Fernando Tavares Pereira na primeira pessoa

Emocionou-se a contar uma ida ao hospital, esteve a falar com Quim Barreiros, acendeu velas no Santuário. Um dia no incrível mundo de Fernando Tavares Pereira, candidato à presidência do Sporting.

“O que é que eu fazia para aqueles debates a dois? Lavar roupa suja? Eu nunca andei lá, não tenho sequer roupa para lavar…”. Fernando Tavares Pereira já era o mentor daquilo que se pode considerar uma candidatura pioneira – afinal, e depois das oito eleições com mais do que um candidato que o Sporting teve desde 1984, é o primeiro a liderar um movimento que nasce, cresce e procura desenvolver-se fora de Lisboa. Mas é na capital do País que começamos o dia com o empresário de Tábua — que teve passagem por Fátima e por Carnaxide e acabou mais cedo por causa de uma ida aos Açores.

Houve momentos caricatos, como uma chamada de Quim Barreiros para o seu telemóvel; houve momentos de maior reserva, quando segurou um conjunto de velas para acender no Santuário, cada uma com o seu significado (mas nenhuma relacionada diretamente com as eleições do clube); houve momentos de emoção, quando recordou o dia em que acabou no hospital de Leiria já de madrugada depois de uma final da Taça. Tavares Pereira é todo um mundo de genuinidade sem segredos mas que consegue também surpreender pela dimensão desse mesmo mundo, bem maior do que se possa pensar. Exemplo? Trocou por mais do que uma vez ideias com Rui Vitória quando o técnico do Benfica estava no Fátima no início da carreira, é amigo de Paulo Fonseca, que treina o Shakhtar Donetsk, recebe SMS de José Mota e conhece José Mourinho.

No final do dia com o candidato da lista G às eleições do Sporting, que recebeu abordagens “de todos os outros candidatos” mas que vai até ao fim, há uma inversão de ideias clara: aquele que à partida seria o mais conhecido entre os menos conhecidos neste sufrágio verde e branco é na verdade talvez o menos conhecido entre os mais conhecidos. Pelo sucesso empresarial, pelos amigos que foi fazendo, pela sagacidade para perceber o que é ou não rentável e reinvestir o que ganha. Até pela forma como preferiu conduzir a sua campanha, passando por cima da limitação de não haver voto eletrónico nas capitais de distrito e optando por visitar o maior número de núcleos possível de Norte a Sul, passando pelas ilhas, em vez de andar na TV de debate em debate. Em alguns casos, que são muitos, chega a pagar jantares em alguns dos locais que vai visitando mas é a explicação para tal que desarma qualquer um. “Nós andamos aqui de um lado para o outro, também precisamos de comer. Para algumas pessoas, dez ou 15 euros numa refeição é mais pesado nas contas do mês do que se possa pensar. Ora, se tenho de jantar, porque não posso oferecer também algo a essas pessoas? E eu sei que não vão a Lisboa votar em mim, mas podemos falar do clube e posso saber mais sobre as necessidades do Sporting interior”. Eis a candidatura de fora para dentro.

9h-12h

O exemplo do Museu, a entrevista a caminho da entrevista e as “pazes” com Dias Ferreira

Fernando Tavares Pereira possui alguns imóveis em Lisboa mas mantém o hábito de pernoitar no Holiday Inn Continental, na zona do Campo Pequeno. Sente-se melhor ali, é bem tratado, está confortável. Tão ou mais importante, conhece e gosta das pessoas. E é isso que vemos quando chegamos à hora combinada (9h) e nos encontramos na entrada com Luís Matos, diretor de campanha do empresário. Uns minutos de conversa e descemos um piso para o pequeno-almoço. “Oh senhor Fernando, está tudo bem? Quer alguma mesa em especial, como está com esses senhores?”, pergunta uma das empregadas logo à chegada. Vamos mesmo para uma sala mais reservada onde ainda não está ninguém. O candidato tira o casaco antes de ir para a zona do buffet, arrumamos as coisas mas pisamos o risco de forma inadvertida: “Aí ao canto costuma ser sempre o senhor Fernando. Ele não tem essas coisas das superstições, mas gosta de ficar sempre nesse cantinho”. E assim fica.

