De novo as vinhas do Dão. Artigo de Virgílio Loureiro

Andei, de novo, pelas vinhas de Penalva para tentar perceber melhor os efeitos de um ano climático atípico e dos ataques continuados dos fungos, principalmente o míldio e a podridão, encantados com o calor e a humidade. Fui, com o meu amigo e colega António Pina, visitar duas das freguesias mais prestigiadas da região – Sezures e Campina – de onde provêm alguns dos melhores vinhos de Penalva. Para nos reconfortarmos do trauma vivido na visita anterior começámos por vistoriar as vinhas de um conceituado produtor, que zela cuidadosamente pela saúde das suas inúmeras cepas e onde, por isso, esperávamos ver videiras sãs e cheias de cachos. As expectativas não foram goradas e deu gosto ver as principais castas do Dão carregadinhas e sem ponta de efeitos dos fungos, testemunhando que hoje em dia o sucesso ou insucesso das colheitas já não é uma questão de sorte ou de mau-olhado.

Quando começámos a ver, com atenção, o comportamento das diferentes castas percebemos que a Tinta Roriz, o Jaen e a Tinta Pinheira tinham os cachos muito bem formados e produções gratificantes, não obstante haver alguma heterogeneidade nos cachos, por vezes com a presença de “netas”, e bastante atraso no seu desenvolvimento. Porém, a Touriga Nacional não estava como as outras. Os cachos não eram tão bonitos e tinham poucos bagos, mostrando o efeito devastador da chuva e do frio na altura da floração, que conduziu a muito desavinho. O meu colega, depois de ver os cachos de Touriga, exclamou: “Este ano não é ano de Touriga. Vai ser pouca e fraca!”. Nem os que zelam atentamente pelas vinhas se salvam, pois o desavinho toca a todos, os profissionais, os amadores e os desleixados. Até à vindima ainda podem acontecer muitas tragédias na vinha, mas se tudo correr normalmente o dono das vinhas que acabávamos de visitar irá ter uma belíssima produção, quiçá maior do que a do ano passado.

Saímos da Campina com o optimismo estampado no rosto e dirigimo-nos para Sezures, onde queríamos ver uma vinha que tem uma casta rara na região, mas que no ano passado deu um vinho de qualidade excepcional. Infelizmente não foi possível encontrar o produtor e só pudemos ver a vinha de longe, não podendo avaliar se os fungos fizeram das deles. Em alternativa fomos ver algumas vinhas vizinhas que dão, em média, cerca de dez toneladas em anos normais e contribuem com uma qualidade excelente para os vinhos da cooperativa onde são vinificadas. Íamos apreensivos, pois os seus proprietários não são tão profissionais como o anterior. Logo que chegámos à primeira vinha partiu-se-nos o coração. A Tinta Roriz parecia atacada pelo fogo e quando vimos os cachos confirmámos o desastre: estava quase tudo perdido. O míldio tinha andado por ali à solta e não poupou a maioria dos cachos. Os poucos que tinham escapado estavam heterogéneos, ralos e, pior do que isso, com os primeiros indícios de oídio, que este ano tem dado a primazia ao míldio. Eram péssimas notícias, pois enquanto o míldio “mata” os cachos, seca os bagos e não permite que cheguem uvas à adega, o oídio afecta os bagos, deixa-os com manchas ou fissuras, mas os cachos desenvolvem-se, ainda que deficientemente, levando a que muitos produtores vindimem as uvas. Esse é que é o terror dos enólogos, pois é sabido que os cachos afectados pelo oídio dão origem a vinhos amargos, com mau aroma e sem qualidade. Porém, o mais grave é que se estas uvas forem misturadas com uvas boas bastará dez por cento delas para estragar o vinho todo, que fica também amargo e sem qualidade. Se tivermos em conta que muitos dos produtores que entregam uvas nas cooperativas apanham todos os cachos para o mesmo cesto – pois dizem que “todos pesam” – perceber-se-á o terror que os enólogos têm das uvas afectadas pelo oídio. Claro está que na maioria das quintas este problema não se coloca, pois durante a vindima tem-se o cuidado de separar os cachos com oídio.

A visita a Sezures tinha sido traumatizante, antecipando-nos os problemas que iremos ter na vindima. Porém, havia outra preocupação latente. Com efeito, confirmámos a ideia generalizada da gente do vinho, que diz haver um atraso fenológico da ordem das duas a três semanas. Por outras palavras, é provável que a vindima não comece antes do dia 15 de Setembro, com todas as consequências que daí advêm. No Dão é quase certo que quando a vindima é tardia será “molhada”, pois as chuvas do Equinócio gostam de se anunciar por essa altura. Se estas expectativas se confirmarem será uma vindima de emoções fortes para toda a gente do vinho, com os produtores, principalmente os mais pequenos, a carpirem mágoas e a tentarem apanhar as uvas antes delas apodrecerem, e os enólogos a deitarem as mãos à cabeça quando começarem a ver as uvas podres a chegar à adega. Para a maioria dos consumidores esta realidade passa-lhes ao lado, pois como o vinho duma colheita “molhada” só chega às suas mesas ao fim de um ou dois anos, se o vinho não for tão bom como o anterior a culpa é dos enólogos! Estes passam, por isso, de “bestiais a bestas” num abrir e fechar de olhos! Esta realidade é particularmente evidente nas grandes adegas cooperativas, onde a vindima demora três semanas a um mês e meio, e a pressão dos associados obriga a tomar decisões baseadas na emoção em vez de baseadas na razão. Como o apodrecimento das uvas é rápido, a principal preocupação é que a adega receba diariamente o máximo de uvas possível. E como a capacidade fermentativa não é elástica começa-se a pressionar os enólogos para descarregarem as cubas em fermentação mais depressa do que o desejável. E os vinhos tintos, em vez de terem uma curtimenta de, pelo menos, uma semana têm, se os enólogos pactuarem com a situação, dois ou três dias. Os vinhos ficam, por isso, palhetes em vez de tintos e quando já ninguém se lembrar que a vindima foi “molhada” as culpas são-lhes sempre atribuídas. Este é apenas um dos inúmeros problemas de uma vindima “molhada”. Oxalá não aconteça em 2018!

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