Greve de fome durante a Feira do Vinho do Dão 2019

Paulo Costa, natural de Moreira e ali residente, foi durante sete anos membro ativo da Associação local, sendo seu presidente durante quatro anos. Técnico de gás, fala em “ditadura” instalada na Câmara Municipal e recorre à greve de fome, que irá iniciar a 6 de setembro, pelas 8h30, em frente aos Paços do Concelho,como último recurso para sensibilizar a autarquia e a população para o seu problema – “destruição” de diversos bens na sua Quinta, levada a cabo pelo Município, no alargamento de um caminho. Alexandra Monteiro, esposa e atual secretária da Mesa da Assembleia Municipal de Nelas, eleita nas listas do PS, tentou também, sem sucesso, uma resolução para o problema.

Quais os fundamentos para a decisão de iniciar uma greve de fome no próximo dia 6 de setembro, pelas 8h30 ? 

Sim, deixe-me dizer que é uma decisão bastante difícil de tomar, não só para mim mas para a minha família, no entanto tomei-a para mostrar sobretudo à população do Município de Nelas que este executivo tem tiques de ditadura, não respeitando as pessoas e os seus bens, que no meu caso muito me custaram a adquirir e especificamente a Quinta do Cadaval, em Moreira, que é fruto de um trabalho de mais de uma década, aos fim-de-semana, feriados e em jornadas de 13 e 14 horas de trabalho, para além da minha profissão de técnico de gás. 

Mas vou contar-lhe todo o processo que me arrastou para esta decisão. 

Fui abordado em Janeiro deste ano, pelo secretário da Junta da União de Freguesias Santar e Moreira, para a necessidade de alargamento do caminho que confronta com o meu terreno (num dos lados), numa extensão aproximada de 500 metros. Disse-lhe que apesar de com os meus meios já ter alargado o caminho 1,5 metros em toda a extensão, estaria disponível para colaborar caso o vizinho não permitisse o alargamento para o seu lado. Nunca mais me disseram nada a propósito deste assunto. 

No final do mês de Janeiro e durante o mês de Fevereiro, as máquinas da Câmara Municipal de Nelas abriram caminhos na floresta da encosta do Dão e certo dia por volta do meio do mês quando regressei a casa depois de um dia de trabalho verifiquei que as máquinas da Câmara tinham feito o alargamento unicamente para o meu terreno, arrancando a cerca para os animais,fragilizando os taludes de terra que eu tinha construído e praticamente todas as árvores (Castanheiros,Sobreiros e Carvalhos) que ali tinha plantado há mais de 10 anos – algumas delas serviam de suporte aos taludes de terra. 

Como o terreno é em socalcos, e tenho dois poços nos socalcos superiores, tinha construído um tanque de armazenamento de água de 30.000 litros, sendo dali canalizada para os patamares inferiores para rega e bebida para os animais. Esses tubos fora cortados pelos serviços da Câmara. 

Ninguém veio ter comigo para justificar aquela destruição e como a Junta de Freguesia só está aberta ao público às quartas-feiras, dirigi-me lá e confrontei os elementos presentes sobre o sucedido. Foi-me dito que tudo o que danificaram seria reparado e ficaria em segurança. Na semana seguinte (como não vi nenhum movimento para a resolução dos problemas) voltei à Junta, tendo sido informado que na sexta-feira seguinte, 1 de Março, se deslocaria um elemento da Junta com um empreiteiro para fazer orçamento dos trabalhos a realizar. Eu estive presente e os trabalhos a orçamentar contemplavam apenas a construção da cerca, depois de eu ter referido que teriam de incluir o muro de sustentação das terras no taludo, num patamar mais e a reparação dos tubos de água. Foram tiradas medidas e como a semana seguinte era o Carnaval, o empreiteiro disse que só teria disponibilidade para a realização dos trabalhos na semana entre o dia 11 e 15 de Março. Concordei com o prazo, e passada essa data ninguém apareceu. Voltei à Junta a 20 de Março, onde o Presidente me disse que a Junta não tinha dinheiro e que fazer muros era no tempo da outra senhora. Fiquei indignado e alertei para o facto mais urgente da cerca para os animais e dos tubos para rega da plantação, que tinha feito no inverno anterior (mais de 50 árvores, entre as quais carvalhos, paulownias, cerejeiras e cedros), bem como para a necessidade de encher o tanque para reserva de água. 

No dia seguinte, 21 de Março contactei o Vereador com o pelouro das obras, via telemóvel. Marcou uma visita ao local para dia 24 de Março com encontro no café ás 10 horas. Não compareceu, nem atendeu o telemóvel. 

