“Os dias que nos Dão”. Livro assinala os 110 anos da Região Demarcada do Dão

Com texto do jornalista Amadeu Araújo, a edição é da Comissão Vitivinícola Regional do Dão

Vivam, que está feliz o gaiato de vos ver neste Paço que é Solar e bem merecemos que o sol abençoe a vindima nestes 110 anos de Região Demarcada do Dão. Como bem lembrou o republicano Marcelo Rebelo de Sousa nesta segunda-feira, foi o monárquico Dom Manuel quem assinou a Carta de Lei, subscrevendo o fomento vínico que tão bem tem feito a esta região. O Dão ama-se e como disse Bono amores longos “requerem mais paciência e menos paixão”. Eu sou de voragens, mas acredito que a paciência nos tenha permitido pensar melhor nesta vida de lavradores. Como disse aqui há dias o João Paulo Gouveia “desde que me lembre sempre fiz vindimas”.

Encontrados os viticultores é tempo de lembramos, como sublinhou o senhor Presidente da República, autarcas e parlamentares. Foi assim que o Dão nasceu, uma grande congeminação dos bacharéis de Coimbra, compromissados com as terras que lhes deram sustento e estudos. “Os dias que nos Dão” lembram os produtores de uva que trabalham estes 16 mil hectares de vinha. Produzem 35 a 40 milhões de litros por ano, dos quais cerca de 40% são certificados. Foi essa linha temporal que me fez desenhar este livro, e já vos conto como nasceu esta alegria que me enche o preito e me inflama o coração. Para mim Dão paixão e paciência que ainda temos algumas idiossincrasias.

Mas a memória, e hoje a Comissão assinala o arranque de um centro de documentação, quer-se preservada. Bebi o meu primeiro vinho do Dão em 1987. Foi na casa do comandante Américo Borges, nos tempos quentes dos fornos Eléctricos, em Canas de Senhorim e creio que tenha sido um Udaca de 1983. Mais tarde, em 1995, regressava de uma ação de formação no Sabugal e parámos em Nelas, onde me ofereceram a primeira garrafa, um Dão para celebrar os 75 anos dos Bombeiros daquela vila. Em 2000 paguei por duas garrafas de vinho do Dão, cinco contos de réis na ardida casa das trutas. Mais de quatro anos depois, numa noite de batota, com o Bordalo e o Nuno Amaral, bebemos todo o Dão que havia na casa da professora Engrácia. Será talvez daí que vem a minha paixão pelo Dão, vinhos diferentes, rudes como gosto de dizer, macios se preferirem, mas vinhos que me deixam, sempre, inquieto, à procura do que encontro. Não há um vinho que me tranquilize. Alvoraçam-me, fazem sonhar, teclar de forma furiosa, escrever contando. Talvez devêssemos guardar alguns. Mas, dizia-me esta madrugada o Alfredo Rente, para nós enófilos não vale a pena. Esperar é difícil. Os vinhos do Dão são fenomenais embora eu pouco perceba dessa poda.

Mas esperar é virtude. Vocês, os que vindimam esperam dez meses, olhando sóis e luas, chuvas e geadas. Conto-vos estas passadas porque gosto da memória, do lastro, do granel que metemos dentro da tanoaria. Do que carregamos nestas mulas de almocreve. Saber merecer tamanha gesta é coisa de inquietos. Preservar é porfiar. É por isso que o meu Afonso cheira todos os vinhos que o pai bebe. Para que conheça o chão que pisa, a origem, para que saiba de onde vêm, estes fabulosos vinhedos que tornam estupeficante este Dão que hoje celebramos com este livro, responsabilidade temerária, que funciona como um pipo, contendo dentro história anotada e fora o trabalho na vinha que é completo e longo como a feitura de um pipo.

Um pipo com aduelas, uma peça que diz muita à cidade onde ancora a Região. A madeira, de castanho ou carvalho, é cortada em aduelas. Aduelas é o proémio de Arlindo Cunha, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão. Cito o meu bom amigo, e não me esqueço de vos contar como nasceu este livro, “a singularidade dos vinhos do Dão, com a consequente recuperação da sua histórica imagem de qualidade e a respetiva transmissão ao mercado e aos consumidores, tem vindo a pouco e pouco a traduzir-se num crescimento sustentado das vendas”.

