Temos que travar o processo de regeneração dos eucaliptos

Os trágicos incêndios de outubro de 2017, além das vidas que levou e da destruição de bens e estruturas que a região, solidariamente, ajuda agora a reconstruir, deixaram para futuro consequências negativas no património natural e meio ambiente. Uma análise séria dessas consequências e um planeamento responsável, a médio e longo prazo, convoca-nos a combater com seriedade o ressurgimento das mesmas condições que permitiram a inesquecível tragédia do ano passado. Uma dessas consequências, agora bem visíveis, é o ressurgimento de milhares e milhares de eucaliptos que regeneram naturalmente após os incêndios e que nascem sobre a terra queimada e terrenos circundantes.

Autarcas, associações locais e ambientalistas das regiões afetadas alertam que as sementes de eucalipto, aos milhares, já entraram em pinhais e outro tipo de povoamentos, muitos deles queimados, total ou parcialmente, nos incêndios de outubro de 2017. Esta autêntica “invasão” fará com que as novas plantas de eucalipto cresçam desordenadamente, não só onde já havia eucaliptais antes dos incêndios, mas alastrem também para pinhais, matas e outras zonas florestais e agrícolas. Em consequência, aumenta exponencialmente a dificuldade de gerir os terrenos afetados e aumenta drasticamente a vulnerabilidade dos territórios a novas catástrofes, devido à incontrolada massa vegetal pronta para arder.

Os técnicos com experiência de trabalho no campo afirmam que é urgente arrancar os pés de eucalipto nascidos nestas condições e que esse trabalho terá de ser executado nos próximos seis meses. Se assim não for, afirmam técnicos e autarcas, toda a operação de arranque será muito mais difícil e dispendiosa. Para o mesmo fim, com as árvores crescidas e com raízes mais fundas, terão de ser utilizados meios e máquinas mais pesados, mais caros, mais difíceis de manusear e provavelmente inacessíveis economicamente para uma grande parte dos produtores.

Este fenómeno afeta outras funcionalidades da floresta, como o caso da apicultura. Por causa da proliferação desenfreada de eucaliptos e acácias, estão a ser usados pesticidas para combater o gorgulho dessas plantas o que destrói a produção do mel, nomeadamente na Serra do Caramulo. Os apicultores observam uma nítida redução no nascimento da restante flora e preveem grandes dificuldades na sobrevivência das abelhas que poderão não se aguentar, pois o eucalipto nem tem flor, é tão pequeno, mas mata o resto da flora em volta. Há ainda o risco de muitos proprietários, face à dificuldade em arrancar os eucaliptos, começarem a aplicar herbicidas com as consequências negativas que tal facto pode provocar nas nascentes de água e outras formas de contaminação do ambiente.

É necessário criar, com carácter de urgência, um programa desburocratizado e de rápida implementação, de apoio ao arranque dos eucaliptos que nasceram depois dos incêndios de 2017.  É preciso atribuir apoios à substituição do eucalipto por espécies autóctones de maior resistência ao fogo.

Diego Garcia

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