Ao contrário da maioria das pessoas naquele espaço, Fernando Tavares Pereira, que tem por hábito acordar sempre cedo, com ou sem compromissos, começa pela fruta. Uvas e companhia nos pratos, um pêssego que prefere descascar. Mas a segunda dose não iria demorar: queijo, fiambre, um ovo estrelado para aproveitar o pão, café com leite e um bocadinho de mel que deixa escorregar de forma cuidadosa para a chávena. “Ontem chegámos já depois das 2h da manhã mas tivemos um grande dia, conseguimos ir a mais quatro núcleos. Almoçageme, Caneças, Negrais… Zonas com muitos sportinguistas, muitos mesmo”, diz, antes da primeira interrupção: “Oh Luís, temos de ver se arranjamos maneira de ir à Tasca do Júlio. O homem vai ter comigo, tem essa preocupação, o mínimo que podemos fazer é passar por lá”. “Não temos tempo senhor Fernando”, diz Luís Matos.

A caminho da Lusa, Fernando Tavares Pereira vê como saiu uma entrevista sua ao jornal Record

O diretor de campanha tem essa preocupação de muitas vezes dizer não. “Caso contrário, os nossos dias precisavam de 48 horas. Não imagina, ele é mesmo assim, fica a falar e a falar com as pessoas, não quer faltar com nada”, explica. A meio desta conversa, Fernando Tavares Pereira dá um exemplo prático, mesmo que micro numa realidade macro chamada Sporting, daquilo que considera ser “a necessidade de arrumar a casa”. “Já viu esta questão de o Museu dar prejuízo? Não pode ser! No dia em que fomos a Alvalade entregar as candidaturas, se juntarmos os grupos todos que foram fazendo a visita ao estádio, temos umas 150. Ora, funcionários por ali devem ser uns 15, com um encargo diário médio de 50 euros. Os sócios pagam cinco euros, os não sócios 14… Não faz sentido. Tem de ser um pouco mais barato, temos de saber mostrar aquilo que faz do Sporting a segunda maior potência europeia contando com todas as modalidades, temos de pedir também aos nossos maiores atletas que nos cedam alguns troféus e medalhas que ganharam e isto tem de acabar na Loja Verde para as pessoas levarem no mínimo uma recordação. Há coisas a que as pessoas não ligam muito, mas é nestes pormenores que se melhora”, destaca.

Ainda tínhamos uma dúvida que ficara presa uns minutos antes: quanto é que uma pessoa gasta em todas estas viagens? “Olhe, já fizemos cerca de 30 mil quilómetros até agora, fora a viagem à Madeira. Se por cada quilómetro fizermos uma conta de 50 cêntimos pelo gasóleo, pelas portagens e pelo próprio desgaste do carro, porque parece que não mas 30 mil já deixa marca nos pneus por exemplo, é fazer as contas…”, atira. Mais tarde, a esse valor, ainda acrescentaria outros. No total, fazer uma campanha deste género acaba por ser bem mais caro do que se possa pensar. “Por isso é que somos uma candidatura diferente, de fora para dentro. Ia aos debates a dois fazer o quê? Não se discute nada e às vezes acaba por estar a lavar-se roupa suja que eu não tenho porque nenhum de nós nunca lá andou”, acrescenta. Próxima paragem: agência de notícias Lusa. Pelo caminho lê o jornal Record, em especial as duas páginas de entrevista. Outra curiosidade – não vê as restantes páginas da secção Sporting.

“Olhe, já fizemos cerca de 30 mil quilómetros até agora, fora a viagem à Madeira. Se por cada quilómetro fizermos uma conta de 50 cêntimos pelo gasóleo, pelas portagens e pelo próprio desgaste do carro, porque parece que não mas 30 mil já deixa marca nos pneus por exemplo, é fazer as contas…”.

