Envelhecimento: Que fazer aos nossos velhos?

Decerto é uma pergunta que muitos de nós faremos em algumas circunstâncias, principalmente quem ainda os tem na família ou simplesmente se revê em causas Sociais.

Continuando a assistir a uma escassa oferta de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), que não acompanha as necessidades dos nossos Idosos, as listas de espera são grandes e não são para todos os bolsos. Algumas famílias deparam-se com a difícil decisão de ter que optar pela solução Institucional para o seu familiar, porque existem situações como a solidão, a precariedade de condições económicas e habitacionais mas, julgo que mais importante é a dependência física em que o idoso pode de facto ficar melhor numa Instituição do que em casa.

A ida para um lar é sempre uma alteração profunda na rotina do idoso e na vida familiar. A vida muda e a perspectiva é quase sempre definitiva e não temporária. Têm proliferado Centros de Dia, onde este processo é muito mais gradual, e sendo alternativas muito válidas mas que mesmo assim confere ao Idoso muitas mudanças e reações diversificadas, mas falaremos deste processo numa outra ocasião.

Relativamente à Institucionalização ela vai influenciar na limitação das capacidades funcionais, na autonomia e sempre nas questões afectivas e emocionais do Utente. Estas mudanças podem não ser muito positivas principalmente se o novo “Lar” não tiver como prioridade, criar um ambiente de estímulos cognitivos, físicos e sociais.

A expectativa de um “bom Lar” por parte da família tem que abranger muito mais que as boas condições, tem obrigatoriamente que ter uma boa equipa multidisciplinar que assegure ao idoso o bem estar, o preenchimento dos tempos livres com animação sociocultural, a estabilidade e competência do pessoal, uma boa alimentação e a devida segurança, porque só assim a mudança e a adaptação poderá ser encarada de forma mais positiva por parte do Idoso e dos familiares.

Reencontrei há poucos dias um amigo dos meus pais, que certamente andará perto dos noventa anos a quem me acostumei a ver sempre junto da esposa a darem a sua voltinha diária pelo jardim. Quando lhe perguntei por ela foi-me segredando com visível tristeza que lhe tinha sido diagnosticado a Doença de Alzheimer, e que após vários episódios menos bons ele e a filha tiveram que tomar a difícil decisão de a Institucionalizar num Lar. Começou então a descrever queixas quando perguntei como estava a ser a adaptação de um e de outro face à nova realidade.

Visivelmente emocionado fez-me uma lista quase infindável: desde logo a distancia, porque não tendo conseguido vaga perto da zona de residência não podia fazer o acompanhamento à sua esposa como gostaria; o avançar da idade e o estado de saúde já bastante debilitado era também a causa de só poder visita-la quando a filha tem essa disponibilidade; o valor que pagava no início de cada mês era também uma das suas grandes preocupações.

– “Sabe menina, a minha reforma e algumas das nossas poupanças ainda vão dando para pagar a gorda fatura que inclui a mensalidade, fraldas, medicação, fisioterapia e mais algumas coisitas, mas eu penso todos os dias que se eu não morrer brevemente e necessitar de mais apoio do que o que a minha filha me pode dar, não teremos dinheiro e aí, o que será de nós?!”

As preocupações com estas questões têm que ir muito além das famílias, têm que abranger toda a Sociedade, porque se o processo de Envelhecimento é uma grande conquista para a Humanidade, também a forma como conseguimos ultrapassar estes novos desafios em termos sociais e económicos é um desafio ainda maior a que ninguém pode ficar alheio.

Por tudo isto a pergunta é pertinente:

Que fazer aos nossos velhos?

“A maioria dos Homens, chegados a uma certa idade, teme e odeiam a velhice. É por isso que envelhecem mal e morrem antes do tempo” – Giovanni Papini

Termino esta crónica, arriscando a acrescentar a esta frase do Escritor italiano que a maioria dos homens teme a velhice também porque ela cada dia mais parece uma luz escura principalmente para quem é apenas remediado do ponto de vista financeiro!

Até breve

Ana Gomes

anagomesteresa@gmail.com

(Licenciada em Animação Sociocultural

Pós Graduada em Gestão de Organizações de Economia Social

Pós Graduada em Intervenção Psicossocial)

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