Uma realidade do jornalismo online

Entrevista a Luiz Vaz de Camões, no âmbito de jantar Camoniano em Carregal do Sal (promovido pelo Agrupamento de Escolas)

Entrevista a José Miguel Silva, proprietário e diretor do jornal CENTRO NOTÍCIAS.

Autora : Marlene Ramos, inserida no curso de Comunicação Multimédia (Instituto Politécnico da Guarda), para um trabalho da unidade curricular de Jornalismo.

Há quanto tempo exerce a profissão de jornalista?

Desde os meus 16 anos, ou seja, há 33 anos. Em 1985 iniciei esta fascinante aventura, ainda no tempo das rádios pirata, na minha terra natal : Oliveira do Hospital. Em Março de 1986, eu e um grupo de amigos, apaixonados pela rádio, fundámos a Rádio Boa Nova. Via a rádio, e assim a encarei durante longos anos, apenas como um hobbie. Fiz a minha licenciatura em Economia, em Coimbra, mas nunca larguei a paixão pelo jornalismo – além de um programa de música, fiz durante alguns anos relatos de futebol. O meu percurso profissional iniciou-se em 1993 como Economista e assim me mantive até 2006, ano em que criei o jornal Folha do Centro Nelas. Exerço a tempo a profissão, há 12 anos, a tempo inteiro.Como costumo dizer : “Sou Economista de formação, mas jornalista de paixão”.

Fale-nos um pouco da criação do seu jornal. O que o motivou a produzir um jornal? 

A criação do Centro Notícias surgiu na sequência do Folha do Centro Nelas e deu-se em 2013, com a necessidade e ambição de uma maior abrangência geográfica. O grande gosto pelo jornalismo, que cada vez mais considero, quando exercido com ética e de forma livre, um grande pilar da democracia, foi a grande motivação para arrancar com este projeto, que felizmente tem sido bem sucedido.

Em que áreas se dedica a escrever as suas notícias? 

O meu jornal é generalista, logo aborda todo o tipo de temas, na sua área geográfica de abrangência, que hoje em dia se centra (falo mais da edição digital), nos concelho de Viseu, Nelas, Carregal do Sal, Mangualde e Oliveira do Hospital. 

Que tipo de notícias dá mais destaque ou lhe dão mais “gozo” fazer?

Boa pergunta. Em larga medida, devido à minha formação de base, e porque tenho um grande fascínio pela área empresarial, sem dúvida que Economia, Empresas e Negócios são as minhas áreas prediletas, destacando, dentro delas, os Vinhos e a Gastronomia (ao que não é também alheio o facto do meu jornal estar situado numa região vitícola de eleição : o Dão). Também me dá muito gozo escrever sobre Cultura e Sociedade. O que menos me dá prazer, é a Política. Sinceramente, e digo-o muitas vezes, tenho que escrever sobre essa verdadeira “podridão”, porque tenho leitores para esta área. Mas ainda assim vou constatando exceções – autarcas que exercem a política visando o bem comum, com ética e honestidade. 

Hoje em dia, está muito em uso o jornal online/ digital. Qual foi o maior impacto para si e a maior mudança que teve de fazer, na transição do jornalismo tradicional para o jornalismo digital?

Eu ainda compatibilizo as duas plataformas : digital e impresso. No nosso interior ainda é uma necessidade. O arranque do jornal diário digital foi há cerca de três anos. No início usei a plataforma Blogger, mas rapidamente me apercebi que teria que evoluir. Recorri a um técnico de informática da nossa região, que curiosamente estava a residir na Islândia – o que sintomático que de facto vivemos numa aldeia global -, e verificámos que a plataforma do Worldpress, era a mais adequada. Eu desenhei a estrutura que pretendia e o António desenvolveu o que é hoje o meu jornal digital. Assim, não posso falar numa transição, pois ainda tenho a componente do que chama “jornalismo tradicional”. Mas a aposta numa edição digital diária, claramente posso dizer que exigiu muito de mim, quer em tempo, quer em aperfeiçoamento da técnica jornalística.

Acha que é mais vantajoso o jornalismo digital? Porquê?

