Touriga Nacional mais barata que a imperial. Texto de Virgílio Loureiro

Rima e é verdade!

Na semana passada andei pelo Dão e fui almoçar a um pequeno restaurante de uma das vilas mais vinhateiras da região. Era um restaurante novo, confortável, com um patrão simpático e solícito, cheio de clientes, onde predominava a juventude. Sobressaía uma imponente estante, cheia de garrafas perfiladas nas muitas prateleiras, onde os vinhos do Dão imperavam. Também havia uns “alentejos”, “douros” e “verdes”, certamente para algum cliente mais impressionado pelas notas dos gurus, mas o Dão dominava largamente. Eu fiquei com a auto-estima em alta e quase a dizer: “Santos da casa fazem milagres”!

Escusado será dizer que eu e o meu companheiro de repasto, também ele técnico de vinhos, íamos beber vinho do Dão ao almoço. E, se possível, um que não conhecêssemos. Pedimos a carta de vinhos para ver os preços, pois não gostamos de ter dissabores quando temos de pagar a conta. E, infelizmente, em muitos restaurantes corremos o risco de ficar escaldados (e sem um serviço adequado de vinhos) se não nos precavemos. Não era o caso, pois como conhecíamos grande parte dos vinhos, logo percebemos que a margem de lucro do patrão rondava os cem por cento. O que é aceitável, mesmo que o serviço se limite a tirar a rolha e a colocar a garrafa em cima da mesa.

Fomos os dois ver a estante dos vinhos e logo nos chamou a atenção uma garrafa borgonha, com um belíssimo rótulo branco com letras vermelhas e uma cápsula vistosa e impecavelmente colocada. Como estava mesmo ao lado dos vinhos do Dão pensámos que era Dão e quando olhámos para o preço achámos que a escolha seria fácil. Porém, como já andamos cá há muito tempo, ainda perguntámos ao patrão se recomendava o vinho. Disse logo que sim, pois era o que saía mais! Se tínhamos dúvidas deixámos logo de as ter.

Quando a garrafa foi aberta e colocada em cima da mesa tive curiosidade em ver o rótulo e logo percebi que, apesar de ser um “Touriga Nacional”, de 2015, era um vinho de mesa! Não tinha selo de certificação, não tinha Dão escrito no rótulo e tinha, em letras minúsculas IVV 14–. Chamei o patrão e disse-lhe que não era um vinho do Dão e ele disse-me, com convicção, que era. Até me indicou o nome da freguesia onde o vinho tinha sido engarrafado – uma das mais afamadas da região onde estávamos a almoçar – para provar que o vinho era do Dão. Não disse nada, pois já sei que em situações destas é chover no molhado.

Quando deitámos o vinho nos copos surgiu, de pronto, a magnífica cor de um tinto de Touriga Nacional, quando o ano de colheita é bom, como foi 2015. Não estávamos, por isso, a ser “enganados”. E quando o provámos arregalámos os olhos, pois era mesmo bom, pese o facto de ter álcool a mais para o meu gosto – se calhar o defeito é meu – e ser, por isso, feitio e não defeito. Tenho quase a certeza que se o produtor enviasse o vinho a concurso – nacional ou internacional – arrebataria uma (grande) medalha de ouro! E se fosse à Câmara de Provadores do IVDP talvez saísse premiado com o epíteto de Grande Reserva! O prato do dia que veio para a mesa não foi feliz e se não fosse o “vinho de mesa” Touriga Nacional o repasto seria um fiasco. Bebemos a garrafa quase toda, gostámos e o vinho foi tema de conversa durante a refeição quase toda. Mas seria caso para estarmos felizes ou tristes? Teríamos sido espertos ou teríamos sido enganados? Será que numa próxima oportunidade pediremos, sem hesitar, o mesmo vinho?

O preço do vinho dá resposta a todas as perguntas, embora eu e o meu companheiro, que somos profissionais do sector e sabemos os custos envolvidos na produção e as margens de lucro do comércio, tenhamos respostas diferentes das de quem só quer beber “bom e barato”. O vinho estava marcado na carta do restaurante por 5 €! Como a margem da casa é de 100 % (no mínimo), o produtor tem de o vender no máximo a 2,5 €. Se tiver distribuidor (que duvido) já estará a menos de 2 €. E se for o produtor a distribuí-lo e a fazer a cobrança pouco mais deve ganhar (se for o caso)! Como uma garrafa dá para 5 copos (bem medidos) fica a 80 cêntimos por copo, que é menos que uma imperial! Por isso, o patrão dizia, com os olhos a brilhar de orgulho: “É o vinho que mais sai. E toda a gente gosta. Ninguém quer outro!” Estava tudo dito. Numa das mais prestigiadas subregiões do Dão há um vinho de mesa, que o patrão do restaurante jura a pés juntos que é Dão, que arrasa a venda do autêntico vinho do Dão! E o mais curioso é que não há nenhum produtor que se sinta lesado e denuncie a situação.

Tive o cuidado de analisar o rótulo com atenção e verifiquei que está completamente ilegal. Não indica que o conteúdo da garrafa é vinho, não indica que é tinto, não refere o n.º de lote e não indica o produtor. Não consegui confirmar se a alusão à casta e ao ano de colheita estão dentro da lei, pois a nova legislação – a pretexto de dar mais informação ao consumidor – privilegia os prevaricadores e os concorrentes desleais. Com efeito, a lei permite que os vinhos de mesa possam fazer menção à casta e ao ano de colheita, mas para isso o produtor tem de ter uma conta-corrente do vinho no IVV, que permita o seu controlo e veracidade. E isso não pude confirmar, pois não há nenhuma menção no rótulo que o ateste.

Senti-me enganado e o meu colega também! Senti-me indignado e o meu colega também! Como é que nós podemos puxar o Dão para cima se há tanta gente a puxá-lo para baixo? Admito que o produtor será o menos responsável de todos. Provavelmente nem terá noção do que está a fazer. Mas todos os produtores de vinho do Dão se deveriam sentir enganados e serem os primeiros a denunciar a situação…já que a tutela apenas se preocupa em cobrar as taxas.

Se eu tivesse visto que o “Touriga Nacional” não era Dão, certamente que não deixaria abrir a garrafa, mas não torno a cair noutra. Sempre que for a um restaurante na região do Dão e vir um vinho desconhecido que pretendo provar, só deixarei abrir a garrafa depois de saber que tem o selo de garantia da CVR, mesmo que o vinho seja fantástico e mais barato que a imperial.

NOTA FINAL: não denuncio o produtor e o vinho, porque mais uma vez iria ter o odioso em cima – o tal “Mau Feitio” com que sempre me mimoseiam – numa situação em que os verdadeiros prejudicados não dizem nem fazem nada.

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