“Nem tudo o fogo levou e há mais vida para além da calamidade”

Rogério Abrantes enuncia, na abertura da IV FEIRA da PINHA e do PINHÃO Saberes e Sabores de Carregal do Sal, diversas reivindicações ao Secretário de Estado das Florestas, para reorganização da floresta no concelho e na região. O grande evento de promoção das potencialidades do Concelho tem para prova uma cerveja caseira aromatizada com pinhão e a autarquia oferece um Pinheiro Manso a cada visitante.

Na presença do Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Miguel Freitas, que presidiu à Sessão Solene de Abertura da IV Feira da Pinha e do Pinhão, o edil de Carregal do Sal, começou por deixar “o mais vivo agradecimento aos expositores”, enfatizando “o seu dinamismo e pujança”, o que acrescenta“qualidade a este evento, que se afirma cada vez mais como uma referência regional”.

Esta Câmara Municipal tem aceite os desafios que lhe são colocados e, simultaneamente, tem procurado meios e respostas para problemas enraizados no concelho”, frisou, aludindo em especial à calamidade vivida em outubro último. Na decisão da sua realização, pesaram, como sempre, fatores de ordem diversa, nomeadamente os que presidiram à sua criação (divulgação e promoção do concelho e das suas gentes nos mais diversos âmbitos e a promoção da cultura da pinha e do pinhão, no seio do pinheiro manso, espécie para a qual o nosso concelho reúne condições ímpares), mas acima de tudo pesou a firme certeza de que nem tudo o fogo levou e que há vida para além da calamidade que nos bateu à porta.Assim, este evento em concreto visa não deixar cair a fasquia das iniciativas anteriores, pelo que tudo foi e tudo está a ser feito para que esta Feira corresponda às expectativas que em torno dela se foram criando”, explicou, revelando que os objetivos do certame passam também por “transmitir uma palavra de esperança, alicerçada num sinal que pretendemos dar, teimando num processo de investimento no futuro que, de forma consciente e responsável, nos leve do desespero à esperança, do negro ao verde, da tristeza à alegria, pois é na alegria, na participação, no envolvimento, na empatia, na capacidade de receber e de atrair que se poderão construir alicerces firmes e sérios, também decisivos para o desenvolvimento e enriquecimento do nosso Concelho”.”Como é do conhecimento de todos, na Feira da Pinha e do Pinhão estão patentes mostras dos valores concelhios, das tradições, da gastronomia, dos recursos endógenos, da pinha e do pinhão que traduzem o legado de gerações que honrosamente recebemos e que havemos de saber transmitir às gerações vindouras.É todo este contexto que traduz a chama deste evento e através dele pretende-se recordar, recriar e dar a conhecer, aqui e extramuros, a realidade e o investimento útil e necessário para catapultar e consolidar o nosso Carregal do Sal, um concelho de pequena dimensão, é verdade, mas gigante nas suas gentes laboriosas e dedicadas”, acrescentou.

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Rogério Abrantes, aproveitando a presença do governante, deixou ainda alguns apelos: “Permita-me que possa abordar na minha intervenção alguns aspetos que ano após ano, cerimónia atrás de cerimónia, espelham os nossos anseios, que obviamente gostaríamos de ver concretizados em prol das populações que em nós confiaram e que, legitimamente, esperam retorno da nossa ação governativa e cuja indefinição se vai estendendo no tempo.Comungará, por certo, Vossa Excelência, de que as políticas de apoio aos municípios rurais e de baixa densidade nunca serão em excesso.Comungará, por certo, Vossa Excelência que estes devem continuar a merecer o carinho e incentivo dos gestores políticos (a tão propalada discriminação positiva) pois só assim, de mãos dadas, se poderão dar passos decisivos para arrepiar caminho e inverter a tendência do aumento de assimetrias.

“O ICNF deixa-nos a falar para as paredes”

O paradigma por nós exortado em torno da nova centralidade da cultura do Pinheiro Manso e da Pinha, ligado ao pinhão e a outros produtos derivados, constitui, como já tive oportunidade de referir, um desígnio concelhio e também regional.Numa fase inicial na assunção deste desígnio por parte deste município, sentimos a necessidade de criação de um Centro de Competências do Pinheiro Manso e do Pinhão. Por vicissitudes várias, um pouco contra a nossa vontade, mas entendendo, tal desiderato saldou-se, no imediato, no pedido de adesão ao CCPMP – Centro de Competências do Pinheiro Manso e do Pinhão de Alcácer do Sal, que inexplicavelmente continua há largos meses sem resposta.Alheios a estes factos, temos incentivado a plantação de pinheiro manso no concelho.Estabelecemos parcerias com a Associação de Produtores Florestais do Planalto Beirão e, conjuntamente, temos trilhado o caminho de promoção do pinheiro manso em detrimento do eucalipto.  Paulatinamente, temos vindo a difundir este paradigma, que precisa de mais incentivos e entusiasmo, numa convergência de sinergias e de vontades, independentemente da sua origem.Não temos dúvidas que esta opção é por si só ganhadora e a potenciação deste recurso que tem no concelho e na região condições de excelência é o rumo certo.Porém, temos travado uma luta desigual. Por um lado, a convicção pré-concebida e enraizada de que o eucalipto é mais rentável e num mais curto espaço de tempo.

