Defesa do ambiente e da floresta: duas no cravo, uma na ferradura.Opinião por José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira é natural de Folhadal e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Natal)

O debate ambiental varia como as tendências da moda, depende de cores, palcos, actores e influência sobre as audiências. Falta-lhe uma visão estratégica, a definição de responsabilidades e do papel de cada um. Ou no mínimo falta-lhe colocar tudo isso em prática, pois desde o final da década de 1960 que o debate entrou na esfera das preocupações. É um campo de disputa e articulação entre as áreas económicas, políticas, mediáticas, cívicas e tecnocientíficas, na escolha do conjunto restrito de problemas a solucionar. Dá prioridade a alarmismos, quase sempre justificados, mas como se trata de um recurso facilmente manipulável também se expõe a inviabilidades e a visibilidades em face do que alguns grupos sociais querem mostrar ou esconder. 

Entre os grandes temas contemporâneos em agenda, destaco as alterações climáticas, as energias fósseis e renováveis, a perda de biodiversidade, o desmatamento da Amazónia, a seca e as ilhas de plástico. A comunicação social e as redes sociais destacam estes e outros temas, contribuindo para o aumento da sua relevância e maior sensibilização quanto à urgência e complexidade, mas a decisão final é política. Em face da escala de análise temos outros problemas e exemplos exemplares, na medida que ambiente não é apenas degradação, é igualmente paisagem, toda a fauna e flora, a produção de bens de consumo quando de forma equilibrada e a relação com as comunidades.

O diagnóstico está feito e refeito, mas em muitos casos não passa disso. Apesar dos esforços internacionais e nacionais a degradação não tem sido travada, no que gera impacto nos ecossistemas e em comunidades mais fragilizadas, mas ninguém está a salvo, pois o ambiente liga todos e tudo. O extenso debate e acção sobre o desenvolvimento sustentável constitui um avanço, ao estender as preocupações para o eixo geracional e para a transversalidade dos problemas na vida quotidiana. Ganhou relevância uma visão mais abrangente preocupada com o planeta, com as comunidades e com os cidadãos, com metas definidas e um reportório que passou a incluir a redução das desigualdades sociais, a melhoria da qualidade de vida e do ambiente, e o cidadão como agente da mudança e objeto a mudar. 

Do ponto de vista das políticas públicas e cidadania, não posso ignorar duas tendências persistentes que nos estão a levar para fora do eixo da resposta aos problemas: uma que atira as preocupações para territórios longínquos e outra que responde aos problemas com base na sua sectorialidade. A primeira tendência mostra que cada um de nós se indigna com os problemas distantes, mas na vida quotidiana, no que depende de cada um, nada muda. As práticas de consumo, a relação com a natureza e com os outros permanecem como antes. As referências longínquas têm sido usadas, acredito que involuntariamente, como um lavar de mãos face aos problemas. Por conseguinte, existe aqui muita margem de manobra para a mudança, desde que estimulada por campanhas transparentes, bem organizadas e com preocupações globais, pois nada muda se não for assumido por nós. As políticas públicas para serem eficientes e efectivas necessitam da participação dos cidadãos desde a fase de planeamento e posteriormente no processo de implementação. 

Na sua especificidade, as políticas ambientais vinculam-nos na transmissão das decisões de política pública para a esfera doméstica, designadamente nas escolhas que fazemos na compra de produtos de consumo e na rejeição de resíduos. Sem esquecer o papel fundamental da mobilização cívica na reivindicação por melhor ambiente e na definição de políticas a partir de baixo. Os meios de transporte utilizados, as opções energéticas da habitação, o consumo de água e as opções de compra no supermercado são algumas das nossas principais formas de intervir, dispondo cada um de um enorme leque de opções. Ao consumir produtos locais com menor pegada ecológica estamos a fortalecer a comunidade de proximidade e a reduzir emissão de gases com efeito de estufa. Ao adoptar práticas de economia de energia em casa ou na escolha do meio de transporte estamos a cuidar do planeta e a poupar dinheiro. 

É igualmente urgente uma mudança de paradigma na forma como abordamos os problemas. Necessitamos, de uma vez por todas, de encarar os problemas ambientais a partir da sua dinâmica ecossistémica, multidisciplinar e multissectorial. Não adianta tapar um buraco quando ao lado temos uma cratera. Acho fantástica a preocupação dos portugueses para com o desmatamento da Amazónia, mas mal reentro em Portugal, em particular na região Centro do país, que ainda chora os mortos do ano de 2017, vejo que a tragédia foi esquecida, e foi ignorada a dor e perda das famílias. Em seu lugar não plantamos flores, depositamos cinzas sobre as quais vemos aumentar a área de produção de eucalipto. Não sei se somos sádicos ou irresponsáveis, se ignorantes ou se um povo sem memória recente. Sei que dizemos uma coisa, mas passado o momento das promessas fazemos outra. E na hora de assumir responsabilidades ninguém tem culpa ou então atiramos a culpa para os políticos para que assim se concretize a desculpabilização individual como obra colectiva. O ruído é muito, a comunicação social faz manchete com os problemas, nada se altera. A culpa morre sempre solteira e os pobres morrem sós iludidos com a possibilidade de ganharem alguns euros.

Pelo caminho, a indústria de produção de pasta do papel diz maravilhas sobre as reformas realizadas pelo sector. É tudo fantástico! Não poluem, produzem energia e não degradam solos ou acabam com a água e biodiversidade. A posição que assumem faz-me lembrar os tempos em que realizei a investigação de doutoramento na bacia do rio Lis. Os representantes dos suinicultores eram pretensamente mais ambientalistas que os ambientalistas. É maravilhoso passar a ideia de modernização de um sector que deve participar nos esforços de uma verdadeira transformação se queremos cuidar do planeta. Mas com o país assim transformado em eucaliptal ficamos sem saber se serve para alguma discutir e preparar a resposta às alterações climáticas e aos constantes episódios de escassez de água. Não estamos certamente a investir no futuro, as celuloses sim, acautelam os investimentos. Que futuro teremos no eucaliptal chamado Portugal? É esse o modelo de desenvolvimento que queremos para o interior? Com esse desbaste na biodiversidade até os pássaros, os coelhos e as cobras vão fugir. Certamente até as ratazanas. Não quero imaginar as pessoas em idade activa. 

Se queremos cuidar do futuro não é esta a mudança a realizar. Como cidadãos, adoramos a defesa dos animais, mostramos indignação por tanto plástico e pelo mau cheiro do lixo, porém, continuamos a ser iguais a nós próprios, cidadãos acomodamos e inconscientes. Cada vez produzimos mais resíduos, consumimos mais combustíveis fósseis, plantamos mais eucaliptos e chegamos a ter o descaramento de afirmar que fazemos muito pelo planeta. Isso não é nada, precisamos mais e muito mais, e sobretudo melhor. Nem tudo depende directamente de nós, mas como cidadãos podemos fazer chegar a quem decide novas ideias e formas de actuação. Enfrentar os problemas de forma isolada é gastar dinheiro e energias em vão, pode beneficiar alguns sectores, mas não beneficiará o planeta nem as gerações futuras. 

* O autor opta por não seguir o Acordo Ortográfico

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