“Lapa do Lobo Aldeia Cultural visa dar a entender que com recursos parcos de uma aldeia também se pode viver muita cultura”

Um dos responsáveis pela ‘Lapa do Lobo: Aldeia Cultural’ disse hoje à agência Lusa que durante três dias a povoação abre portas para uma mostra do que se faz durante o ano e revela histórias num documentário.

“Tentámos organizar o maior número de ofertas, porque é de todo impossível congregar em três dias o que acontece ao longo do ano. O que tentámos foi que estes três dias correspondessem à manifestação cultural das entidades, associações e grupos que têm alguma ligação com as instituições que organizam, neste caso a Fundação Lapa do Lobo e Contracanto”, sintetizou Rui Fonte.

De sexta-feira a domingo, a aldeia recebe cinema, música, exposições, teatro, poesia, oficinas, instalações ou debates sobre a natureza e a sua proteção.

“São conversas sobre os espaços verdes das aldeias. Acho que agora todos nos devíamos preocupar com isso, depois dos incêndios. Isto tem de despertar em nós uma consciência diferente de proteção e rentabilização e também uma conversa sobre cultura interior, numa filosofia de que se as pessoas têm beleza interior, as aldeias têm uma cultura interior e se é ou não valorizada”, especificou.

O objetivo é o de que as conversas não se fiquem por isso mesmo, conversas “que não sejam efémeras” e que “resultem em algum registo manuscrito ou audiovisual que permita que isto seja um ponto de partida para novas reflexões”.

“Aliás, a Lapa do Lobo Aldeia Cultural também tem esse desafio, que é dar a entender que com recursos parcos de uma aldeia também se pode viver muita cultura”.

Uma aldeia que abre as portas de sua casa para receber as oficinas, exposições ou mesmo instalações, adiantou Rui Fonte, como é o caso do ‘Estendal’, “uma instalação que vai resultar de uma oficina de cianotípia — que é o primeiro evento fotográfico que há, é uma forma de fazer fotografia antiga – e as pessoas vão emprestar os seus estendais para serem os expositores desse trabalho”.

Os habitantes também “ofereceram objetos das suas vivências para uma exposição na Associação Desportiva e Cultural Lapense” (ADCL), que também acolhe uma “toalha poética que foi bordada por um grupo da Lapa do Lobo, com poemas e desenhos das bordadeiras”.

“Vamos projetar um documentário – na rua Vila Fonseca, onde há 70 anos um emigrante na América projetava filmes num lençol branco, quando vinha de férias, – realizado por Tiago Pereira, ‘Povo que Conta’, o realizador de ‘A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria’ que resulta de um levantamento de testemunhos de histórias da Lapa do Lobo antiga”, anunciou Rui Fonte.

Um desafio lançado pela Fundação Lapa do Lobo a Tiago Pereira que aceitou “prontamente” e realizou nos últimos quatro meses com a recolha de “29 de testemunhos, de cantares e fotografias e muitas horas gravadas em quatro campanhas de rodagem, uma em cada mês” para um produto final de 40 minutos.

Tiago Pereira contou que “foi uma experiência muito estranha” uma vez que, admitiu, “a Lapa do lobo tem uma espécie de mística especial, é uma aldeia muito estranha, diferente das outras aldeias, é larga, tem uma vida muito própria ao mesmo tempo que parece muito rural e também não é nada rural”.

Este cariz especial que também o presidente da Contracanto lhe confere e que “é graças ao trabalho realizado” nesta associação sediada na Lapa do Lobo e “a um trabalho feito anteriormente em Lisboa” que António Leal conseguiu levar à aldeia, nestes três dias, Sissi Martins, Sofia Moura e António Zambujo que apadrinha a iniciativa e de quem é amigo “há muitos anos”.

“Pensei que no âmbito da Aldeia Cultural seria interessante ter uma figura que de alguma forma pudesse apadrinhar o encontro artístico e lembrei-me dele e fico muito grato por ter dito, imediatamente, que sim. E nesta fase de sucesso da carreira dele é muito interessante poder tê-lo na aldeia cultural”, considerou António Leal.

António Zambujo é o padrinho e um dos protagonistas da iniciativa a par de outros nomes nacionais, sendo que “a maior percentagem de protagonistas deste fim de semana é para a prata da casa, pessoas da Lapa do Lobo, ou com ligações à aldeia por diversos motivos, até pelas formações que fazem durante o ano” nas instituições locais, afiançou Rui Fonte.

Do programa, continuou, conta ainda uma “declamação de poesia pelo jornalista Nicolau Santos, acompanhado por o quarteto de Manuel Lourenço e com a voz de Cláudia Franco, o guitarrista António Bexiga que vai fazer uma oficina de histórias cantadas, com a antiga tradição das deixas de carnaval” e, por exemplo, “a criação de um postal ‘pop-up'”.

Os bordados, os bilros e a tecelagem e também uma exposição de livros ‘pop-up’ juntam-se a este programa cultural, assim como a criação “de um postal da Lapa do Lobo em formato ‘pop-up’, ou seja, houve a preocupação de criar uma linha de identidade com a aldeia”, reforçou.

Lusa

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