Brasil 7 de Outubro. A eleição de todas as dúvidas !

Fernando Hadadd (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) : principais candidatos à vitória

A frase mais ouvida, junto de diversos eleitores que contactámos, a uma semana das Presidenciais 2018, foi “tenho dúvidas”. A tónica de uma das mais importantes eleições na história da Terra de Vera Cruz, parece ser a indecisão, perante a falta de alternativas verdadeiramente credíveis para romper com os últimos anos. Estamos no Brasil, país-irmão, país-continente, com mais de 200 milhões de habitantes.

Praia do Futuro, Fortaleza, Ceará. Frequentamos esta praia há oito anos. Em plena campanha eleitoral para a eleição de 2010, questionámos alguns vendedores sobre o sentido de voto. Na época, preparava-se a sucessão de Lula da Silva para Dilma Rouseff. Na barraca de praia do Hotel português Vila Galé, muitos respondiam-nos : “vou votar em quem ELE disser”. Não sabiam sequer o nome da candidata do PT. Oito anos volvidos, constatamos que o grau de literacia melhorou e há maior vontade de esclarecimento. “Estamos com dúvidas – vemos a propaganda eleitoral, para ficar melhor informados”, foi o que mais escutámos. Marcelo vende bonecas de pano na praia e confidencia-nos: “era bom mudar, porque com o PT já verificámos que não dá, mas quando vejo Bolsonaro, vejo mais armas e maus tratos a mulheres”.

O Brasil encontra-se numa encruzilhada. Mergulhado na maior crise económica de sempre (a riqueza encolheu 7,2% em dois anos), somente agora, timidamente, começa a recuperar. É contudo a segurança que marca a agenda política. As cidades mais violentas do mundo estão neste território (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43309946),considerado o celeiro e o pulmão do planeta. Estamos numa delas. Fortaleza, uma grande metrópole, com 2,6 milhões de habitantes, é a 7ª cidade mais violenta do mundo. Dominada pelo narcotráfico, com facções criminosas, como o Comando Vermelho, a tomarem conta de diversos bairros periféricos (e não só), os residentes vivem em pânico. A posse de arma, como meio de defesa pessoal, é assim fator de grande relevância, principalmente para os mais abastados.

Há muitos anos que conhecemos Carlinhos. Fotógrafo de profissão vende cocos e DVD´s. Instado a falar do pleito, é categórico ao elencar as grandes diferenças que estão em cima da mesa : “Enquanto uns são ladrões que ajudam os pobres, os outros vendem o país ao estrangeiro”, afirma, revelando que “não vou votar – recuso-me a votar em bandidos”, isto num país em que o voto é obrigatório por Lei.

Fernando Haddad e Jair Bolsonaro polarizam eleição : Entre o regresso ao passado e a aposta num futuro incerto

A eleição está totalmente bipolarizada, entre o candidato herdeiro de Dilma e Lula, Fernando Hadadd (PT), representando uma esquerda que muitos não querem ver regressar ao poder, e o candidato populista de direita Jair Bolsonaro (PSL), cujas posições radicais (em 2014 disse à deputada federal Maria do Rosário “você não merece ser violada, de tão feia que é” e até já defendeu a esterilização dos pobres, para combater a criminalidade e miséria), abriram várias hostilidades na sociedade. Uma sociedade fraturada, pelo fosso económico e social, pela política, pela segurança, pelo tempo perdido …

É do Ceará um dos candidatos ainda com possibilidades de chegar à segunda volta (ocupa o terceiro lugar na pesquisa de opinião mais credível – DataFolha), mas não tem conseguido descolar. Ciro Gomes, antigo Ministro de Lula e antigo governador do Ceará, é um candidato bem preparado política e economicamente, mas com claros tiques autoritários. Há dias, em Roraima, perante uma pergunta incómoda de um jornalista local, insultou-o e empurrou-o.

O Nordeste, tradicional feudo do PT, parece acordar dos 12 longos anos de governação Lula/Dilma, que afundaram a economia do país e trouxeram à tona os maiores escândalos de corrupção de que há memória (Mensalão e Lava Jato), que delapidaram uma das maiores petrolíferas do mundo (Petrobras) e outras grandes empresas estatais. Desde alguns dos mencionados vendedores de praia, a militares, aposentados e empresários, é transversal alguma vontade de mudança. Mas os riscos são grandes. Não abrirá o país, todavia, uma enorme caixa de pandora, com a eventual eleição do ex capitão, Jair Bolsonaro?

Este tiro no escuro é contudo a preferência do Geólogo aposentado, Ronaldo, que estudou no Colégio Militar de Fortaleza : “temos que mudar alguma coisa neste país, pois pior do que está não fica”. Convicto que Bolsonaro é a voz da mudança, não hesita : é nele que irei votar.

Renata Carneiro, licenciada em gestão de empresas e empresária no setor financeiro/segurador, com 47 vendedores comissionistas (entre Fortaleza e São Paulo), e três colaboradoras fixas, não está tão convencida com a bondade do programa eleitoral de Jair Bolsonaro.

Vê vantagens e desvantagens no voto que tudo indica irá dar ao candidato de direita. É essencialmente um “voto pela mudança”, explica, sublinhando o grande desencanto e deceção com os 12 anos de governação PT : “os riscos de termos um presidente como Bolsonaro, justificam o meu voto, pois a dimensão da corrupção e o estado da Economia, impõem uma mudança de política”, afiança, mostrando, no entanto, o seu desagrado pela forma como o candidato de direita se tem referido às mulheres e sendo contrária à “democratização” do acesso a armas para defesa pessoal. “O PT destruiu o país – temos que apostar na mudança para nos reerguermos”, acrescenta. 

Renata, jovem e empreendedora, bem sucedida, teme assim por um eventual regresso do PT ao poder. Aquele que seria o seu candidato natural – Ciro Gomes -, rejeita-o liminarmente “ferve em pouca água – não tem postura, finesse ou classe, para ser Presidente”. Resta acrescentar que Renata sempre votou PT.

 

Rosangela Araújo, nossa cronista, licenciada em jornalismo, exerce a profissão em Recife (Pernambuco). Assessora de imprensa de diversos sindicatos, confessa-se de esquerda, por “convicção ideológica”. “Vou votar PT e Hadadd será o novo presidente do Brasil”, assegura. 

E o “show continua”, num país onde um palhaço foi o candidato a deputado federal mais votado nas últimas eleições  (Tiririca). A política aqui é mesmo um circo.

José Miguel Silva

DIRETOR

 

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