” e algumas provas do nacional de cross-country, sempre dependente de amigos para o transporte da mota pois ainda não tinha carta!
Devido às dificuldades financeiras e falta de apoios, acabei por deixar de praticar a modalidade e vender esta mota!
Voltando em 2014 com uma mota alugada,com impulso também da minha namorada, fiz algumas provas no Campeonato Nacional de Enduro, que prolonguei pelo ano de 2015! A meio de 2015, já com uma mota minha (suzuki rmz250 de 2007), e devido à minha condicionante física (joelhos), que optei por experimentar o Todo-o-Terreno. Tínhamos pouco equipamento, o nosso carro pessoal, um reboque para levar a mota, uma tenda de campismo para dormir e pouco mais, aqui, iniciando o campeonato a meio, fui vice-campeão na classe promoção, fazendo o meu primeiro Portalegre (um sonho tornado realidade).
Motivado, acabei por tentar um projeto para fazer este campeonato em pleno no ano de 2016, com muito esforço, inclusive financeiro, consegui impor um bom ritmo acabando por ser vice-campeão na classe TT1! 
Achei que estava na hora de dar o salto, apostar numa mota mais competitiva, num projeto mais profissional, dentro do amador.Procurei mais apoios, melhores condições e consegui mesmo adquirir uma mota nova, uma Yamaha wr250f, mota com o qual estou a competir ainda no presente!
Depois de iniciar o campeonato de 2017 com excelentes registos, eis que tenho uma queda aparatosa na baja do pinhal, uma queda que me deixou bastantes mazelas e que me afastou algum tempo das corridas!
Em 2018, demorei bastante para me libertar do sucedido na época anterior e não fui além do 4º posto na classe TT1.
Pensei deixar as corridas neste momento, a falta de condições, o esforço financeiro, o meu psicológico afectado depois daquela queda em 2017! Mas não, decidi procurar mais apoios, comprei mais equipamento, uma carrinha para poder expor todos os apoios, dar mais retorno a todos os patrocinadores, transportar todo o material, mas também para poder dormir nas corridas e evitar os gastos com alojamentos (sempre era mais cómodo do que dormir na tenda de campismo)!
Com a ajuda de todos os patrocinadores, consegui montar um projeto nacional e internacional para 2019 : Europeu de Bajas. Arrancou em Portugal com a Baja do Pinhal onde saí vencedor, colocámos tudo dentro da carrinha, fizemos 6000km para disputar a segunda jornada na Polónia onde fui 3º classificado, e depois de anulada a baja da Ucrânia, vencemos a ultima corrida em Portugal, que nos deu o ambicionado titulo!
Quanto ao Campeonato Nacional de Todo o Terreno, estou agora no terceiro posto, sendo possível ainda ascender à segunda posição e ser vice-campeão nacional na Baja de Portalegre.
Tarefa que não se avizinha fácil, pois ainda não sei se conseguirei estar à partida desta prova que encerra o campeonato, a Baja de Portalegre, uma prova mediática mas também com custos demasiadamente elevados (só a inscrição 640€).
Como se carateriza o desporto Bajas ? 
Bajas ou Raid, são provas em linha, disputadas em caminhos de terra, normalmente com troços cronometrados superiores a 250km, desconhecidos pelos pilotos,  onde passamos algumas horas em cima da mota dando o máximo para gastar o menor tempo possível para os percorrer.
Existem assistências a meio dos troços delineadas pela organização para abastecer ou fazer alguma reparação mas sempre com o cronometro a contar.
Campeão Europeu de Bajas. O auge de uma carreira ?
Hoje sou Campeão Europeu mas não considero o auge da minha carreira!
Neste desporto não existem prémios monetários, não existe retorno financeiro, então ser Campeão Europeu é o reconhecimento do esforço de todos os envolventes neste projeto ao longo destes 5 anos de competição.
É o prémio para todos os patrocinadores, mecânico, amigos, família pelo esforço e dedicação que tornaram um projeto amador o mais profissional possível, que com pouco, com o meu contributo, todos unidos conseguimos o devido reconhecimento!
Como correu a época, a sua preparação, os apoios com que contaste, para conseguires atingir este nível ? 
