Rui Daniel Silva vive “pesadelo” na Somália

E finalmente na Somália. Sem ser a fronteira que tinha um ambiente um pouco pesado, até agora tem sido engraçado. As pessoas ficam pasmados a olhar para mim. Cumprimentam-me, alguns param o carro só para saber de onde sou. Numa das paragens o condutor ofereceu-me um café. Chego a Hargeisa e o pessoal ajuda-me a encontrar a pousada onde quero ficar. Parece que estou no Médio Oriente…. Amanhã será dia de explorar esta cidade antes de partir para a costa.
É o que eu digo. A cada passo acredito cada vez menos no que me contam ou dizem sobre certos países. O melhor mesmo é fazer como S. Tomé..”ver para crer”.. Na pousada acabei de pedir um prato de arroz com borrego. Passados uns minutos chega uma rapariga e coloca um prato de sopa e outro de salada na mesa. Digo-lhe que não foi o que pedi, mas ela não me entende pois só fala árabe. Aparece o dono e diz que é oferta da casa.
Este pessoal é mesmo especial e único. Interpelarem-me na rua com o intuito de saberem de onde sou, é algo já bastante banal. Mas pararem os carros só para me cumprimentar e perguntar de onde sou, só aqui na Somália.
Este pessoal é simplesmente genial. Sem ser três fulanos que durante o dia se meteram comigo e começaram a refilar sem eu perceber qual a razão, a grande maioria destes nativos são super simpáticos. Estes dois tipos pararam o carro no meio da estrada para me perguntarem de onde era e o que andava a fazer por estas bandas. Apesar de algumas buzinas por terem o carro no meio da estrada, saíram para tirar uma fotografia comigo e avisaram-me só para não sair durante a noite.

