“Há países que já anunciaram para muito brevemente proibir a circulação de carros movidos a combustíveis fósseis”

ENTREVISTA com Carlos Cunha Torres, presidente do Conselho de Administração da Fundação Lapa do Lobo e empresário

A Fundação que dirige tem demonstrado uma grande amplitude nas atividades e ações que tem promovido. Certamente tem em mente algumas ideias que gostaria de concretizar no curto/médio prazo. Pode dar-nos algumas pistas sobre elas?

As programações anuais da Fundação Lapa do Lobo são discutidas e decididas com alguma antecedência, não obedecendo no entanto a objetivos concretos pré-determinados, para além dos genericamente contidos nos Estatutos da própria Fundação. Ou seja, há uma dinâmica que se vai desenrolando passo a passo, ano a ano, ao sabor das solicitações e sugestões que vamos recebendo. Não temos de momento novos projetos a concretizar a curto médio/prazo, mas tal não significa que a todo o momento esta situação não se altere. Seja como for, o objetivo máximo que toda a organização tem em mente é o cumprimento integral dos principais objetivos da Fundação, o que tem sido largamente conseguido.

A visita do presidente da República, em abril de 2016, foi seguramente um dos momentos mais marcantes dos seis anos de atividades mais regulares e entrada em funcionamento do Edifício Sede. Foi este o maior reconhecimento do vosso trabalho?

Eu não diria que foi este o maior reconhecimento do nosso trabalho. O maior reconhecimento quanto a mim vem da parte de todos os destinatários das nossas ações e intervenções. Mas é evidente que a visita do Senhor Presidente da República foi um momento muito alto e provavelmente irrepetível na existência desta Fundação. Foi para nós uma enorme honra tê-lo recebido e foi ainda extremamente tocante para todos os colaboradores e família fundadora da Fundação Lapa do Lobo o enorme interesse demonstrado pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa durante a visita que nos efetuou. Percebeu-se claramente que não foi uma visita meramente protocolar, mas sim uma visita de afetos. Impressionou-nos sobremaneira a informação e conhecimento que o Senhor Presidente já tinha da Fundação Lapa do Lobo antes de a visitar e muito nos emocionou o tão simpático, espontâneo e caloroso discurso que proferiu.

Meios financeiros e Recursos Humanos alocados à Fundação Lapa do Lobo. O que nos pode adiantar sobre eles, projetando já o ano de 2018, e se o objetivo passa por manter ou pondera algum reforço/redução?

Conforme já informei em anteriores ocasiões, todas as questões relativas aos recursos financeiros da Fundação Lapa do Lobo são matéria reservada.

Lapa do Lobo “Aldeia Cultural de Portugal”. O edil de Nelas lançou o repto e a aldeia poderá mesmo vir a ter este símbolo identitário, em larga medida devido ao papel da FLL?

Penso que sim, que essa ideia em boa hora lançada pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Nelas muito assenta na atividade desenvolvida pela Fundação Lapa do Lobo, devendo-se ainda acrescentar a atividade da Associação Contracanto.

Energia, água e sustentabilidade do Planeta Terra

Vamos começar por falar dos seus projetos paralelos à Fundação Lapa do Lobo (FLL): Casas do Lupo e Parque Ecológico Quinta Vale do Lobo. A articulação entre os três projetos tem correspondido às suas expectativas e dos clientes/utilizadores?

De certo modo, sim. Em 2017 as Casas do Lupo viu aumentada em cerca de 35% a sua taxa de ocupação e tem aumentado significativamente o número de visitantes estrangeiros. Mas ainda esperamos mais. Continuamos a sentir alguma dificuldade em trazer visitantes à região. Quando vêm, adoram – não só a qualidade do espaço e do serviço das Casas do Lupo, como também toda a região envolvente em si mesma. Temos uma classificação altíssima em todas as plataformas de “booking”, o que é para nós muito gratificante. Mas há que fazer mais pela promoção da região, quer ao nível da autarquia, quer ao nível das várias instâncias oficiais que se ocupam da política de turismo. A Beira Alta ainda não é um destino conhecido e procurado, embora tenha muitos atributos para o vir a ser.

