À Espera de um Céu Limpo. Opinião por António Leal

Sou Sportinguista. Desde pequenino, como se costuma dizer. E, nas últimas semanas, a minha Devoção foi posta à prova, porque, aparentemente, o Esforço e a Glória foram passar um fim de semana prolongado à Rua da Amargura.

Qualquer adepto que o seja de sangue percebe o que sinto, seja ele de que cor clubística for. Queremos tanto, tanto… mas não vale tudo, caramba! Não, se formos verdadeiros adeptos. Dos de sangue.

E toda esta desgraça que foi o ano desportivo verde, mas também o vermelho e o azul no que às vielas sujas do desporto diz respeito, tudo isto, dizia eu, me fez pensar mais uma vez que longe estão os tempos da alegria do futebol de rua, no bairro da nossa infância. O mesmo futebol de rua que fez um Ronaldo, 5 violinos e uma orquestra de talentos nacionais.

É triste tudo isto. Parece que, de repente, já nem sequer esse pedaço de infância podemos guardar dentro de nós. Nem sequer esse… Como se não bastasse todos os outros pedaços que a vida crescida nos vai levando.

De repente, é como se no meio de uma grande jogatana de bola entre amigos de joelhos esmurrados que no fim voltam abraçados para casa, surgisse um temporal, daqueles de desfazer uma bola de trapos que ainda há pouco servia na perfeição para furar a baliza.

É assim no futebol dos adultos. Como um temporal impossível de enfrentar, no meio do jogo, aparece o dinheiro. Sempre o dinheiro. Negro, suspeito, sujo… A conspurcar tudo e todos.

E nós? Os putos? Os que só querem jogar à bola e esmurrar os joelhos como antes? Que fazemos? Esperamos que o temporal passe? Como? Se à nossa volta, por todo o lado, o céu é negro até perder de vista?

No meu caso, guardei outro pedaço de infância dentro de mim: gosto de brincar aos teatros. Não esmurro os joelhos, mas ganho feridas também. E, tal como na bola, também na Cultura o dinheiro vem mudar tudo: as regras do jogo, as prioridades, os direitos e os deveres e, principalmente, a sinceridade das motivações. E, olho à minha volta, e o céu está longe de estar limpo. Mas, enquanto encontrar clareiras de azul no meio das nuvens negras, eu, ao teatro, dou: o meu Esforço, a minha Devoção e a minha Glória. Porque, não há nada mais triste no mundo do que envelhecer.

Jogar à bola…. Tudo o que nós, putos, queríamos, era jogar à bola.

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