BE promove o Inconformação 2019 em Carregal do Sal e reúne 150 jovens

Numa altura em que assistimos à falência do projeto europeu e à desintegração da União Europeia, em que a Europa levanta muros e fecha os olhos a quem morre nas suas fronteiras, discutimos com a Marisa Matias que Europa queremos. Uma Europa para as pessoas, que apresente propostas concretas que respondam às suas necessidades. À política do medo, ao vazio da insegurança e à ascensão da extrema-direita, respondemos com um projeto europeu de serviços públicos, de questionamento dos tratados que nos impedem as políticas públicas necessárias. Queremos uma Europa assente em direitos sociais e solidária.

Enquanto o capitalismo acelera as nossas vidas, destrói o nosso planeta, e nos submete às suas lógicas, não desistimos de conhecer bem as suas armas e de lhes fazer frente. Por isto mesmo, falámos sobre saúde mental, sobre o importante combate ao estigma e sobre a necessidade de dotar o SNS de meios para garantir que ninguém fica para trás. Não nos revemos no modelo normativo que faz de nós robots ao serviço da acumulação de capital, enquanto as nossas vidas pouco ou nada melhoram. Foi neste sentido que debatemos também sobre trabalho reprodutivo.

Sabemos que o trabalho não remunerado das mulheres, em casa, imposto por um papel social que lhes é atribuído, sustenta a nossa sociedade e, por isso, rejeitamos os papéis de género que limitam quem somos, quem queremos ser, e que tornam subalterna uma grande parte das pessoas – as mulheres. A sociedade não sobrevive sem os cuidados prestados maioritariamente por mulheres, a economia não funciona sem este trabalho. O capitalismo não sobrevive sem este trabalho gratuito. Assim, no Inconformação, sublinhámos também a importância da greve feminista no dia 8 de março e do investimento nos serviços públicos de cuidados: creches, escolas, SNS, estatuto do cuidador informal, Segurança Social.

O mundo que queremos é livre de preconceito e para o alcançar é preciso lutar. “Marchamos” é uma longa metragem, realizada por Tiago Resende, que trouxe até nós a história da Marcha LGBTI de Viseu, “Já Marchavas”, que nos mostra como a organização e a solidariedade entre pessoas LGBTI e não LGBTI, entre cidades, entre associações diversas, possibilitou uma primeira marcha com mais de 1000 pessoas.

Pelo fim do preconceito e pelo direito ao corpo, defendemos direitos para os e as trabalhadoras do sexo. Neste fim-de-semana, munimo-nos do conhecimento que nos permitirá combater o conservadorismo e o preconceito que têm atrasado o reconhecimento e a efetivação de direitos no trabalho de quem faz trabalho sexual.

O trabalho e as relações laborais são um importante alicerce da opressão capitalista. Com o lastrar da precariedade e o apelo ao individualismo, quem vive do seu trabalho é sempre o elo mais fraco. Com o José Soeiro e a Isabel Pires, identificámos os obstáculos à organização de trabalhadores em torno dos seus direitos e as “manhas” dos patrões e da legislação laboral para nos enfraquecer. Mas discutimos também forma de lhes dar a volta e de lutar pela dignidade no trabalho e pela proteção de quem trabalha.

No Inconformação não podíamos deixar de falar sobre racismo. O Eduardo Oliveira trouxe-nos experiências concretas do racismo na sociedade brasileira que se reproduzem também em Portugal. Não é ignorando a diferença que criamos igualdade. É importante falar de “raça”, é crucial tocar nas feridas abertas do colonialismo português e reconhecer que Portugal ainda é um país racista e que a luta antirracista não pode ficar para trás.

Somos anticapitalistas porque não aceitamos um sistema que nos divide, que nos atribui um espaço e uma função e que sobrexplore os recursos naturais para o regojizo de alguns. Não aceitamos um mundo dividido entre quem produz barato e quem consome, nem em que as nossas cidades, vilas, terras, sejam organizadas de forma a, mais uma vez, dividir-nos e confinar-nos a um espaço. Não cedemos à chantagem da especulação imobiliária, não aceitamos que as políticas de mobilidade e de habitação sejam desenhadas para nos segregar, nem que o espaço público seja exclusivo.

Do Inconformação saímos com mais experiências de luta, com mais conhecimento, com mais gente para caminhar connosco e afirmar que um outro mundo é possível: um mundo socialista, feminista e ecologista!

Por Mafalda Escada, membro da Coordenadora Nacional de Jovens”

Este portal utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização Saiba mais sobre privacidade e cookies