José Gomes Ferreira em entrevista : “Produzir local, vender local” deve ser o slogan e a política a seguir

José Gomes Ferreira é natural de Folhadal e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Natal)

José Gomes Ferreira é natural do Folhadal, município de Nelas. Possui licenciatura e doutoramento em Sociologia, área em que tem realizado investigação em Portugal e no Brasil em particular sobre questões ambientais. É actualmente professor visitante no Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde lecciona no curso de graduação em Gestão de Políticas Públicas e na pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais. Entre as publicações possui um livro de poesia e co-organizou outro em que participa também como autor.

O que o levou a mudar-se para o Brasil?
Desde que terminei o doutoramento, em 2012, existia pressão e vontade de seguir outros caminhos. Os anos seguintes não foram fáceis para ninguém, mas como fazia a ponte entre colegas brasileiros que chegavam na Universidade foi possível colocar o Brasil como opção. As amizades construídas nesse período foram fundamentais. Em 2015 tive oportunidade de visitar o Brasil e na sequência aceitei o desafio de realizar pós-doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal. Quem faz ciência sabe o quanto é importante conhecer outros contextos. A maioria dos colegas escolhem países anglo-saxónicos e olham para o Brasil de lado, é certo é que o país é um grande laboratório.

Vamos começar por abordar a atual situação ambiental no Brasil e no mundo – tema que deveria ser tratado como prioritário para a população. Porque a Amazónia é considerada o grande pulmão do Planeta?
Temos duas dimensões na questão que devem ser analisadas em separado, ainda que se refiram ao mesmo tema e por vezes a justificação da inacção, no caso ambiental, tem uma forte ligação ao global e longínquo representado pela Amazónia.
A questão ambiental, e de forma mais abrangente a questão da sustentabilidade, tem um longo e necessário caminho a percorrer. No Brasil e na América Latina o caminho é mais largo e sinuoso, na medida em que o país está longe de encontrar soluções para os problemas ambientais ditos de primeira geração, como sejam o abastecimento de água, os esgotos e os resíduos sólidos urbanos. Esses problemas agravam-se num quadro de precarização da habitação e urbanismo em geral e de profundas desigualdades sociais e regionais. Por outro lado, o tema tem dificuldade em ganhar relevo quando na agenda de prioridades compete com a saúde, educação e insegurança pública. E também pouco avança na atenção dos movimentos sociais. O maior problema é financeiro, mas a resposta institucional necessita de se aperfeiçoar e consolidar. A resolução dos problemas citados obriga a um esforço dos municípios, para o qual não estão na sua maioria preparados. Assim como, a um debate sobre a articulação e competências dos vários entes da União. O país emprega muitos meios no debate político e deixa descalça a componente técnica, administrativa e de gestão do poder local.

A partir do cidadão esses são alguns dos principais problemas do país, mas existem outros que chegam a constituir um enorme risco. Os exemplos das barragens de Mariana e Brumadinho são esclarecedores. Mesmo assim transformados em catástrofes invisíveis aos olhos da história. Além destes problemas, na agenda ambiental surgem questões como a desflorestação, o uso de pesticidas e fertilizantes, a ameaça sobre as áreas protegidas e a escassez de água, em particular no Nordeste, só para citar alguns exemplos.

Não vamos analisar a questão apenas pela negativa. O Brasil é o país com maior biodiversidade e água doce do planeta. A economia e modos de vida das comunidades não fazem pleno uso desses recursos. Existem bons exemplos, mas falta trabalhar a marca “Produzido no Brasil, produzido na Natureza”, assim como diversos produtos regionais com indicação geográfica.
A sacralização da Amazónia carece de debate interno e externo. Para quem está de fora falamos do último reduto de floresta inexpugnável e habitat de civilizações inimagináveis. No Brasil isso não parece tão claro. A soberania nacional e a possibilidade de serem territórios a ocupar com atividades produtivas pressiona essa leitura e gera territórios de tensão permanente.

O desmatamento crescente da Floresta em geral e a Amazónica em particular, coloca em risco as metas ambientais do Tratado de Paris? Quais seriam as principais providências a tomar face a esta problemática?
A discussão sobre o papel da Amazónia não é de hoje. Não creio que o insucesso do Tratado de Paris e a crise climática que se adivinha se fiquem a dever apenas ao desmatamento. Precisamos de medidas mais robustas para enfrentar os problemas ambientais gerais. Gostaria de ver os países ditos desenvolvidos com medidas capazes de compensarem os danos que produzem nas diversas escalas. Não querem “nem mais um hectare desmatado” mas plantam eucaliptos e não assumem políticas de “nem mais um carro a circular” ou “nem mais uma barragem”.