Uma hora de entrevista depois, sai e vê Nicolau Santos, agora presidente do Conselho de Administração da Lusa e conhecido sportinguista, e aproveita para fazer um agradecimento. Antes mostra o programa que leva na mão e deixa mais uma ou outra frase sobre o clube e as eleições — mas o grande objetivo da conversa é outro. “Queria agradecer a cobertura que fizeram no ano passado dos incêndios na minha zona. É muito importante que as pessoas percebam o drama que se viveu e ainda hoje se vive ali. Fizeram um excelente trabalho e, em meu nome e de toda a gente, só posso saudar isso. Bem haja e espero que um dia o possa convidar para ir lá”, comenta. Desce as escadas e cruza-se com outro candidato, Dias Ferreira. O mesmo com quem houve uma troca de palavras mais acesa no primeiro debate a sete.

“Ainda bem que o vejo para lhe dizer uma coisa: não fique chateado comigo por causa daquilo, eu tenho mesmo muito respeito por si. Não tenho nada contra si”, diz o advogado. “Não há cá ninguém chateado, você também interrompeu quando estava a falar… Já passou, amigo”, responde o empresário. Ainda ficam a falar uns minutos, com Dias Ferreira a explicar que tinha defendido a segunda volta nas alterações estatutárias de 2011, que todos estavam de acordo mas que de repente tinha sido chumbado sem perceber bem porquê. “Eu só acho importante haver isso a partir de agora, até porque nunca estive no Sporting, não podia fazer nada. Isso e o voto eletrónico nas capitais de distrito, pelo menos. Ganhamos todos com isso”, diz Tavares Pereira. Um abraço para selar em definitivo as pazes, o desejo de boa sorte para o que resta da campanha e início da viagem para Fátima.

Depois das farpas no final do primeiro debate a sete, o empresário esclareceu a situação com Dias Ferreira

12h-16h

As más memórias de uma Taça, Quim Barreiros e um acidente que ainda não esqueceu

Há duas frases que Fernando Tavares Pereira repete de cinco em cinco minutos: “Nunca se deve esquecer o passado para ter um presente melhor e um futuro diferente” e “Se quer ser respeitado também tem de respeitar”. Tanto no Sporting como na vida profissional, o segredo passa por saber antecipar o que vai acontecer daqui a cinco anos, “caso contrário andamos sempre com cinco anos de atraso”. Graças a esse poder de antecipação, Luís Matos não perdia uma oportunidade para marcar hora para recolher: “Às 21h está na caminha, nem que seja eu a ir deitá-lo, porque amanhã temos de estar no aeroporto às 5h da manhã. Não vamos ter tempo para ir a núcleos”. “Ok, logo se vê”, responde o empresário. “Sabe, se houvesse voto eletrónico, e bastava ser nas capitais de distrito, era eu que ganhava. E vou lutar por isso”, repete para a parte de trás do carro. “Este é o homem que uma vez ainda estava à meia-noite e meia a falar com sócios em Viana do Castelo, ficou mesmo até ao final, mas teve de ir dormir a casa por ter saudades da família. Chegou às 3h, mas de manhãzinha já estava a caminho de Vila do Conde”, recorda Luís Matos, numa das muitas viagens onde tem acompanhado o candidato um pouco por todo o país.

Tavares Pereira tira o casaco e coloca nas costas do seu banco. A caminho da autoestrada, começa por recordar parte do que tinha acabado de dizer em entrevista falando com o seu diretor de campanha. “Falaram-me no Bruno de Carvalho, tive de dizer que se demorou umas horas para estragar quatro ou cinco anos de trabalho”, diz. Recuperamos a parte final da conversa com Dias Ferreira, onde tinha apontado para a zona da barriga mostrando uma hérnia por causa de um jogo em específic§o. “Esse é aquele jogo que nunca mais vou esquecer da vida e já vai perceber porquê”, destaca.

