BE apresenta proposta contra a “invasão” de eucaliptos

Os trágicos incêndios de 2017, além das vidas ceifadas e da destruição de bens e estruturas que o país, solidariamente, ajuda agora a reconstruir, deixaram para futuro consequências negativas no património natural e meio ambiente. Uma análise séria dessas consequências e um planeamento responsável, a médio e longo prazo, convoca- nos a combater com robustez o ressurgimento das mesmas condições que permitiram a inesquecível tragédia do ano passado.

Uma dessas consequências, agora bem visíveis, é o ressurgimento de milhares e milhares de eucaliptos que regeneram naturalmente após os incêndios e os que nascem sobre a terra queimada e terrenos circundantes, como se fossem mega alfobres.

Autarcas, associações locais e ambientalistas das regiões afectadas alertam que as sementes de eucalipto, aos milhares, já entraram em pinhais e outro tipo de povoamentos, muitos deles queimados, total ou parcialmente, nos incêndios de 2017.

Esta autêntica “invasão” fará com que as novas plantas de eucalipto cresçam desordenadamente, não só onde já havia eucaliptais antes dos incêndios, mas alastrem também para pinhais, matas e outras zonas florestais e agrícolas. Em consequência, aumenta exponencialmente a dificuldade de gerir os terrenos afectados e aumenta drasticamente a vulnerabilidade dos territórios a novas catástrofes, devido à incontrolada massa vegetal pronta para arder.

Os técnicos com experiência de trabalho no campo afirmam que é urgente arrancar os pés de eucalipto nascidos nestes “alfobres” e que esse trabalho terá de ser executado nos próximos seis meses. Se assim não for, afirmam técnicos e autarcas, toda a operação de arranque será muito mais difícil e dispendiosa. Para o mesmo fim, com as árvores crescidas e com raízes mais fundas, terão de ser utilizados meios e máquinas mais pesados, mais caros, mais difíceis de manusear e provavelmente inacessíveis economicamente para uma grande parte dos produtores.

Este fenómeno afecta outras funcionalidades da floresta, como o caso da apicultura. Por causa da proliferação desenfreada de eucaliptos e acácias, estão a ser usados pesticidas para combater o gorgulho dessas plantas o que destrói a produção do mel. Os apicultores observam uma nítida redução no nascimento da restante flora e prevêem grandes dificuldades na sobrevivência das abelhas que poderão não se aguentar, pois o eucalipto nem tem flor, é tão pequeno, mas mata o resto da flora em volta.

Há ainda o risco de muitos proprietários, face à dificuldade em arrancar os eucaliptos, começarem a aplicar herbicidas com as consequências negativas que tal facto pode provocar nas nascentes de água e outras formas de contaminação do ambiente.

As acácias, espécie invasora, também estão a aproveitar as novas condições de espaço e luminosidade dos terrenos antes sombreados, agora abertos pela devastação dos incêndios, avançando para novas áreas a uma velocidade tamanha que já se transformou numa catástrofe ambiental que é preciso resolver com a máxima urgência.

Dever-se-á, na mesma leva, aproveitar o arranque destes eucaliptos para promover uma maior diversidade florestal, particularmente com o plantio de espécies autóctones, mais resistentes ao fogo, como as folhosas.

Esta recomendação do Bloco de Esquerda vem apoiada nas análises técnicas de peritos, ambientalistas e produtores, assim como no relatório da Comissão Técnica Independente para análise dos incêndios de 2017, que produziu valiosas informações

acerca das causas das tragédias do ano passado. No documento é evidente que uma das principais causas dos incêndios daquela dimensão e consequências é a predominância, nas áreas ardidas, de pinheiro bravo e eucalipto.

Assembleia da República