Não se trata de uma questão de ser mais vantajoso – é uma realidade incontornável. Quem está fora da web, está fora de mundo. Reafirmo que, em termos regionais, e dado que ainda subsiste uma larga percentagem de leitores de idade mais avançada,  há a necessidade, e julgo que ainda por longos anos, de manter um jornal em suporte de papel, embora, na minha opinião, cada vez com menor periodicidade – é isto que farei em 2019, reduzindo o número de edições impressas, pelo encargo inerente. Mas reconheço ao digital diversas vantagens, designadamente a informação em tempo real e a facilidade do acesso. O que vejo neste momento e no curto prazo, é um grande desafio para o jornalismo digital: a forma de o rentabilizar. Como sabemos, a larga maioria da informação ainda é disponibilizada de forma gratuita. Principalmente os jornais nacionais já começaram, ainda que paulatinamente, a ter conteúdos premium, que só podem ser lidos depois do leitor subscrever a assinatura digital, que se situa, para já, por regra, em 1€ mensal. Há dois jornais que leio diariamente que já o fazem há algum tempo : Jornal de Negócios e Observador. A estratégia da imprensa regional terá que necessariamente seguir este caminho. 

As pessoas cada vez mais querem saber as notícias quase no momento que estão a acontecer, tendo assim de conciliar a velocidade do online com a vida real. Quais as suas medidas para conseguir as notícias com rapidez e veracidade para responder à solicitação do online?

Questão muito pertinente. Não é fácil conciliar, admito. Tento ter fontes o mais credíveis possível, para confirmar as notícias. Há situações que tenho que corrigir minutos ou horas depois. O que “vende” é o mais sensacionalista – não caio nesta armadilha. Por exemplo, no que diz respeito a crimes, 99% dos que publico, dizem respeito a notas de imprensa do comando distrital da GNR Viseu. Tenho muitas informações de crimes, que não publico antes de receber a informação das autoridades. É muito raro publicar algum com base noutras fontes que não sejam as referidas autoridades. Mas acontece : como este exemplo(https://www.centronoticias.pt/2018/01/22/confronto-fisico-e-disparos-entre-dois-homens-nas-laceiras-tera-alegadamente-envolvido-um-nelense/), em que tive fontes muito credíveis e usei também uma imagem da CMTV, muito útil para confirmar a veracidade do que as referidas fontes me informaram. 

Com o jornalismo digital as fake news são cada vez mais e mais fáceis de publicar e passar para o público. Já teve algum dilema ou alguma situação com este tipo de notícias – fake news? Fale nos sobre isso e sobre a sua opinião sobre as fake news. 

Falei sobre o tema há uns meses numa conferência na Fundação Lapa do Lobo, que teve como uma das palestrantes a conceituada “radialista”, Catarina Miranda. O uso das fake news tem por base a criação de sites e/ou páginas nas redes sociais, fictícios, apenas para criar e divulgar as ditas notícias sensacionalistas, para assim se conseguirem receitas de publicidade que a Googl (principalmente), paga, pelos cliques nos anúncios.  Alerto sempre os leitores para verificarem bem os endereços eletrónicos. Nunca tive problemas com esta situação e nunca publiquei nenhuma notícia falsa, mas já visualizei várias, relativas à minha área geográfica de abrangência. Exemplifico : “Encontrada, no Rio Mondego, uma Anaconda, com cinco metros de comprimento”. Esta cobra só existe no Rio Amazonas. 

Em relação ao código de ética, acredita que ele é essencial ou dispensável ao jornalista? Como lida com questões de ética, para escrever ou publicar noticias? 

Sem ética não pode existir jornalismo – aliás qualquer profissão. Infelizmente, nalguns órgãos de comunicação social (principalmente nacionais), cometem-se, por vezes, as maiores atrocidades neste campo, tudo em nome do já referido sensacionalismo. Orgulho-me de, na minha carreira de jornalista, incluindo os primeiros anos em que exerci apenas como hobbie, nunca ter tido processos judiciais, ou sequer desmentidos de notícias – em 12 anos com o jornal impresso e digital, contam-se pelos dedos das mãos as correções a notícias – apenas correções de imprecisões. Esta também é a minha forma de estar na vida – a luta pela verdade. 

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