A caminho de Fátima, Tavares Pereira foi recordando várias histórias enquanto ia ajeitando a gravata

“Nessa final da Taça de Portugal de 2008, que o Sporting ganhou com o FC Porto por 2-0 com dois golos do Tiuí, nem era para ter ido ao Jamor porque tinha o batizado de um neto de um amigo. Os dirigentes do Sporting ligaram, até foi o Menezes Rodrigues, disseram que se quisesse tinham bilhete para mim, comentei isso com o meu amigo e foi ele que me disse logo ‘Oh sôr Fernando, você meta-se mas é na estrada e vá que pode’. Não queria, porque me tinha comprometido, mas ele tanto insistiu que vim. Vieram duas carrinhas lá da minha zona, que nestas alturas costumo oferecer bilhetes, fomos aos petiscos lá no Jamor, vimos o jogo e voltámos para cima. Até me lembro de dizer ao rapaz que levava o carro que era melhor ir pela A8 para evitar a malta do FC Porto, mas ele enganou-se e de repente andávamos no Marquês. E fomos pela A1″, começa.

“Quando paramos na estação de serviço de Leiria para ir à casa de banho, vi logo que estavam uns autocarros do FC Porto lá mas como era depressa não havia problema. Quando saí não vi ninguém e fui beber um café, pensava que o resto das pessoas estavam por ali. Depois lá veio o meu pai, afinal estava na casa de banho, e era para ir buscar uma água, que bebo muita água por dia, e seguir caminho. Houve um que me tirou um cachecol que tinha com uns 30 ou 40 anos, velhinho, e de repente só senti a garrafa a estoirar com um murro que me deram, caí, bati com a cabeça, fiquei logo com sangue, mas levantei-me logo porque não sou pessoa também de me ficar.Houve um que ainda consegui apanhar e levou. Depois apareceu a GNR, primeiro identificou uns indivíduos que fugiram, depois levaram outros que afinal tinham identidades falsas. Aquilo não pode acontecer, as nossas forças de segurança devem defender os cidadãos. Às 7h da manhã a minha mulher ligou-me quando estava no hospital de Leiria — ainda tive de levar quatro pontos — e não lhe disse nada, mas a essa hora já estava nas notícias que tinha havido desacatos e parece que tinha adivinhado que era connosco. Quando entrei estava com uma tensão mínima de 13.5 e a máxima nos 19. Até o meu pai teve de ser visto…”

“Era para ir buscar uma água, que bebo muita água por dia, e seguir caminho. Houve um que me tirou um cachecol que tinha com uns 30 ou 40 anos, velhinho, e de repente só senti a garrafa a estoirar com um murro que me deram, caí, bati com a cabeça, fiquei logo com sangue, mas levantei-me logo porque não sou pessoa também de me ficar. Houve um que ainda consegui apanhar e levou (…)”.

De repente, o silêncio. Estando no banco de trás, pensávamos que tinha sido uma SMS ou um email que tinha chegado, talvez uma chamada que tivesse recebido. Ao recordar o episódio, o empresário emocionou-se e estava a puxar do lenço no bolso. “Desculpe lá, quando me lembro disto é complicado, não me esqueço daquele dia”.Foi há pouco mais de dez anos mas a memória está presente. Nesse episódio e noutros, como os da juventude, que ajudaram a virar a página após a emoção.