Avançando no barril temos outro assomo. A destrinca, destinar as aduelas aos pipos e aos tampos. O contexto e a geografia. Este rio do Eirado à Foz do Dão. Novo capítulo e temos compasso, coisa que vocês sabem melhor do que eu. Definir as coordenadas do pipo. Origens e primórdios da viticultura no Dão. Vinhas antigas, as origens. Noutro ponto a fundagem, o alisamento da madeira. As razões para a demarcação. Os latifundiários, a cumplicidade coimbrã dos estudos, demarcar é vender e eu tenho um amigo que é par do reino. O Isquir, enlombar, dar corpo ao pipo. O fomento, a quantidade e o despontar. A grande guerra, o estado novo, o incentivar das cooperativas, as quantidades. Nova clausula na pareia, cálculo das aduelas necessárias ao pipo. Entrada na CEE, fundos e o Parker. Uma nova alvorada, fundos e o alargar do mercado. Prosseguindo a passada temos a Bastição, malhar o encaixe das aduelas em torno do encosto. Qualidade e quintas. O renascer do Dão, a perceção das castas, novas marcas, novo fomento. E aqui uma cumplicidade. Houve até um tipo que acabado das lides políticas no Governo da nação, uma danação portanto, resolveu atirar a enxada à terra…vem a páginas tantas neste fólio…adiante e novo pasto no Armar, colocar em pé as aduelas, dentro do primeiro arco de bastição.

Centenário. Data marcante, com muitas comunicações e que eu espero que engordem esse centro de documentação aonde daqui a nada poremos pés e olhos. Depois do centenário, perdoem a farpa, eram precisas vistas largas, mas não conseguimos ver no horizonte. E só mais tarde mexeríamos nesse assunto. Já lá chego, antes o Esquivir, a raspilha que estreita as aduelas, do centro para as pontas. Enoturismo e estratégia. Que já despontamos, e ainda não está totalmente presente, mas já se prepara. O enoturismo, as mesmas quintas, prémios e reconhecimento.

Uma ideia de que o Almeida Henriques teve coragem para defender e propor e que ainda é mal percebida. A cidade vinhateira, a região que se arregimenta. Ninguém suplanta ninguém, mas um sozinho não leva o pipo. É isso que escrevo, sem menorizar nem elevar. Constatando. Outro capítulo, chanfrar, cortar os arcos, cravar e repuxar. Castas e notoriedade dos vinhos. Aqui a nossa grande diferença sendo certo que somos uma região de lotes que sabe fazer grandes varietais. Nova divisão para encavilhar, riscar e rodear os tampos, empalhando os juntos. A touriga nacional.

É aqui que o livro poderá, aparentemente, perder alguma coerência, mas já a justifico na resenha. Aproveito o soluço para lembrar, sem bairrismos saloios, que este ´um livro todo feito em Viseu. Design da DPX, do Nuno e do João, correção aqui na CVR e impressão no Sá Pinto. Volto ao índice, o Arrunhar, fazer a cunha com a enxó, parejar e alisar. O Encruzado.

Capítulo seguinte, Rabotar, acertar a toda a circunferência. Dão Nobre e regulação. Foi isto que não fizemos em 2008 e que soubemos fazer a destempo, mas fizemos. Esta loquacidade que permite perceber que a distinção do grande vinho não é uma quimera. É uma certeza. Adiante. Espargimento, os pipos vão ao fogareiro para apertar os arcos. O Dão no ano 110. Grandes e poderosos vinhos.

Neste jogo de palavras outro capítulo. Desculpai, mas aprecio ironias e letras sibilinas. Alheta, a ajuda para colocar os arcos, antes de vedar o pipo. Desejos de futuro. Uma conclusão. A resenha, a constatação dos milhares de anos de história, da região e do vinho que nela se faz. As lutas, a grande congeminação para fazer nascer a Região, o fomento e incremento de qualidade num Portugal arrumado e especializado, cereais além, vinho aqui, milho acolá.  O desfalecimento, a ressuscitação e este Dão esplendoroso que vemos hoje.

De permeio o cofre forte. As castas, os embaixadores, Touriga e Encruzado, os novos caminhos, a diferenciação do que é realmente nosso. Brotou aqui e temos que saber por essas na lapela. Essas videiras, estas cepas que nestes dias vos toldam a angústia que este ano a vindima não é fácil. Diz quem já fez muitas. Eu bebi muitas e espero ter sabido honrar o suor dos afadigados que este é um Dão de lavradores, enófilos, enólogos e escanções. Mas nunca percebi nada de vinho. Nem de vinho nem de letras.

