Carlos Lucas : “O Dão vive muito virado para dentro”

Carlos Lucas, um dos Senhores Dão, fala-nos abertamente sobre a região, colheita de 2018 e Feira do Vinho. O enólogo e produtor considera que o Dão tem que se tornar uma região “fashion”

É a segunda entrevista de fundo que fazemos a um dos enólogos e produtores que mais prestigia o Dão em Portugal e além fronteiras.

Podemos encontrar o seu Ribeiro Santo por exemplo nos aviões da TAP e nas lojas dos aeroportos Portugueses, por onde passam anualmente mais de 20 milhões de turistas estrangeiros (além dos nacionais).É alguém que deve ser ouvido. Conhece o Dão como a palma da mão e tem uma visão estratégica para a região. “As pessoas não gostam de dizer as verdades, é mais cómodo dizer que está tudo bem!”, começa por nos dizer, enquanto abre um dos seus vinhos Premium:  Envelope Branco Encruzado de 2015. A abertura do envelope, também fez abrir uma caixa de pandora sobre a mais antiga região demarcada de vinhos não licorosos, em todo o mundo: “o Dão está virado apenas para o seu umbigo e há um longo caminho a percorrer para a região se afirmar como uma região ´fashion´”. E se alguém tem feito para que a região do Dão se torne numa região da moda é Carlos Lucas. Operações de charme com as marcas que gere (Ribeiro Santo e Quinta da Alameda) têm sido permanentes – em Portugal e no estrangeiro, onde tem, por exemplo, os seus vinhos nos restaurantes de um dos mais conceituados Chef´s do mundo (Gordon Ramsay). A qualidade exemplar dos néctares que vinifica e comercializa é cada vez mais reconhecida pelo mercado e pelos mais reputados críticos, como Robert Parker que acaba de selecionar o Ribeiro Santo para a sua prova de vinhos Portugueses – “e do Dão contam-se por menos de metade dos dedos de uma mão os eleitos”, conta-nos.

Voltando à região, reafirma que “o Dão vive muito virado para dentro e tem revelado pouca ambição”. “Até regiões mais pequenas, como o Tejo e a Bairrada, têm maior visibilidade”, lamenta, apontando “a falta de união entre produtores e instituições do setor”, como uma das causas para este diagnóstico. “As entidades públicas, como por exemplo as Câmaras Municipais, que gerem os nossos dinheiros, têm um papel central na promoção dos vinhos da região e no fomento dessa união entre produtores”. afirma. A elevação da qualidade dos vinhos, na sua opinião, não tem sido assim acompanhada “por uma maior notoriedade no mercado”.

Instado a falar sobre o grande certame de promoção dos vinhos do Dão – Feira do Vinho de Nelas – é, uma vez mais, muito crítico: “marco presença todos os anos, mas não faço lá qualquer contacto de relevo – esta feira não tem impacto nacional e internacional”. “Vejo-a mais como uma feira política do que uma feira virada para profissionais”, atira. Sobre o Enoturismo na região demarcada do Dão, continua a não ver resultados da Rota dos Vinhos do Dão, realçando o esforço que, uma vez mais, individualmente, os produtores vão fazendo. “Nós temos trazido ao Dão muitos clientes, críticos e jornalistas, e nestes meses de agosto e setembro, estamos abertos aos sábados, para visitas, provas e algumas surpresas”, explica.

Resta acrescentar que Carlos Lucas e a sua equipa, além dos referidos rótulos Ribeiro Santo e Alameda de Santar, na região do Dão têm também a seu cargo a enologia da Quinta do Sobral.

Colheita de 2018 será “muito difícil e desafiante para viticultores e enólogos”

Carlos Lucas é categórico a caraterizar a evolução da colheita 2018: “estamos na presença de um dos piores anos no Dão das últimas décadas, e representa um grande desafio para enólogos e todos os que trabalham na vinha”. “Esta colheita exige muito profissionalismo, para se tentar manter o patamar de qualidade dos últimos anos”, afiança, explicando que “as vinhas foram atacadas por diversas doenças, principalmente devido às condições meteorológicas atípicas, como oídio, míldio e black rot”.

“Teremos grandes quebras na produção e em termos de qualidade também será um ano complicado”, conclui.

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