Insólito : Pai tem que transportar filha entre Hospitais

Clemente Pereira para Jornal do Centro

Criança de 9 anos de idade com um quadro clínico que apontava para um diagnóstico relacionado com um problema cardíaco, ou neurológico, na sequência de uma sensação de desmaio, teve que ser transportada no carro particular do pai do Hospital de Tondela para a Urgência do Pediátrico de Viseu.

Segundo Rui Guinapo, pai da menina, ambos, residentes em Santa Comba Dão contou ao Jornal do Centro que se tratou de uma situação “anormal e inadmissível” que aconteceu a 25 de setembro último, depois de ter sido atendido por um médico, com sotaque espanhol, no Serviço de Urgência do Hospital de Tondela.

O clínico acabou por informar que a menina tinha de ser transferida para Viseu, tendo acrescentado que “não podia requisitar transporte de ambulância, porque as Corporações de Bombeiros estava a recusar-se em assegurar este serviço” e que teria de ser o próprio a transportar a filha, na sua viatura particular”.

Desesperado com o quadro clínico da filha, Rui Guinapo ainda telefonou a pedir ajuda para o CODU – Centro de Orientação de Doentes Urgentes (INEM) de Coimbra, tendo sido informado pelo Chefe da Equipa Médica de Serviço que “não conseguia requisitar transporte diferenciado (ambulância)”, tendo revelado “tratar-se de uma situação recorrente e que se deve a um problema relacionado com o Centro Hospitalar de Tondela Viseu, devido a compromissos pendentes que têm a ver com o pagamento das “Transferências Inter-Hospitalares de Doentes Urgentes” por parte dos Bombeiros de Tondela e, ainda, de 10 outras corporações que se têm recusado em assegurar o transporte de doentes, enquanto não sejam liquidadas algumas faturas em atraso”.

DESESPERO DO PAI PRECIPITA TRANSFERÊNCIA NÃO RECOMENDADA

Como não havia qualquer ambulância disponível para transportar a criança para Viseu, o pai, Rui Guinapo, não teve outra solução do que ser ele próprio a levar a filha, circulando no IP3 a alta velocidade, com os piscas ligados, em sinal de emergência até à Unidade Pediátrica do Hospital de Viseu.

A médica do Serviço de Urgência Pediátrica, completamente atónita, com este cenário que considerou ser de “extrema gravidade” decidiu dar uma forte reprimenda ao pai, tendo em conta os riscos que ambos correram “devido à irresponsabilidade do colega da Urgência de Tondela ao ter aconselhado o transporte da sua filha, na sua viatura particular, com um quadro clínico que inspirava cuidados especiais”.

O mesmo cenário repetiu-se 48 horas depois, ou seja, na sexta-feira, 28 de setembro, quando a menina, depois de já ter tido alta do Pediátrico de Viseu, terá novamente desfalecido, no restaurante do pai, em Santa Comba Dão, tendo sido, de novo, transportada pelo INEM para a Urgência de Tondela, acompanhada pela mãe.

Aí chegada, a criança foi atendida por um médico brasileiro (Dr. Edilson) que se virou para mãe e a aconselhou a levar a filha de imediato na sua viatura para Viseu. Ana

Mendes, mãe da pequena Bárbara Guinapo, disse que acompanhou a filha na ambulância do INEM e que estava sem viatura. Ana Mendes viu-se obrigada a pedir ajuda ao marido para a ir buscar.

A sorte é que por ali perto, permanecia ainda, uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Cabanas de Viriato, que se disponibilizaram para transportar a menina até ao Pediátrico de Viseu.

Perante este episódio, o Jornal do Centro apurou junto do presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Tondela, António Mano que “este quadro se arrasta desde 2014 quando o anterior Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Tondela Viseu decidiu acabar com este serviço de “Transferências Inter-Hospitalares de Doentes Urgentes” que, até então, eram asseguradas em “Regime de Exclusividade” pela Corporação de Tondela, que na altura chegavam a fazer uma média de 250 a 300 transferências, por mês ”.