Foi uma época bastante desgastante, a angariação de apoios é uma das fases mais difíceis da época, mas que tenho de agradecer a todos, desde o Município de Nelas, Monumentos Paisagens,Caminhos Cruzados,JC automoveis,Centrauto – Tondela,Cidades Lusas MediaçãoImobiliária, Sonifer, Moto Junior, Centro de Pneus Reta do Campo, Escolas de Condução Rota da Estrela, VHelmets, Grafinelas, Agência Funerária Nisa, Dinâmica – Veículos e Acessórios, Luís Afonso – Seguros, Forbis, Borgesport, Freguesia de Senhorim, RumoSérioGalpNelas, Sidónio Pinto Madanelo, NewsMotorSportsFerpalFrutasPedroCruzCcGraphics, ESCUDERIA CASTELO BRANCO, Plásticos Dão, Crosspro-Componentes para motociclos, OMB Grupo Óptico, Elimoto.Sem estes apoios, nunca seria possível sonhar sequer em competir a este nível.
Como consegues conciliar tão exigente atividade com a vida pessoal e familiar ? 
É preciso uma grande gestão de tempo, muito espírito de sacrifício, responsabilidade, apoio familiar, foco e muita motivação.
Não tenho qualquer plano de treino, ou mapa de trabalhos, tento fazer o máximo de preparação física, muita das vezes fora de horas, dou por mim algumas vezes a correr de madrugada pois o tempo não estica.
Para além do exercício físico, tento treinar de mota uma a duas vezes por semana, contando sempre que quando as corridas se aproximam não posso treinar e passo noites na garagem a prepara a mota!
Toda a preparação da mota para as corridas é feita por mim (também por uma questão de custos), exceto quando surge algum problema de maior e aí recorro ao meu mecânico!
Os dias são uma correria, após o meu trabalho laboral, existe toda esta preparação, mas também a vida familiar, as responsabilidades pelos cargos que ocupo institucionalmente e ainda ter tempo para a vida social.
Por trás do piloto há também o homem, o homem de Senhorim, também presidente da Assembleia de Freguesia da sua terra natal. O desporto é também uma forma de promover as nossas terras, as nossas raízes ? 
Sempre procurei ser dinâmico na sociedade, apoiar o desenvolvimento da minha freguesia e do nosso concelho.
Em 2017 aceitei o convite de uma lista para a possibilidade de ser presidente da Assembleia da minha freguesia. Acabei por ser eleito para o cargo, tornando-se ainda mais difícil a minha gestão de tempo.
Monetariamente é irrelevante, mas quando se trata da nossa terra acho que nós jovens devemos contribuir, ter conhecimento, ajudar a melhor e desenvolver as nossas origens.
Desde muito cedo que me envolvi no associativismo e me preocupei em desenvolver actividades sociais, culturais e desportivas.
Com esta minha atividade desportiva, pretendo também divulgar de várias formas a nossa região.
Prova disso, foi a minha proposta perante o município e Junta de Freguesia, que quando solicitei que me apoiassem no meu projeto (2017), para além transportar a imagem da nossa região, me comprometi a trazer uma prova de motocross para o nosso concelho, o agora designado “Grande Prémio de Motocross Vinho do Dão”
Depois de reunir um grupo de trabalho, termos formado a associação “Tribu Clube Aventura” que presido, temos vindo a realizar todos os anos este evento, que ano após ano tem crescido com notório sucesso trazendo já milhares de pessoas à nossa região e levando o nome do nosso concelho e a divulgação territorial além fronteiras.
Por último, o que podemos esperar no futuro do Tiago Santos piloto e se assim achares por bem uma mensagem final aos leitores, com algo que tivesse ficado por dizer …
Estou na fase final da época desportiva de 2019, feliz pelos objetivos alcançados, por tudo o que fiz até aqui, mas sinceramente, a pensar fazer uma pausa na carreira desportiva!
Cheguei a um momento em que é preciso “dar o passo”, ter condições para poder lutar de igual para igual, condições para ambicionar outros voos. No momento estou consciente de que não será fácil reunir apoios necessários nesse sentido e continuar com este projeto!

Entrevista efetuada José Miguel de Sousa Silva (Diretor)

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