Por outro, pasme-se, a ação do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, com pedidos de pareceres no âmbito da instrução de processos de novas plantações que, invariavelmente, da nossa parte, traduzem o espírito desta aposta municipal e que, do mesmo modo invariável, se traduzem num não acolhimento, num estado gritante de “orelhas moucas”, deixando-nos a falar para as paredes.O esforço para levar por diante este desígnio deve merecer a necessária concertação das administrações públicas para tornarmos mais forte as mudanças que todos preconizamos e reconhecemos necessárias na floresta portuguesa. As vicissitudes que ao longo dos anos temos sofrido tendo como enfoque a nossa floresta tiveram, como todos reconhecemos, o pior dos epílogos em junho e outubro passados.É “fado” do nosso povo reagir após as adversidades em detrimento de uma ação preventiva. Em contexto de floresta assim se passou. Afirmo com toda a convicção que se é esse o nosso “fado”, então, vivida a adversidade, deixai-nos trabalhar e dai-nos as ferramentas adequadas à sua execução.Nós, temos feito o nosso trabalho. Nós queremos continuar a fazer o nosso trabalho.Recordo que, há um ano, nesta mesma cerimónia, dava conta que tinha na minha posse um estudo elaborado por técnicos dos serviços municipais e por técnicos das ZIF do território concelhio, referente a manchas florestais favoráveis à plantação do Pinheiro Manso.Dizia na altura que era um estudo embrionário que pretendia apenas ser um ponto de partida sobre a reflexão que se impunha e que tinha sido alicerçado em três critérios: O primeiro, versava sobre a ocupação florestal, uso agrícola, matos e pastagens dentro do perímetro urbano; o segundo sobre o eventual alargamento dos povoamentos de pinheiro manso até 500 metros com base nas pré-existências; e o último estava ligado à exposição solar.A combinação dos três critérios e a sua efetiva implementação proporcionaria, no imediato, um objetivo que seria o de restringir a plantação de espécies de rápido crescimento nas áreas atrás mencionadas e dentro dos perímetros urbanos, com toda a pertinência no que concerne à ocupação do solo naquelas condições.Como afirmei na altura, o estudo seria enviado ao ICNF, pois seria muito importante para garantir o nosso projeto e reafirmar os benefícios da nova ocupação do solo em detrimento da plantação desenfreada de espécies de rápido crescimento.Cumprimos.Qualquer reação do ICNF ao estudo é, por nós, até à presente data, desconhecida”.

“Senhor Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural : Não serão as dificuldades enunciadas que nos vão fazer desistir. Pelo contrário, as adversidades e a tragédia vivida, deram-nos mais razões para prosseguir o nosso trabalho.Não quero tornar-me repetitivo e enumerar o empenho e as iniciativas que têm sido levadas a cabo e que culminam com este nosso certame. Saliento, porém, o projeto-piloto no âmbito da valorização da pinha e do pinhão desenvolvido através de um acordo firmado com a CIMVDL – Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, em parceria com a CCDRC e com a Universidade de Aveiro e que se traduz na aposta na cultura do Pinheiro Manso, na degustação do pinhão e em produtos de valor acrescentado, suscetíveis de propiciar atividades bastante rentáveis. Porém, queremos ir mais longe.Pretendemos tirar ensinamentos da tragédia dos incêndios florestais ocorridos em 15 e 16 de outubro de 2017.Pretendemos, em conjugação de esforços, retirar toda a madeira queimada do espaço florestal e valorizá-la.Pretendemos consolidar o novo paradigma, a do Pinheiro Manso e de todas as atividades que lhe estão associadas, acreditando ser este o momento ideal para incrementar novas formas de pensar e de agir em cada um dos nossos munícipes.Pretendemos contribuir para a transmissão de um legado às gerações vindouras mais forte, mais musculado, mais alegre e acima de tudo capaz de ombrear com os melhores.Ordenar, é palavra de ordem e esta tem de ser transversal a todas as administrações públicas e aos restantes atores de um palco difícil, mas não impossível.O reordenamento da ocupação florestal e a capacidade de o rentabilizar depende de cada um de nós.E como pretendemos incentivar a reflorestação do nosso concelho, vamos arrancar, em parceria com a Associação de Produtores Florestais do Planalto Beirão, com um projeto de apoio a uma reflorestação autóctone (Pinheiro Manso e Carvalho).Para o efeito, vão começar a ser disponibilizados na Feira, no balcão conjunto da Câmara Municipal e da Associação de Produtores Florestais do Planalto Beirão, formulários de pré-adesão a este projeto. Sumariamente, ele consiste no fornecimento de espécies autóctones para reflorestação, por parte do município e do apoio técnico da Associação de Produtores Florestais às respetivas plantações”, concluiu na sua intervenção.

“O ano da reflorestação vai ser sem dúvida 2019”

Por seu turno o secretário de Estado das Florestas,Miguel Freitas, revelou em Carregal do Sal que “a primeira prioridade do Governo é o plano de corte do que resta da floresta ardida neste território”. De acordo com o governante, “é preciso retirar, em primeiro lugar, a madeira que cá está e, para isso, estamos a constituir/criar parques de madeiras”. Miguel Freitas anunciou que nos próximos dias será feito o anúncio dos parques de madeira queimada e reforçou que a maioria da área vai ser reflorestada só no próximo ano.

“O ano da reflorestação vai ser sem dúvida em 2019”, garantiu.

O Governo estima retirar dois milhões de toneladas de madeira de serração, para a qual está a pagar 29€ por tonelada, e poder tirar 1,5 milhões de toneladas de madeira de menor qualidade, a chamada madeira de faxina para a trituração. “Este é sem dúvida, o primeiro objetivo que temos para este ano”, garantiu o secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural.

Miguel Freitas aproveitou ainda a inauguração da Feira da Pinha e do Pinhão para afirmar que “o País não está satisfeito com a floresta que temos e assim temos que mudar de paradigma”.