Tentei ligar no dia 25 de Março (três vezes), no dia 26 de Março (cinco vezes) e nunca atendeu. No dia 27 de Março atendeu e disse que tinha tido um compromisso e não tinha podido deslocar-se e que teríamos que agendar outra data –  depois ligaria. Não ligou e no dia dois de Abril, dirigi-me ao seu gabinete na Câmara Municipal e marcámos uma ida ao local para dia seis de Abril. Mais uma vez não apareceu nem atendeu o telemóvel. 

A 8 de Abril dirigi-me ao gabinete do Presidente da Câmara, que me recebeu cordialmente. Após lcontar resumidamente a história até esse momento, chamou de imediato o Vereador e ordenou-lhe que fosse ao local com o encarregado para resolver os problemas. Disse também que a câmara suportaria os custos que estava a ter com a estadia das cabras. Ficou marcado para dia 10 de Abril – também estive presente para lhes explicar a urgência de alguns trabalhos, nomeadamente a cerca para os animais, dado que estava a pagar 100€ por mês para me guardarem as cabras. Disseram que iam resolver. Passaram alguns dias e em 17 de Abril liguei ao vereador, só atendeu na décima tentativa – disse-me que estavam a tratar do assunto. 

Dia 23 de Abril dirigi-me novamente ao gabinete do Vereador a pedir-lhe que resolvesse o problemavdos tubos  com urgência, pois precisava de encher o tanque de reserva de água e naquela data já era limite, dado o tempo quente e a utilização de água nas explorações ao lado. 

Dia 30 de Abril, visita ao local do Vereador e encarregado da área. 

Dia 7 de Maio voltei ao gabinete do Vereador para saber quando resolveria a reparação das tubagens, pois as árvores estavam a secar e eu não tinha outros meios para as regar. 

Dia 15 de Maio telefonei ao Vereador a propósito do mesmo assunto. 

Dia 24 de Maio foram reparados os tubos, mas não fui avisado e os funcionários da Câmara deixaram o tubo ferrado sem tamponamento. Quando no sábado, a meio da manhã, fui verificar a plantação, deparei-me com o tubo a verter água para o terreno e apercebi-me que o poço estava quase vazio – fiquei para morrer. Com o alargamento do caminho, os tubos encontram- se enterrados na via pública. 

Dia 4 de Junho dirigi-me á câmara para falar com o Vereador. Não estava e voltei dia 18 de Junho. Também não estava e no dia 19 de Junho lá me recebeu. 

Dia 26 de Junho, visita ao local do Vereador e encarregado. 

Como não resolviam o problema, no dia 28 de Junho fui novamente à Câmara, pelas 8h30 da manhã e consegui falar com o Presidente, que me recebeu de uma forma pouco amigável, irritado com a minha presença. Ligou ao encarregado e marcou uma visita ao local nesse dia depois de almoço. Eu estive lá, expliquei a história até aquele momento e disse-lhe que a pessoa que guardava as cabras só poderia ficar com elas até dia 30 de junho e que não tinha local para as colocar ao que me respondeu “o problema é seu”. Relativamento aos muros de sustentação de terras, disse que não os fazia, pois “tinha coisas mais importantes para fazer”. A cerca para os animais, com muito custo, lá disse ao encarregado para resolver e foram embora. 

No domingo dia 30 de Junho tive que ir buscar as cabras a Cantanhede e sem local para as colocar, coloquei no jardim de casa, pois era o único sitio vedado que dispunha – devo dizer que os meus filhos ficaram contentes, mas ao fim de alguns dias, todas as plantas do jardim estavam destruídas, incluindo algumas árvores. Mantive os animais no jardim durante duas semanas ,sempre na esperança que a câmara fizesse a cerca. Como não aconteceu, a minha esposa foi falar com o Presidente para o sensibilizar para a situação caricata do momento. 

Iniciaram os trabalhos de reparação da cerca dia 23 de Julho, continuando na semana seguinte e por volta do dia 7 de Agosto não apareceram mais até hoje, não justificaram nem disseram quando retomavam os trabalhos. Tive que improvisar um espaço para colocar os animais, que estou a alimentar diariamente não podendo colocá-las no exterior a comer as ervas limpando o terreno que foi para esse efeito que as comprei. 

As arvores secaram quase todas por falta de rega, não posso ir de férias devido a ter de alimentar diariamente os animais e os 390€ que tinha poupado para marcar o hotel só me devolveram dia 29 de Agosto, por tudo isto resolvi fazer greve de fome para ver se esses senhores ficam sensibilizados a não cometer barbaridades destas com outras pessoas. 

Nota : O nosso jornal já solicitou, via correio eletrónico, um esclarecimento ao presidente da Câmara Municipal de Nelas

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