Do Dão muito menos. Mas quando o Arlindo Cunha me chamou à vindima, eu que procurava o xopito refeiçoeiro, atirei-me ao deslumbre disse-lhe. Quero sim, senhor professor. Naquela manhã de fevereiro comecei a plantação deste livro, que, devo dizer, é incompleto e omisso. Ainda nesta última feira do vinho do Dão, quando o Canto Moniz me apresentava os novos enólogos da Taboadela, fiquei a saber que o primeiro presidente indigitado para a Federação dos Viticultores do Dão recusou o encargo. Queria ser eleito pelos pares. O Canto Moniz tem essa carta e eu não conto a história nesta breve linha temporal em que elenco os dias que nos Dão. E este é um pequeno exemplo do tanto que há para contar.

Porém são dias que nos Dão, de continuidade, de pertença e crescimento, mas sempre Dão. Outro amoque de escriba rabugento. Na pesquisa para este livro detetei muitas adegas e produtores com pouca informação, sobretudo na internet, às vezes quase nenhuma história como nasceu a adega, que parcelas são estas, enfim porque estamos aqui. Temos que saber porfiar nesta história, registar as memórias nos mesmos livros onde apontamos quantidades e meteorologias, dias ao ganho, buchas servidas. Anotar para não esquecer. E para o escrever, sem poder contar a que se destinavam as lides, vi-me e desejei-me. Em telefonemas e conversas. Com muitos, conversas de voragem, conversas sem gravador nem cadernos, escrito logo ali, na pele, sem grainhas e com mosto. Podia elencar aqui dezenas de nomes, esquecer centenas, vocês sabem com quem falei e isso basta-me. Mas omissões e esquecimentos não se perdoam e em os havendo, renovo a ressalva, a osmose é toda do escriba.

À Comissão Vitivinícola Regional do Dão apenas um bem-haja pelo privilégio que é contar uma história de perseverança, a mesma que possuem os viticultores que ano após ano, colhem destes socalcos e vales, a mais extraordinária das riquezas que a região tem. São esses feitores que me merecem engenho e respeito. Os que fizeram a região, fazendo-a primeiro, sonhando-a depois, concretizando-a ainda antes da monarquia morrer. Essa tenacidade, as casas antigas, os novos produtores, as velhas adegas, as nupérrimas frasqueiras, fazem desta uma região enorme, cheia de futuro. Porque temos esse lastro, esse legado de 110 anos que nos dá uma origem a que só temos que saber ser fiéis.

Do livro, desta enxertia de letras, dirão vossemecês de vosso pleito. Mas é um primeiro entretém para a obrigação que temos de contar a história deste rio que nos assarapanta a cada golada. Para que saibamos quem somos e como somos. Do vinho, digo eu que caminho com pés de andar, é uma inegável façanha. Único, lendário e vanguardista. Uma vanguarda assente na origem, que nunca se outorgou. Sempre cá esteve.

E isso, estes dias que nos Dão, devemo-los sobretudo aos viticultores que a Uva é um Cão, uma Trincadeira, um Rufete e uma Touriga, um Roriz. Um Alfrocheiro com Rabo de Ovelha. Uma malvasia, um gouveio, uma touriga fêmea, um esganoso. Jampal e luzidio, tudo isso e muito mais que vinho é festa, suor, calos, cortes e tesouras. É alegria, mas sobretudo sustento. Como lembrou o bom Padre Milton no dia da comunhão de meu filho, ‘eu sou a videira e o meu pai é o lavrador’. E para mim é uma enorme bondade conhecer as vossas histórias, pelejar as vossas idiossincrasias e, mais que tudo, beber-vos.

Quero terminar com o orgulho de quem se sente honrado pela regalia. Cito a vaidade. Preparem a curiosidade, abram as papilas, escancarem o coração e subam às serranias, atravessem caminhos, corram veredas e sendas, escapem-se aos verdejantes vales.

São estes ‘Os dias que nos Dão’. À vossa e ao Dão que me vejo em vós como desejo que se vejam neste cento de páginas.  Dancem e celebrem. Porra a Beira está feliz. Feliz e Alta. Longa vida ao Dão pois então.

Amadeu Araújo

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