Diagnóstico do turismo/hotelaria. Desafios para o futuro … (Parte III)

Na última parte deste dossier sobre turismo/hotelaria, fomos ouvir três empresários de referência, neste setor, no concelho de Nelas.

Fernando Carrilha, proprietário dos “Moinhos do Pisão”, unidade de alojamento local situada na aldeia de Pisão (Moreira), considera que “estamos numa região com um alto potencial e uma enorme margem de progressão em termos de turismo”. “Costumo dizer aos meus hóspedes que o Dão está como o Douro há 15 ou 20 anos atrás, em que temos as condições naturais, mas falta criar as estruturas”, explica o empresário, que traça um diagnóstico sombrio da estratégia local : “Até hoje nunca as entidades locais olharam para o turismo como uma prioridade e como a indústria do futuro – nunca existiu um verdadeiro planeamento estratégico”. Neste âmbito, exemplifica com o “completo desaproveitamento da linha de apoio à valorização turística do interior (programa Valorizar), que chegou a comparticipar até 90% do investimento a fundo perdido e era também direcionada para Câmaras e Juntas de Freguesia”. “Para que se tenha uma ideia, com essa linha de apoio teria sido possível a construção de estruturas como passadiços, museus, percursos pedestres, entre muitas outras que poderiam complementar a oferta turística que já possuímos, graças  ao motor do Turismo no concelho – a iniciativa privada. que com muito custo tem conseguido aguentar as dificuldades inerentes à interioridade, à distância dos aeroportos e dos grandes centros (Lisboa e Porto),que são a origem da maioria dos turistas”, sustenta, citando como exemplos “o Santar Garden Village, o hotel 5 estrelas, também em Santar, e o nosso caso, exemplo acabado de como a atividade turística pode servir para estancar a desertificação e abandono das aldeias, evitando a sua morte anunciada”.

Carrilha lamenta que após o grande  incêndio de 2017 (Pisão foi dos locais mais atingidos do concelho), nunca “tenhamos tido qualquer contacto por parte da autarquia”. Reclamação antiga, diz respeito à contaminação da Ribeira da Calva, que atravessa a aldeia. Ali continuam a ser “despejados, a céu aberto, dejetos de duas fossas”.

Para o empresário, o desafio mais importante para o setor “é a grande sazonalidade da procura desta região. Dois meses no Verão não são suficientes para salvar o resto do ano”, realça.

Instado a perspetivar o futuro, revela a intenção de continuar “ativo” com projectos em “várias frentes”, identificados como “prioritárias” e que “anunciaremos assim que esteja garantida a sua execução”. “Gostamos mais de fazer do que de falar”, conclui.

Ricardo Santos, um dos responsáveis pelo restaurante “Zé Pataco” (Canas de Senhorim), que assenta um dos seus vetores de sucesso no negócio de cariz familiar, mostra-se satisfeito com o aumento do fluxo de turistas, nos últimos anos, graças “ao investimento que tem sido efetuado a nível de turismo rural, no nosso concelho e concelhos vizinhos”.

Uma das unidades de alojamento com mais charme de toda a região é sem dúvida a “Casas do Lupo”, situada na Lapa do Lobo.

Instado pelo nosso jornal a fazer uma avaliação se a vaga de turismo em Portugal chegou à região, o empresário Carlos Torres afirma que “ainda não chegou e isto porque, e já o disse nalguns colóquios, há um problema de identificação da chamada “zona de Turismo do Centro”, ao contrário de outras zonas bem definidas e caracterizadas como por exemplo o “Alentejo” ou o “Douro”. Afinal o que é o “Centro” em termos turísticos? É Aveiro? É Coimbra? É Viseu? É a Serra da Estrela?”.

“Ninguém diz “vou passar um fim de semana ao Centro”, mas muitos dizem “vou passar um fim de semana ao Alentejo” ou “vou passar um fim de semana ao Douro”, constata, defendendo uma nova abordagem : “Porque não identificar a Beira Alta como uma região turística individualizada, sendo certo que é uma zona do país perfeitamente caracterizada e com uma idiossincrasia própria?”.

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