Espião Inglês fundou o Hotel da Urgeiriça

A antiga estância turística da Urgeiriça foi fundada junto às minas da maior jazida europeia de urânio por um espião inglês. Um poiso para descobrir fora dos períodos habituais de férias.

O Hotel Urgeiriça acolheu, em tempos idos, espiões e estadistas. Os clientes mudaram, e pelo chão em madeira dos velhos corredores os passos furtivos ou seguidos de escolta deram lugar a correrias de crianças livres das ocupações escolares. Mas nas paredes renovadas desta unidade hoteleira situada no coração da Beira Alta, (ainda) no concelho de Nelas, subsistem elementos decorativos, como antigas tapeçarias e gravuras inglesas, que remetem para um passado glamouroso.Mas vamos por partes. Os pergaminhos do velho hotel de três pisos que se avista à beira da estrada que liga Canas de Senhorim a Nelas remontam a 1930, quando Charles Harbord, um oficial do Exército inglês, adquiriu as minas da Urgeiriça, uma das maiores jazidas europeias de urânio. O solar então construído, com aposentos para os engenheiros das minas, foi mais tarde transformado no English Hotel Urgeiriça e acrescentado de um primeiro andar. Uma cliente, Phillys Graham, tornou-se sócia de Harbord e tomou a seu cargo a gestão da casa.

O edifício voltaria a ser ampliado com o segundo andar na década de 1950. A mais recente remodelação data de há cerca de uma década.
Rezam as crónicas que Harbord foi um importante elemento da espionagem aliada durante a Segunda Guerra Mundial e que o seu hotel serviu de poiso a muitos agentes secretos ingleses. Depois da guerra, o primeiro-ministro inglês Sir Anthony Eden passou no chalé Mimosa (uma das cinco vivendas disponíveis para arrendar) as suas segundas núpcias com uma sobrinha de Winston Churchill. A jornalista francesa Christine Garnier também parou na Urgeiriça, às custas pessoais de Salazar, onde terá escrito parte da biografia do ditador português. Outros clientes do hotel foram Craveiro Lopes, o rei Humberto de Itália, Ramalho Eanes e Francisco Sá Carneiro.

O hotel está inserido numa propriedade de 30 hectares, profusamente arborizada. Na envolvente, jardins românticos, piscina, campos de ténis e parque infantil convidam a uma estadia demorada ou apenas de passagem.
O amplo átrio da entrada, com uma lareira acesa nos dias mais frios, é suportado por imponentes colunas em granito – rocha que também reveste o torreão que corta a meio a monotonia da fachada pintada de branco, característica da arquitectura beirã. Nas paredes dos pisos superiores, a decoração possui o peso do estilo inglês, patente em gravuras antigas, reposteiros e mobiliário de linhas clássicas. Tudo isto misturado com belos tapetes gastos pelo passar dos anos. O requinte inglês repete-se no interior dos 85 quartos e três suites, devidamente equipados.
O “restaurante real” serve pratos da gastronomia portuguesa e internacional, que a opção por estabelecimentos das redondezas não permitiu conhecer. Já o bar, tipicamente inglês, é dominado por um balcão em madeira, atrás do qual se expõe uma diversificada garrafeira. Quanto à localização no “ainda” concelho de Nelas, resulta do facto de Canas de Senhorim, cuja primeira carta de foral data de 1196, reivindicar há anos a recuperação do estatuto de município, que lhe foi retirado em 1854. Nas entradas da vila encontram-se faixas a anunciar o “concelho de Canas de Senhorim”, mas que são (para já, pelo menos) mais uma premonição do que uma realidade.

In : Público.pt

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