“Aos dez anos vendia seguros, mas antes já trabalhava, ou pelo menos ajudava a ganhar qualquer coisa. Com cinco anos, ia vender comida e bebida com o meu pai. Lembro-me de ir para as feiras nas Beiras vender laranjadas, pirolitos, águas, cerveja… Ia para Vale Maceira, Oliveira do Hospital, Midões, ia a Tábua com o meu irmão mais velho, o Manel, Monte Alto, Arganil. Olhe, e tive uma coisa que acho que mais ninguém tem: fui multado em 25 tostões por andar a pé! Sempre fui reguila, gosto de dizer às pessoas o que acho, mas tendo licença de venda ambulante não percebi o porquê daquela multa do GNR, em 1962 ou 1963. E quando fui presidente do Tourizense também tive umas coisas, por causa do Tabuense que tinha à frente um comandante, mas nunca cedi e o meu clube teve um grande projeto desportivo nessa altura, era bem melhor”, conta.

Uma semana antes do dia em que foi atacado na estação de serviço de Leiria em 2008, o empresário tinha passado por Fátima

Começou por baixo mas tornou-se um empresário de sucesso. Além de andar nas feiras da região e no campo com os irmãos a ajudar o pai, já estava também numa serralharia, além de vender seguros. Mais tarde, antes dos 18, tem o seu primeiro negócio, também uma serralharia. Abriu depois uma empresa com um dos irmãos enquanto ia fazendo trabalhos em Lisboa, ligados à construção civil. Foi no início dos anos 80 que decidiu aumentar as áreas de intervenção, saltando para a metalomecânica, para as inspeções de automóveis, para o turismo e hotelaria, para a saúde e para o setor agrícola, a sua grande preferência (vinho e azeite à parte, fala também de outras coisas tão variadas como framboesas ou mirtilos). Tudo com a quarta classe e alguns contratempos, nomeadamente numa altura em que lhe desviaram fundos no Brasil (hoje tem também negócios nesse país, na Argentina, na Bulgária e em África). Ao todo, emprega mais de 700 funcionários nas várias empresas e já chegou a fazer essa comparação com o Sporting, que terá cerca de 900.

“Segredo? Temos de ser humildes, saber ouvir os outros para decidir melhor. Mais uma vez, respeitar para sermos respeitados. É como costumo dizer: o lucro só vem depois de a obra estar concluída e o que hoje pode ser um bom negócio amanhã pode não ser. Já fiz obras em que não ganhei nada porque quando adjudiquei havia uma realidade e depois a mão de obra ou os materiais tiveram uma inflação de preço, é assim. Quase todo o dinheiro que fui ganhando foi sempre para reinvestir, muitas vezes noutras áreas. Antigamente bastava às vezes um aperto de mão e valia mais do que um contrato. Acabei por sofrer alguns contratempos por causa disso, porque as pessoas vão mudando e isto não são apenas flores, também há espinhos, mas fui conseguindo dar a volta. É isso que espero fazer no Sporting, até com os processos todos que estão em causa no futuro. Posso assegurar que se há alguém que vai saber defender sempre o clube sou eu”.

A certa altura da viagem para Fátima, Quim Barreiros liga a Tavares Pereira. “Eu sei que ele não é do Sporting, é público, mas já me disse uma coisa: ‘Senhor Fernando, se fosse sócio não era só eu que votava em si, era a minha família toda. E quando apanho sportinguistas falo sempre de si'”.

De repente, toca o telefone. E o visor está mesmo no horizonte dos nossos olhos. “Quim Barreiros”, é o que surge escrito. Esse mesmo, “o” Quim Barreiros. “Oh, meu amigo Quim Barreiros, como é que está? Eu cá ando como você, a percorrer o país de lés a lés por causa do meu Sporting. Não diga isso, você é que é um homem cheio de vitalidade… Olhe, com mais homens como nós o nosso País era diferente de certeza”, atira. O assunto da chamada era outro, mas Tavares Pereira tinha mais qualquer coisa para acrescentar. “Eu sei que ele não é do Sporting, é público, mas já me disse uma coisa: ‘Senhor Fernando, se fosse sócio não era só eu que votava em si, era a minha família toda. E quando apanho sportinguistas falo sempre de si’”, diz.

