Região do Dão : “O míldio já fez grande parte da vindima de 2018”

Ontem andei pelo Dão e uma das minhas primeiras preocupações foi ir às vinhas, para ver em detalhe os efeitos de um final de primavera e um início de verão atípicos, onde a chuva, o granizo e o calor têm coabitado alegremente, para infortúnio de todos os agricultores e gáudio do míldio, podridão e oídio. Há muito que já tinha percebido que a colheita de 2018 não ia ser fácil. Os viticultores profissionais têm tido muito trabalho e despesa pela frente, não sossegando um minuto na luta contra os fungos da vinha, que em anos como este costumam causar efeitos devastadores na produção e, inerentemente, nas finanças de todos. Os que não são profissionais andam apreensivos, pois têm ideia que “pode haver azar”! Mas como a ignorância é um estado de felicidade continuam a fazer as “curas” do costume, com os “produtos” que todos os anos lhe indicam na loja e sem dar muita atenção ao carácter excepcional do ano. Alguns deles, mais perspicazes, já estão conformados com a sorte, pois os danos começam a ser visíveis um pouco por toda a parte. Um deles dizia-me ontem: “Quem fez três curas já perdeu (quase) tudo. Mas os que já fizeram sete curas também já perderam tudo, pois o dinheiro das uvas não vai chegar para pagara as curas!” É esta a negra realidade de grande parte do vinho português, particularmente entre os pequenos vinhateiros do Dão, que convém esquecer quando se está na euforia das medalhas de ouro conquistadas em concursos nacionais e internacionais ou duma nota alta dada a um vinho por um guru.

A primeira vinha a que fui, na companhia do meu colega António Pina, foi uma de Tinta Roriz, implantada na margem esquerda do Dão, numa encosta suave e maravilhosamente exposta a sul que, em bons anos vitícolas, costuma dar uvas excelentes. Quando começámos a ver os cachos demos logo pelo “malandro” do míldio. Os sintomas não eram muito visíveis, mas percebemos logo que daqui a uma ou duas semanas as cepas terão um aspecto desolador, pois as necroses dos pedúnculos dos cachos já se viam e as folhas estavam bastante atacadas, sendo garantida uma desfolha arrasadora dentro de algumas semanas. O meu companheiro, que conhece toda a gente da zona e o proprietário da vinha confessou-me: “Este é um caso revoltante, pois o produtor esteve sempre atento e fez as “curas” quando eram precisas. O problema dele é que lhe foi recomendado o produto errado (num aparte até disse: muitas vezes é recomendado o produto que tem de ser despachado da loja) e, por isso, não fez efeito. Ambos estávamos de acordo que as perdas (já) eram avultadas. Eu estimava os danos à vista em 50 % de perda da colheita e o meu colega, mais optimista, arriscava que podia ser só 30%.

Saímos daquela vinha e fomos ver outra de Touriga Nacional, que estava bem amanhada, com desfolha e despampa já feitas e, portanto, testemunhando o cuidado do viticultor. Quando comecei a ver os primeiros cachos confirmei uma suspeita que me atormentava há dias. A chuva na altura da floração tinha feito estragos enormes, provocando muito desavinho. Contei muitos cachos com apenas três ou quatro bagos bem formados. Entendi logo que 2018 não ia ser ano de Touriga no Dão, pois a perturbação da floração toca a todos, já que não depende das “curas”. Mas as maiores surpresas estavam para vir. À medida que avançávamos nas entrelinhas começou a aparecer o amaldiçoado míldio, e em força, visto as cepas do meio das filas não serem tão arejadas como as das cabeceiras. Viam-se os pequenos bagos completamente cheios de esporos esbranquiçados, em ataques intensos, cujos efeitos irão ser vistos dentro de dias. As folhas estavam na mesma, constituindo um foco de infecção gigantesco para toda a vizinhança. O António Pina até me dizia que o importante seria tratar para acabar com a esporulação, pois a colheita estava irremediavelmente condenada. Tinha o coração apertado, pois ali à minha frente estava a prova provada da incapacidade de grande parte dos viticultores do Dão protegerem a “novidade” em anos difíceis climaticamente. Mas também sentia revolta, por saber que não há técnicos suficientes na região para aconselharem devidamente os viticultores, não obstante haver imensos jovens tecnicamente preparados…no desemprego. Lembrei-me, então, das vinhas da Rioja, que tinha visitado com os meus alunos na semana passada. Aí a chuva, o granizo e o calor foram como no Dão, mas só se viam ligeiríssimos efeitos do míldio em raríssimas cepas, pois os tratamentos com o produto certo e no momento apropriado tinham estancado a infecção eficazmente, comprovando que os meios técnicos actuais são quase sempre suficientes para lutar contra as adversidades dos fungos.

Fomos depois visitar uma terceira vinha, também de Touriga, numa terra chã, onde a drenagem atmosférica não parecia ser tão satisfatória como nas anteriores vinhas de encosta. Aí o choque ainda foi maior! As cepas não tinham cachos, pois a podridão peduncular e/ou o míldio tinha(m) atacado de forma fulminante as inflorescências, que já estavam pretas e secas. Terá havido desleixo e, provavelmente, ignorância do vinhateiro, que a partir de agora já não precisa de tratar mais a vinha. O António Pina estava perplexo, pois nunca tinha visto nada assim. Eu disse-lhe que parecia termos regressado ao passado, quando o míldio chegou ao Dão e ninguém sabia como o tratar, já lá vão 130 anos. E chamei-lhe a atenção para o facto de não se ver um único tractor nas muitas vinhas que víamos em redor. Das duas uma, ou os vinhateiros tinham desistido da colheita de 2018 ou, o que é mais provável, continuavam alegremente a confiar na providência.
Qualquer técnico consciente sabe que um dos melhores indicadores do nível de desenvolvimento vitícola de uma região (e de um País) é a oscilação de produção das colheitas. Em casos perfeitamente anormais, como a Rioja, Champagne, Toscânia, no ano passado, há fatalidades climáticas que destroem a produção, mas não há altos e baixos todos os anos. Isso só acontece quando são os fungos a destruí-la, como é normal, para nossa vergonha, entre nós.

Daqui até à vindima ainda virão, certamente, mais desventuras. E se a chuva se anunciar logo em Setembro o ano de 2018 vai ser de má memória para todos nós. Oxalá nos sirva de exemplo, principalmente à tutela, que bem precisa de criar mecanismos para acabar com este esbanjar de riqueza. Não pode ser só cobrar as taxas e pedir apoio para fazer face às fatalidades!

Virgílio Loureiro (Professor aposentado de Agronomia)

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