Precisamos enfrentar a temática ambiental e a sustentabilidade a partir dos padrões de consumo e da noção de bem-estar. O que fazemos constantemente é substituir um problema por uma solução de momento, mas sem querer abdicar de nada. Obviamente que devemos proteger a Amazónia, mas não podemos pedir ao Brasil aquilo que não estamos dispostos a fazer. Sem se reverter o modelo de consumo, e por inerência o de produção, vamos exigir cada vez mais dos últimos lugares sagrados do planeta sem nada se fazer à escala dos países e como cidadãos consumidores. As metas do Tratado de Paris devem em primeiro lugar ser assumidas pelos municípios, não somente com medidas de mitigação, mas preparando os seus territórios face à especificidade dos seus possíveis problemas.

A este propósito o conceituado fotógrafo Brasileiro Sebastião Salgado e sua esposa Lélia, reflorestaram durante 18 anos uma floresta de 600 hectares com mais de 2 milhões de árvores que agora é o lar de mais de 500 espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção …
Existem bons exemplos. Mostram que a mudança é possível, e que com vontade e persistência tudo se consegue. Ou por via do Desenvolvimento sem crescimento, dos movimentos de transição ou vias de intermédias como a agroecologia existem soluções que já deram provas que podem ser uma alternativa. Outros casos exitosos mesmo que pontuais não podem ser ignorados. Ainda assim é bom lembrar que não existem soluções chave na mão, ou seja, cada solução serve um problema. Mas o que importa é a dinâmica gerada e o envolvimento de todos nos processos de transformação.

Há mais de 40 anos, Jean-Philippe Beau-Douëzy, ecologista e engenheiro consultor na área do ambiente, que há 11 anos trabalha na Fundação Yves Rocher, em França, onde é administrador do programa Plant for the Planet. Hoje quer continuar a plantar árvores nativas porque diz serem o futuro da humanidade. Na sua opinião, qual a real importância do reflorestamento com espécies nativas para a conservação da biodiversidade?
Tenho lido notícias que indicam que o planeta necessita de milhões e milhões de árvores para resolver o problema climático. Sei que as manchetes adoram números mas é um tipo de notícia a exigir cautela, pois algumas têm árvores impacto negativo. Na verdade, o número de árvores plantado é irrelevante. Quanto ao plantar árvores nativas pode não ser solução, pois o clima obriga a repensar as opções e a escolher variedades que mais se adaptam às novas condições.
A plantação de árvores não serve apenas a biodiversidade, embora baste somar 1 + 1, ou seja, maior diversidade vegetal resulta na recuperação dos ecossistemas e, por conseguinte, mais da fauna e flora. Mas existem outros efeitos. Nas cidades as árvores são usadas para evitar a formação de ilhas de calor. Nas cidades e em qualquer lugar ajudam a reduzir a temperatura e são uma das principais fontes para produzir água. No sertão o clima característico gera o que se chama “chover para cima”, pois é elevada a evapotranspiração. Qualquer região sem floresta pode ter um fenómeno idêntico, alterando-se o ciclo da água.

Já em Portugal, menos de dois anos após o fogo que destruiu o Pinhal de Leiria, o perigo mantém-se. O pinhal continua ao abandono. A denúncia é de um dos especialistas do Observatório do Pinhal do Rei que diz que nada foi feito e por isso apresentou a demissão. Um exemplo de como o nosso país não cuida da sua floresta?
Na última visita a Portugal fiquei muito impressionado e preocupado. Acompanho o que se passa no país mas não imaginava o rumo. No Pinhal de Leiria é essencialmente descaso e não colocação do tema na agenda de prioridades. Parece que a perda de vidas humanas não é prioridade. No resto do país é a gula das empresas e dos pequenos proprietários, enganados ou não são cúmplices. Se a perda de vidas tivesse gerado consequências criminais o rumo seria outro. No país o problema já não é apenas o descaso, é a cumplicidade geral com a indústria da pasta de papel e com usos do solo e a indefinição de uma política para o território. Para quê investir na adaptação às alterações climáticas se estamos a deitar lenha na fogueira? Falta uma visão estratégica e sobretudo consequências criminais e políticas.

A água é outros dos grandes desafios para a humanidade, intimamente ligada às alterações climáticas (sobreaquecimento do planeta). Urge acelerar, também por este aspeto, a descarbonização da Economia?  O consumo de petróleo a nível mundial irá ultrapassar, em 2020, pela primeira vez, os 100 milhões de barris por dia …
Pelo menos desde a década de 1960 que o problema da água tem sido debatido em fóruns nacionais e internacionais, apesar disso continuamos a achar que se trata de um recurso infinito, quando não é e não chega a todos da mesma maneira. O acesso desigual vai aumentar, tanto em determinadas geografias como por parte de grupos sociais mais vulneráveis. Sem as tais árvores vamos ter menos água, vamos ter cortes em actividades com maiores exigências e em comunidades mais fragilizadas, sem esquecer a pressão para a privatização e a transformação do recurso comum em mercadoria. É a chamada guerra da água.
Descarbonizar a economia é um passo importante, mas é insuficiente. Precisamos colocar em prática modelos produtivos que penalizem quem gera maior impacto ambiental e apoiar práticas amigas do ambiente. Não adianta descarbonizar se depois importamos pescada do Chile e alfaces de Espanha. “Produzir local, vender local” deve ser o slogan e a política a seguir, até para se manter o que temos de genuíno em cada região e fixar as pessoas à terra e à economia familiar. Necessitamos igualmente de estabelecer novos padrões de uso da água, sobretudo os usos agrícolas e domésticos. A poluição e as elevadas perdas no transporte são também problemas a resolver. Com o agravamento da questão climática é necessário prever mecanismo de solidariedade entre regiões ou países capaz de suprir futuras carências de água, assim como mecanismos de governança da água que represente todos. O que temos assistido não augura boas perspectivas para quem mais precisa.