Já estamos a chegar a Fátima. Quando contou os problemas que teve na estação de serviço de Leiria depois daquela final da Taça de Portugal de 2008, já recordara que tinha estado no Santuário uma semana antes, mas há outra história que não esquece e que fez com que não fosse a Alvalade durante cerca de dez anos. “Tinha ido ver um jogo com uma equipa espanhola ali a meio da década de 80… Acho que foi o Barcelona, naquele jogo do Roberto… Bem, era uma equipa espanhola. Era normal na estrada nacional ver as duas faixas entre Rio Maior e Coimbra estarem todas cheias de pessoal do Sporting, até porque parava tudo ali para comer uma bifana a caminho de casa. Houve um acidente enorme, ainda morreram pessoas, como o senhor da Bolsa de Valores do Porto, e eu estava só uns 100 metros atrás. Fiquei anos sem ir”.

Fernando Tavares Pereira acendeu algumas velas no Santuário de Fátima, pela família, pelos funcionários e pelos amigos

No Santuário, já depois de outra entrevista, cruza-se com um pároco que tinha visto apenas uma vez e que não se tinha esquecido dele. E aquele momento acaba por marcá-lo porque a seguir ao almoço — de filetes com arroz, salada e água — ainda pensava nisso. “Mas como é que ele se lembrava ainda…”, vai dizendo. No restaurante cruza-se também com outro adepto do Sporting, neste caso de Guimarães, que conheceram na primeira jornada do Campeonato, em Moreira de Cónegos. “Como vê, isso do não ser conhecido…”. Antes, comprara e acendera algumas velas. Pela mulher, com quem está casado há 40 anos, pelos filhos, pela família, pelos empregados, pelas empresas.

16h-21h

Um mundo de conhecimentos, os incêndios de outubro e os próximos objetivos

Antes de voltar a Lisboa, onde tem uma entrevista marcada na Sporting TV às 17 horas (para gravar e passar no dia seguinte), há ainda tempo para fazer uma paragem perto do Santuário para fazer um vídeo. Como está de cachecol ao pescoço, “um cachecol de linho feito à mão por umas senhoras da terra e que tem as iniciais do nome e tudo”, ainda houve um adepto gritar pelo Benfica.Deixa também algumas moedas a um senhor que pediu e que se despede de Fernando Tavares Pereira agradecendo e dizendo que o Sporting precisa de levantar-se. É nessa altura que começamos a falar de ciclismo, uma das grandes paixões que tem há quase 40 anos.

“Desde os tempos do João Roque, sempre segui ciclismo e apoio equipas há décadas, desde a Trinaranjus. Ainda hoje também tento ajudar o Sporting Tavira. Sabe, andam sempre com essas coisas de que não sou conhecido e que não conheço ninguém mas isso é tudo conversa. Só no futebol, ainda no outro dia o José Mota me mandou mensagem, sou também amigo do Paulo Fonseca, que está lá na Ucrânia agora, gosto muito do Costinha, que anda no Nacional, já troquei ideias com o Rui Vitória quando estava como treinador do Fátima, conheço o Mourinho… E sou uma pessoa respeitada por todos”.

Na Sporting TV, antes da entrevista individual. Levou apenas para a mesa o seu programa eleitoral

A bola gira depois para as empresas e para os 70 concelhos onde tem negócios. Pelas raízes de quem o acompanha, a conversa vai até Portimão. “Tenho lá 40 milhões de euros em investimentos, é uma espécie de segunda terra. Quando lá vou recebo sempre muitos elogios pelo trabalho que vou fazendo. Vamos agora ter uma casa que para mim vai ser a melhor casa de fados a nível de decoração interior, ali na zona da praia da Rocha”, explica. Do Algarve rumamos à sua terra natal, fustigada pelos incêndios de outubro do ano passado. Tavares Pereira recorda uma reportagem do Observador enquanto liga também ao “amigo Manel, um autarca como nunca conheci que está em São Martinho da Cortiça”. Nas últimas autárquicas, acabou por substituir o irmão, José, que se candidatava pelo PSD, e avançou como independente. “Diziam que era 7-0, afinal perdemos 4-3 e com muita coisa estranha nas votações”, recorda. Mas é nos incêndios que aponta o foco.

