Rui Daniel Silva no Uganda : “Acendi um cigarro e tive ordem de prisão”

O pessoal do Uganda é bastante simpático mas hoje ao passar a fronteira tive problemas com dois agentes da autoridade. Não sabia que neste país é proibido fumar em público e mal passei a fronteira acendi um cigarro. Imediatamente um militar com cara de poucos amigos começou a refilar comigo. Disse que era crime o que estava a fazer e que poderia ir para a prisão durante 2 anos. Pedi desculpa e expliquei que desconhecia por completo esta lei. Tentei ser o mais simpático possível mas não foi nada fácil.
De nada me adiantou dizer que era da terra do CR7 ou até mesmo que conhecia o treinador campeão do Uganda que é português. ( É tudo verdade o que estou a dizer menos a parte de conhecer pessoalmente o treinador.) Um deles até era simpático mas o outro não estava lá nada contente. Estava a cometer um crime e teria que ir para a prisão. Tentei de tudo mas de nada me valeu. Os fulanos eram lixados. Percebi que eles estavam a tentar intimidar-me e que eu desse certamente algum dinheiro. Certamente que não iria para a prisão por ter acendido apenas um cigarro. Por isso até estava na boa. Era apenas uma questão de tempo até eles se fartarem de mim. Tentei sempre ter alguma calma e levar tudo na boa. Quando percebi que eles não estavam dispostos a perdoar-me, disse que iria então buscar a minha mochila ao autocarro e para me levarem então para a prisão. Mal disse isso, um deles proferiu que não havia essa necessidade se eu pagasse uma multa de 60 dólares. Respondi que não tinha dinheiro e mesmo que tivesse que não iria pagar um único tostão. Odeio corrupção. Nunca paguei um único tostão a agentes corruptos ao longo de 10 meses, não iria ser hoje certamente a primeira vez. Novamente a mesma história de eu estar a cometer um crime grave e ter que ir para a prisão. Todo este filme durante uma meia hora. Novamente proferi que iria buscar a minha mochila e ficar então ali. Como perceberam que eu estava na boa e não me importava nada de ficar ali, perguntaram então o que eu tinha para oferecer…e eu respondi que tinha balões. Um deles riu às gargalhadas mas o outro estava com cara que era capaz de me esganar. O fulano fulo, perguntou se eu estava a gozar. Eu abri a mochila pequena que tinha e mostrei os balões que tinha. E pergunta-me um deles: Mas tu achas mesmo que nós queremos balões? Eu: É a única coisa que tenho para oferecer. São balões. Um deles só se ria mas o outro olhava para mim com cara de poucos amigos. Fazia gestos bruscos com a arma que tinha e eu cruzei os braços e nem olhei mais para ele. Deixei-me estar ali sentado e feito cromo ainda perguntei se havia pelo menos algum sítio onde poderia fumar um cigarro enquanto esperava. Pouco tempo depois o condutor do autocarro que já andava à minha procura apareceu e disse que tínhamos de seguir viagem até Kampala, a capital do Uganda. Levantei-me lentamente e desapareci sorrateiramente sem eles me dizerem mais nada. Enfim, estes militares também são uns pobres e mal agradecidos. Podiam ter ficado com uns balões mas não.
Após falar com alguns amigos viajantes e mochileiros com que me cruzei pelo caminho, achei que dificilmente me iriam dar o visto do Burundi. Impossível não era mas teria de esperar cerca de 15 dias ou até mais tempo. Perguntava à malta que já tinha tentado e a resposta era sempre que na Tanzânia e no Quénia demorava cerca de duas semanas, por isso nem me desloquei às embaixadas. Chego ao Uganda e decidi ir à embaixada do Burundi tentar a minha sorte. A primeira resposta que me deram foi os tais 15 dias de espera e preencher uma carrada de papéis com reservas de Hotel, avião, etc…e mais umas quantas perguntas do porquê de querer ir ao Burundi. Sinceramente não me apetecia nada ficar na capital do Uganda durante duas semanas só para esperar por um visto. Tentei dar alguma graxa e como tinha lido algumas coisas sobre o Burundi antes de me deslocar à embaixada, falava pelos cotovelos como se conhecesse realmente o país. O fulano estava meio espantado comigo e eu já só pedia um visto de trânsito se fosse possível. Mandaram-me esperar pois iriam falar com o embaixador. Pouco tempo depois chega o tipo e a resposta foi: Vamos te dar um visto de trânsito. Fiquei contente mas esperar aqueles dias todos não me agradava nada. Lá tive que namorar o raio do fulano com mais histórias e dizendo que não tinha esse tempo de espera pois tinha dois filhos em Portugal e que o meu sonho era mesmo visitar o Burundi. Pronto… funcionou melhor do que eu estava à espera. Deram-me o visto no mesmo dia. Ainda por cima um visto normal de 30 dias. Queria agradecer aos meus filhos que não existem mas que me ajudaram a obter o visto no mesmo dia.

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