Efeito a médio/longo prazo de todas as atrocidades que temos vindo a cometer, é a agricultura que, comprometida, usa cada vez mais produtos tóxicos para maximizar a produção, com o Brasil, atualmente, na linha da frente do seu uso. Que repercussões nesta área podemos esperar?
A prometida Revolução Verde gerou mais danos que benefícios, isso não é nenhuma novidade. Ignorar essa informação prévia é que representa uma novidade, assim como não levar em conta que os mercados europeus e norte-americano possuem estruturas de regulação e controle que potencialmente rejeitam produtos agrícolas com valores acima dos padrões de cada país. O que aliás já aconteceu. Acredito que os grandes produtores não façam uso dos aparentes benefícios, pois conhecem o funcionamento desses mercados. Temo pela saúde dos consumidores brasileiros, pois vão ficar com o que for rejeitado no estrangeiro.

A tendência internacional vai no sentido de aproveitar a excelência ambiental como atractivo. No Brasil é bom lembrar que a agricultura familiar representa mais de 70% do consumo alimentar do país, com a vantagem de fixar as pessoas no campo e facilitar a sua autonomia financeira. A chamada agroecologia e a produção biológica são outras opções importantes.

Há dias vi uma publicação sua, na rede social Facebook, em que aconselha as futuras mães Brasileiras a darem o nome ESPERANÇA às suas filhas, pois o país bem precisa … O atual Governo falhou em restaurar essa esperança em relação à política ambiental?
O Brasil necessita de muitas ESPERANÇAS. Tem tudo para dar certo e ser um país que está de esperanças, mas cuja gravidez não se vê nem a criança nasce. Costumo dizer que o problema do Brasil não é ideológico. O país não muda sem reforma político-administrativa, que apenas gera polarização do debate, mas não gera lideranças e propostas nem um foco no futuro. Existem problemas estruturais a resolver, mas o desenho das políticas é inovador, só precisa reconhecer que até as pessoas menos escolarizadas têm opinião, e que é necessário trazer essas pessoas para o centro da vida pública e restituir-lhe a cidadania. Por outro lado, o debate não pode apenas sobre lideranças nacionais, é necessário repensar o bairro e o município e sair da luta por camisolas. Tudo isso implica instituições comprometidas com a mudança, políticas transparentes e políticos que acrescentem inovação ao melhor da tradição. Leva tempo mas a mudança é possível.

E a nossa Beira Alta e o seu Folhadal ? Que perspectivas para o nosso interior, desedificado e ostracizado pelo poder central?
Não tem sido fácil, mas a região tem conseguido criar emprego e fixar um mínimo  de população, ainda que essencialmente nos centros urbanos. Nem tudo é perfeito e existe o risco de recessão na região. Vivemos momentos de criação de emprego, mas e quando as empresas optarem por deslocar as fábricas o que vai acontecer? O sector público é um grande empregador mas não gera valor. Este é o momento para preparar o futuro e repensar o modelo de desenvolvimento baseado em investimento estrangeiro e em grandes infra-estruturas. Precisamos de algo mais que envolva o tecido social.

Temos a predominância de visões paternalistas e expressões de resignação por vezes usadas para desculpar o não envolvimento dos cidadãos nas causas comuns. É célebre a expressão “eles é que sabem, eles é que têm os livros todos”. Não quero com isto culpar o cidadão, mas todos nós podemos ajudar na transição. Esse estímulo deve surgir das políticas públicas e das lideranças locais. Necessitamos de governos locais transparentes e comprometidos com o povo e não com protagonismo pessoal, o que infelizmente não acontece e se agrava com a descontinuidade das políticas e com governar para o ciclo eleitoral.

Folhadal tem as suas particularidades, é uma aldeia com história que resiste e se mostra como uma aldeia-museu que caracteriza o interior de Portugal. Sem vergonha do atraso mas na expectativa do desenvolvimento, junta o rural de outrora com o processo migratório e com novas profissões. Tem o privilégio da localização, da riqueza patrimonial, o orgulho da identidade e da narrativa da permanência.

José Miguel Silva 

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