Uma responsabilidade geracional. Opinião de Joaquim Amaral

Sensibilizar, informar, proteger, preservar, reflorestar e restabelecer a biodiversidade são os grandes desafios do presente, para que consigamos garantir às gerações futuras a plenitude da nossa biodiversidade.

O pretérito dia 15 de outubro, prolongado dolorosamente pela madrugada e manhã do dia seguinte, vão ficar para sempre registados na nossa memória coletiva como datas de uma das maiores tragédias que sobre nós se abateu. O nosso concelho, a região e o País, nunca esquecerão o inferno dantesco que vivemos.

Fustigados por diversas frentes, os Bombeiros, sempre os nossos Bombeiros, cerraram fileiras e com o seu altruísmo e bravura habituais lutaram até à exaustão para proteger e salvaguardar a vida das pessoas, os seus bens patrimoniais e a herança patrimonial natural que é de todos nós. Não esqueçamos de relevar também a coragem dos nossos concidadãos, que se lhes juntaram para tentar travar o mar de fogo que nos rodeava e proteger o que era seu, o que era dos outros, o que era nosso, no fundo a nossa pertença coletiva, a nossa geografia sentimental.

Hoje e sempre, os munícipes, o concelho de Nelas e o País têm pelos Bombeiros uma gratidão eterna. Um voto de louvor sentido de agradecimento profundo aos Bombeiros de uma forma geral, aos de outras corporações que tanto nos ajudaram, e em particular, naturalmente, aos nossos Voluntários de Nelas e de Canas de Senhorim, pelo empenho sobre-humano na proteção e defesa dos nossos concidadãos e do concelho, até aos limites inclusive da sua integridade física. Um sentido e profundo Bem-Haja. Louvor extensivo aos populares, aos munícipes que enfrentaram com muita bravura e coragem este flagelo, defendendo o que era seu, mas também o que era dos seus vizinhos e o património de todos nós.

A tragédia que assolou o nosso concelho deixou marcas profundas de dor e sentimento de perda. Em primeiro lugar, a perda de uma vida humana, um munícipe estimado pelos seus concidadãos, perda da família, a quem endossamos as nossas sentidas condolências; sem esquecer o risco elevado de perda de mais vidas humanas e os inúmeros registos de ferimentos de quem estoicamente combateu durante essa noite infernal. Mas também as perdas patrimoniais, casas, bens, terrenos agrícolas e florestais, vinhas e animais, haveres construídos pelos nossos munícipes ao longo da vida com muito trabalho e sacrifício. Lamentar ainda as perdas irreparáveis do nosso património natural, da fauna e da flora, das nossas florestas, da matriz intrínseca da nossa identidade coletiva que nos proporcionava qualidade de vida e desenvolvimento económico, alicerçado no primordial setor turístico.

A resposta de proteção social de primeira instância dada pelas diversas entidades foi muito positiva e merecedora dos nossos maiores encómios. Os Serviços Municipais de Proteção Civil, os bombeiros, os escuteiros, a Cruz Vermelha e demais instituições deram uma resposta rápida, imediata e eficaz no socorro e no apoio aos nossos concidadãos. Sendo também expectável que assim fosse, por ser sentimento intrínseco à nossa condição humana, ao sentir lusitano e à alma beirã, o que se assistiu posteriormente foi uma demonstração ímpar e poderosa de entreajuda e profundo humanismo, que a todos muito nos sensibilizou e emocionou. Um agradecimento que nunca fará jus à extraordinária solidariedade, à entrega, ajuda e partilha, de tantos e tantos cidadãos anónimos, de diversas latitudes, dos nossos munícipes, e de inúmeras instituições, entidades, associações e empresas. Correndo o risco inerente de nos esquecermos de alguém quando se enumera, quero expressar um agradecimento especial aos nossos Bombeiros, aos nossos Escuteiros, bem como escuteiros de outros agrupamentos, Cruz Vermelha e Serviços Municipais de Proteção Civil. Um enorme bem-haja.

Um sentimento também de muito reconhecimento e apreço ao Presidente da República Portuguesa, professor Marcelo Rebelo de Sousa, pela honra que nos concedeu com a sua presença, com o seu apoio institucional, pela vontade expressa de forma inequívoca em ajudar e apoiar, e pelo afetos e palavras de reconforto que deu às nossas gentes.