“Arderam-me 18 casas, numa delas até tinha um quadro muito bom do Picasso ou do Van Gogh que tinha ficado no recheio de quando comprei tudo isso a um senhor. Não sei bem de quem era mas era um quadro muito valioso. E foram milhares de oliveiras, milhares de hectares… Até na minha casa, estive eu e a minha mulher a tentar durante muito tempo, sem ajuda, combater o fogo, ainda sofri umas queimaduras nas pernas e na cabeça. No meio disto, recebi cinco mil euros de compensação. Não é justo, está tudo mal, mas não é por isso que luto – as pessoas parece que esqueceram o drama que se passou ali, há pessoas que continuam a ter dificuldades até para comer. Acredito que quanto mais damos, mais iremos receber um dia. Criei uma associação, a MAAVIM (Movimento Associativo de Apoio às Vítimas do Incêndio em Midões) e temos feito de tudo para ajudar essas pessoas que perderam tudo”, vai comentando enquanto procura na página do Facebook do movimento vídeos de intervenções e nas imagens do telemóvel o estado em que ficaram algumas casas da região.

“Da minha parte arderam-me 18 casas, numa delas até tinha um quadro muito bom do Picasso ou do Van Gogh que tinha ficado no recheio de quando comprei tudo isso a um senhor. Não sei bem quem era mas era um quadro muito valioso. E foram milhares de oliveiras, milhares de hectares… Até na minha casa, estive eu e a minha mulher a tentar durante muito tempo sem ajuda combater o fogo, ainda sofri umas queimaduras nas pernas e na cabeça”, recordou sobre os incêndios de outubro.

A chegada aos estúdios da Sporting TV sofre um ligeiro atraso mas, após passar pela zona de caracterização, segue para uma entrevista que dura cerca de uma hora. É lá que tenta fazer chegar a mensagem, sem preocupações de ganhar ou perder votos. “Aquilo que eu digo é o que acho, a verdade. Por exemplo, sei que não é uma coisa que dê votos dizer que vou ter de mexer em muita coisa na Academia, mas se calhar em alguns casos são pessoas de valor mas que não estão no lugar certo. Aquilo que para mim interessa é arrumar a casa, é o mais importante agora e para o futuro do Sporting”, destaca naquela que é uma das ideias principais de um programa onde a palavra estabilidade é a que mais se repete (estabilidade financeira, estabilidade na ligação com a SAD, estabilidade nas relações laborais, estabilidade jurídica, estabilidade estatutária).

O empresário foi e veio a Fátima, passou por Carnaxide mas acabou cedo o dia: tinha de estar às 5h no aeroporto para ir aos Açores

Há mais ideias e prioridades no plano de Tavares Pereira para o Sporting. Medidas concretas para os núcleos que foi percorrendo nas últimas semanas, para o museu do clube, para os próprios valores verde e brancos que se foram perdendo. “Sabe, se tivesse mais uma semana e se passasse mais três dias em Lisboa acho mesmo que poderia ganhar. E com voto eletrónico, então, era de caras”, assegura enquanto vai repetindo uma frase que deixou na Sporting TV: “É a candidatura da humildade contra a vaidade”. Qualquer que seja o resultado final, existe a convicção na candidatura do empresário de Tábua que, com a devida distância temporal, esta primeira lista de sempre às eleições do Sporting que não nasce em Lisboa pode ajudar a mudar o paradigma. Essa já seria uma vitória, mas Tavares Pereira quer mais. E é por isso que, depois de um jantar entre pessoas candidatas aos órgãos sociais, vai descansar para depois seguir para os Açores.

In : https://observador.pt/especiais/um-dia-com-tavares-pereira-das-laranjadas-na-feira-ao-sucesso-empresarial-o-retrato-de-um-self-made-man/