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Mas que filme hoje…. Acordo cedo para apanhar um autocarro para Berbera e estava tudo a correr bem até que a meio do caminho fomos mandados parar por militares. Um militar entra no autocarro e mal me vê começa a refilar comigo e manda-me sair imediatamente. Não percebi o que estava a acontecer mas segui-o até uma pequena barraca. Perguntou-me o que eu andava a fazer, qual a minha profissão, etc.. Uma carrada de perguntas e rematou que não poderia seguir viagem porque era perigoso demais e que precisava de escolta militar, assim como uma permissão para ir até à costa. Tentei ser sempre simpático mas ele estava a ser bruto comigo e atirou-me o passaporte quase ao chão. Comecei a refilar com ele e o porquê de estar a ter aquela atitude comigo. Um passageiro que ia traduzindo disse-me para eu ter calma e que estava tudo bem. Por causa de mim todo o autocarro com os passageiros teriam de voltar para trás até Hargeisa. Disse-lhes que não era preciso, que poderiam seguir sem mim e que eu ficava ali na boa até passar um meio de transporte para Hargeisa. Aparece um outro militar a refilar comigo em somali e eu comecei a falar com ele em português até ele me perguntar em inglês o que eu estava a dizer… Entrei no autocarro e o pessoal todo estava chateado comigo por terem de voltar para trás. O rapaz ao meu lado fez-me gestos com cara de raiva para eu desaparecer e eu tornei a falar em português dizendo que não sabia de nada e que não tinha culpa nenhuma. Um passageiro atrás pediu ao rapaz para ele se acalmar pois eu não tinha culpa. O pessoal berrava comigo e eu pedi ao condutor para chamar um taxista para ninguém ter de voltar atrás por minha causa. Meia hora depois chega um rapaz novo que me leva de volta para Hargeisa. Mal arranca recebe uma carrada de chamadas dos militares a questionarem para onde me levava e que deveria ter escolta e etc….. Chego finalmente a Hargeisa e vou à polícia. Não me deram permissão para fazer o trajeto pois tinha quebrado umas regras. A ver se amanhã vou à imigração e consiga ir finalmente até à costa…Enfim…
O pior dia de toda a viagem…. Mas que pesadelo…. Acordo cedo para ir à “Imigração “ e as senhoras explicam-me que eu não preciso de nenhum documento especial nem de escolta pois tenho o visto que é o principal. Apenas precisaria de escolta caso quisesse visitar “Las Geel” que fica nas montanhas. Contei o sucedido e elas garantiram-me para ir na boa pois estava tudo bem. Deram-me o número da imigração, caso não me quisessem deixar passar e tivesse problemas. Apanho novamente um autocarro e quando chego ao mesmo local e me reconheceram….mandaram-me sair imediatamente e começaram logo aos berros. Um polícia com um bastão na mão fazia gestos bruscos e berrava comigo. Eu até estava bastante calmo, pois tinha feito tudo como me pediram e até tinha o contacto da imigração para eles ligarem. Mas eles não quiseram saber do número para nada. Entretanto pára um autocarro e eles mandam-me entrar para regressar a Hargeisa. Recuso-me a entrar e sento-me numa pedra, dizendo que não vou sair dali, pois não estou a infringir nada e para eles ligarem para a imigração. Mas porque é que eu me sentei naquela pedra e não voltei logo para Hargeisa?….. Um militar pega no meu braço, atravessa a estrada e manda-me entrar num pequeno cubículo. Quando entro e um polícia reconhece-me do dia anterior….levanta a mão várias vezes para me bater, gritando “Sit down…sit down…” Tentei mostrar-lhe o número que tinha da imigração e novamente levanta a mão para me bater, berrando em inglês para me sentar…. Nem tive coragem de dizer mais nada e sentei-me imediatamente. Olhava para mim com cara de raivoso e ali estava eu…. Quando alguém entrava que falava o inglês, eu tentava explicar que me tinham garantido que não haveria problema nenhum e daí eu ter feito novamente o mesmo trajeto. Mais tarde chega um senhor até bastante simpático. Meti conversa com ele e quando ele perguntou ao polícia quando é que eu poderia ir-me embora e ele responde que eu estava preso e que não podia sair dali… fiquei…. enfim… Por várias vezes tive quase as lágrimas a caírem-me, mas tentei sempre ficar calmo e só pensava: Rui, tu não vais chorar que é pior….. Às vezes apareciam outros militares e polícias que olhavam para mim com cara de desprezo. Um deles estava bêbedo e não parava de olhar para mim quase a gozar. Eu olhava para cima e só pensava: “ Pai… ajuda-me se faz favor… preciso de ti…” … e controlava as lágrimas…e pensava… não vou chorar aqui… Enfim… Passadas 3 horas chega um polícia novo que era bastante simpático. Expliquei-lhe a situação e ele disse para os outros polícias: “ Ele não tem culpa nenhuma. É a imigração que tem culpa…” Mandaram-me levantar, revistaram a minha mochila e apareceu um militar que pegou no meu braço e mandou-me entrar num veicula de volta para Hargeisa…. Enfim…. que alívio… Voltei a Hargeisa e que confusão para arranjar escolta. Num sítio mandam-me para um lugar. Noutro para o mesmo sítio. Já tive pessoal que fala o inglês a tentar ajudar-me e nem eles conseguem perceber. Já estou cansado desta história que vou desistir de ir para a costa e vou amanhã através da pousada para “Las Geel”…
Finalmente consegui chegar até à costa.. Foi tudo improvisado mas acabei por ter sorte. Como tinha de ter escolta para visitar “Las Geel”, lembrei-me após passar o tal posto de controle de ontem, de perguntar se podíamos ir até Berbera. Os tais polícias de ontem nem mandaram para o Jeep, por isso nem me viram passar. Mal vêem um militar na parte da frente do veículo, mandam seguir imediatamente. Lá tive que pedir se faz favor e que pagava o gasóleo e o almoço e mais umas tretas e “please please…” e eles aceitaram.. Levaram-me até à costa e foi mesmo brutal. À vinda fui mauzinho… Percebi que nos postos de controle quando viam um militar, mandavam seguir imediatamente e nem mandavam parar. Quando vi que iríamos passar pelo tal posto de controle, onde tive os problemas, encostei-me do lado esquerdo e abri a janela de propósito para eles me verem. Quando um deles me reconheceu, chamou os outros e eu levantei apenas a mão a dizer adeus.
Apesar de tudo o que aconteceu, uma coisa é certa. Este povo é dos mais simpáticos e afáveis por este continente. A pergunta mais frequente, não é de onde venho, mas se sou muçulmano. Quando digo que não tenho religião, alguns ficam meio pasmados e outros querem logo que me converta ao islamismo.

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