Em próxima reunião, apresentaremos em sede da câmara municipal uma proposta que visa a isenção de taxas para recuperação dos edifícios afetados.

Depois das indispensáveis medidas de acompanhamento dadas aos munícipes que mais severamente foram atingidos, ao apoio na reconstrução das suas casas, na disponibilização de alimento aos animais e no processo de inventariar e reportar os danos patrimoniais sofridos aos organismos competentes, é tempo de atuar nas questões da gestão do pós-fogo.

Para além das medidas que visem a recuperação das áreas ardidas, é extremamente importante proceder a diversas diligências em termos de salvaguarda da segurança pública (iminência de derrocadas, desabamentos e queda de árvores na via pública) e levar a cabo ações que visem minimizar o forte impacto ambiental que se agravará com as “chuvas” futuras (quase paradoxalmente, tão ansiadas por todos por outras e importantíssimas razões) que arrastarão, também por não haver árvores que sirvam de barreira natural, a matéria ardida e as cinzas para os nossos rios e pelos solos e campos agrícolas. A poluição dos rios será mais uma forte machadada neste recurso tão vital quanto escasso e na sua biodiversidade (é pena que a nível nacional não se siga o exemplo vindo da vizinha Espanha, na Galiza). É absolutamente necessário que se implementem ações de estabilização de solos e de retenção que visem minimizar o impacto ambiental nos nossos recursos hídricos e na erosão dos solos.

Em uma fase posterior, o município vai ter que priorizar uma política ativa de reflorestação do concelho e de prevenção e preservação da reduzida monumentalidade paisagística que nos resta e nos resgata do cenário de penumbra que nos rodeia.

Nesse sentido, sugerimos em reunião de câmara, a constituição de um grupo de trabalho, com apoio dos organismos do Estado, que vise a elaboração de um documento estratégico com calendarização de ações e implementação de medidas concertadas, em simultâneo, que tenham por objetivo, por um lado preservar e proteger a nossa mancha florestal que sobreviveu ao flagelo, por outro proceder à reflorestação e ao restabelecimento da biodiversidade no concelho. Um projeto estruturado, pensado, sem medidas avulsas, que envolva técnicos especializados, académicos, investigadores (com parcerias com instituições de ensino superior, como o IPV por exemplo), e professores de Ciências da Natureza e de Biologia dos Agrupamentos de Escolas do Concelho.

Cerca de 2/3 da nossa área florestal ficou reduzida a cinzas. Há muito a fazer pelo nosso Património Natural, na prevenção, preservação, vigilância, sensibilização (campanhas de defesa da floresta e divulgação de procedimentos a efetuar, envolvendo as escolas, as juntas de freguesia e a população em geral), mas também providenciar meios mais eficazes de combate aos incêndios, como melhores acessos, linhas de água e recuperação de pontos de água, sempre com o aconselhamento dos Bombeiros e da Proteção Civil.

Priorizar o reflorestamento do concelho, pensado no seu todo, estruturado, sem medidas avulsas, com definição de mancha florestal adequada, com escolha apropriada das árvores a plantar, com ordenamento do território, bem como o restabelecimento da biodiversidade, têm que ser o cerne das nossas prioridades.

O Património Natural é a maior riqueza do nosso Concelho. É ele que nos proporciona a bela e majestosa paisagem que nos envolve e orgulha, o ar puro que respiramos e uma inigualável qualidade de vida. É também ele que nos inculca o sentimento de pertença, de identificação com a “nossa terra”, geografia sentimental de Aquilino e memória perene e coletiva partilhada também por e em António Lobo Antunes.

Mas o nosso Património Natural é também o vértice maior do nosso desenvolvimento sustentável, do nosso turismo, dos produtos autóctones, da vinha e do vinho, do termalismo. Em todo o potencial que encerra no contributo da fileira florestal para a economia local, no aproveitamento de biomassa na produção de energia.

É fundamental dar um sinal forte e inequívoco de proatividade, de positividade, no objetivo maior de preservar, cuidar e reflorestar o nosso Património Natural. Quer na gestão das questões pós-fogo, quer na constituição de um grupo de trabalho que gize medidas de preservação e reflorestação, quer ainda na afetação de verbas a consignar no Orçamento Municipal, que complementem os apoios centrais.

Joaquim Amaral – Vereador do PPD/PSD

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