Confrontado pelo Jornal do Centro, o responsável pelas Equipas Médicas que asseguram o funcionamento do Serviço de Urgência do Hospital de Tondela, Paulo Catalino esclareceu que “os médicos estão de mãos atadas, porque as corporações dos Bombeiros do sul do distrito de Viseu, numa listagem de 11, não estão a aceitar fazer “Transferências Inter-Hospitalares de Doentes Urgentes” a partir desta unidade hospitalar para outras existentes região, incluindo para o Hospital de Viseu, porque argumentam que o serviço está a ser mal pago – a 30 euros por transferência – e também porque o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) não aceita fazer transferências que não sejam enquadráveis no designado “score” de urgência”.

BOMBEIROS DE TONDELA RECUSAM TRANSFERÊNCIA REQUISITADA PELO HOSPITAL ACEITAM FAZÊ-LA ATRAVÉS DO CODU/COIMBRA (CAIXA)

Esta terça-feira, 2 de outubro, um homem de meia-idade entrou no Serviço de Urgência do Hospital de Tondela, com um quadro clínico considerado muito grave ao ser-lhe diagnosticado “um derrame da pleura”. O médico da Urgência de Tondela determinou a sua transferência imediata para o Hospital de Viseu, para realizar exames complementares de diagnóstico e um TAC, para determinar a gravidade e a exata extensão da lesão e respetivo tratamento. Solicitou ajuda para uma “Transferência Inter-Hospitalar de Doentes Urgentes” às 11 corporações mais próximas que constam de uma listagem interna do Serviço de Urgência de Tondela. “Nenhuma estava disponível para assegurar o transporte apoiado” denunciou o médico.

Desesperado decidiu recorrer em última instância ao CODU (Coimbra), para acionar uma “Transferência Inter-Hospitalar de Doentes Urgentes” que de imediato consegue disponibilizar uma ambulância da Corporação dos Bombeiros de Tondela, que cerca de 15 minutos antes, se tinha recusado em assegurar o transporte do doente para Viseu, quando solicitado pelo Hospital de Tondela.

Face a este episódio, o Jornal do Centro apurou que “os Bombeiros de Tondela ao terem recusado o serviço um quarto de hora antes, se ficou a dever ao facto de que o Centro Hospitalar de Tondela Viseu de apenas pagar pelo “frete” 30 euros, enquanto o CODU desembolsa pelo mesmo serviço 100 euros para assegurar a mesma “Transferência Inter-Hospitalar de Doentes Urgentes” que teve como destino a Unidade Hospitalar de Viseu” denunciou o médico do Serviço de Urgência do Hospital de Tondela.

Paulo Catalino que coordena as equipas de médicos escalados para o Serviço de Urgência do Hospital de Tondela considera esta situação “insustentável e grave”, acrescentando que “é necessário resolver urgentemente esta situação, para evitar uma desgraça que pode acontecer a qualquer momento, com consequências graves e imprevisíveis, colocando em causa a dignidade e profissionalismo dos clínicos e a vida do doente” alertou.

Certo é que os médicos do Hospital de Tondela culpabilizam os bombeiros da região de estarem a recusar em assegurara as “Transferências Inter-Hospitalares de Doentes Urgentes” para Viseu e Coimbra. Já os Bombeiros acusam o Centro Hospitalar de Tondela Viseu de não pagar o transporte.

O Jornal do Centro tentou ainda obter uma reação a esta situação por parte do presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Tondela Viseu, Cílio Correia, que se mostrou sempre indisponível.

SERVIÇO DE TRANSFERÊNCIAS DE DOENTES URGENTES ESTÁ UM CAOS

“Serviço de Transferências Inter-Hospitalares de Doentes Urgentes está um caos. Simplesmente, não funciona” alerta médico do Serviço de Urgência do Hospital de Tondela.

As Corporações de Bombeiros Voluntários da Região Sul do distrito de Viseu não garantem o transporte de doentes urgentes, alegando incumprimento no pagamento que lhes é devido, em particular, à corporação dos Bombeiros Voluntários de Tondela, entre o antigo Hospital Cândido de Figueiredo, o Hospital de São Teotónio de Viseu, os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e o IPO – Instituto Português de Oncologia (Coimbra).

Bombeiros têm recusado sistematicamente fazer o transporte de doentes urgentes do Hospital de Tondela para outras Unidades Hospitalares da Região Centro nomeadamente para o Hospital de Viseu e para os HUC.“Em causa está uma dívida de 30 mil euros do Centro Hospitalar de Tondela Viseu e de 120 mil euros dos HUC aos Bombeiros de Tondela” revelou ao Jornal do Centro, António Mano, presidente da Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Tondela (AHBVT).

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