Já no que diz respeito ao Parque Ecológico Vale do Lobo, não podemos falar em expectativas concretizadas, posto que não é um projeto de natureza comercial. Trata-se de um espaço de lazer e de gozo, que tem constituído naturalmente um dos atrativos para os hóspedes das Casas do Lupo. Mas aqui não podemos falar concretamente de retornos de investimento.

Ao falarmos da Quinta Vale do Lobo é incontornável falarmos de ambiente e sustentabilidade. O planeta vive um momento delicado – 2016 marcou a maior temperatura média desde que há registos (13,9 graus).O sobreaquecimento está a levar à escassez de água, comprometendo a agricultura e incrementa os incêndios, e assim devastando grandes áreas florestais. A humanidade está cada dia que passa a comprometer mais o futuro?

Bem, eu sou um otimista por natureza, por isso não quero corroborar essa afirmação. Mas é um facto que ultimamente a humanidade tem tratado muito mal o próprio planeta em que habita. Sinceramente espero que saibamos todos inverter o sentido desse descuido e felizmente que existem já muitos governos e muitas instituições não governamentais a trabalharem nesse sentido e a empreenderem um esforço imenso de sensibilização à escala mundial. É claro que determinadas ações em defesa do ambiente têm custos muito elevados e há países que não os conseguem suportar. Tem que se encontrar uma plataforma de equilíbrio entre países ricos e países pobres e aí a ONU poderá ter um papel determinante.

Há países, com seca mais severa, onde a água dessalinizada é a maior fonte hídrica (ver caixa 1). Caminhamos cada vez mais para uma situação destas também no nosso país?

De acordo com o que tenho lido e sei, penso que não. Portugal, felizmente, não tem falta de água. Ela pode é estar mal distribuída (e está), havendo excesso de água onde não é precisa e falta dela onde mais é carente. Mas enfim, este é um problema bem menor do que uma liminar falta de água nacional.

Imaginemos que toma posse como presidente dos Estados Unidos da América ou como Primeiro Ministro Chinês (os dois maiores poluentes). Que decisões tomaria, com caráter de urgência, para preservar o planeta? Os EUA estão a ir em direção contrária, devido principalmente ao lobby do carvão e do petróleo…

É difícil eu imaginar esse cenário para mim próprio. De qualquer forma, como Presidente dos EUA, não abandonaria certamente os Acordos de Paris, bem pelo contrário, pugnaria por uma maior e mais rápida concretização dos seus objetivos. Como dirigente da China trataria de dar incentivos a todas as indústrias no país no sentido de adquirirem obrigatoriamente equipamentos antipoluição (o maior flagelo da China no que diz respeito à qualidade do ambiente é efetivamente a poluição do ar, das águas e dos solos provocada pela quase totalidade das fábricas do país).

A sua consciência ambiental está refletida também na empresa que dirige. A RESUL está cada vez mais voltada para as energias limpas e renováveis? Qual ou quais das fontes prevê tenha(m) maior futuro?

Sim, a RESUL tem apostado cada vez mais neste sector, comercializando e instalando centrais solares fotovoltaicas para o chamado auto-consumo.

As energias renováveis são o futuro, disso não tenhamos dúvida. Veja-se como há países que já anunciaram para muito brevemente a proibição de carros movidos a combustíveis fósseis (é o caso da Noruega, que já impôs a muito próxima data de 2025 para a concretização dessa diretiva).

Penso que a energia solar é a que efetivamente poderá ter vir a ter maior sucesso, atendendo ao cada vez menor custo da sua obtenção.

Caixa 1:

A Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) publicou, no relatório sobre dessalinização e energias renováveis (Water Desalination Using Renewable Energy), que a dessalinização é a maior fonte de água para saciar a sede humana e irrigação no Oriente Médio, Norte da África e em algumas ilhas do Caribe. Segundo informação disponível no site da International Desalination Assossiation (IDA), mais de 300 milhões de pessoas são abastecidas diariamente por meio da dessalinização no mundo.

Caixa 2:

Se toda a energia produzida pelo Sol fosse armazenada, a Terra teria luz elétrica por 9 bilhões de anos sem parar.