O testemunho de Carlos Torres sobre a tragédia que assolou a região e a Lapa do Lobo em particular

Naturalmente que a tragédia vivida em Portugal na noite de 15 para 16 de Outubro não nos pode deixar indiferentes. A nossa Beira-Alta foi particularmente fustigada e castigada, muito se lamentando em primeiro lugar a perda de muitas vidas humanas e em segundo lugar os incalculáveis prejuízos em bens materiais e a destruição ambiental.

 

No que a mim particularmente diz respeito, tenho a lamentar o facto de o fogo ter passado também pela Lapa do Lobo, tendo invadido o nosso tão estimado parque ecológico “Vale do Lobo”. Faço notar que este espaço está devidamente tratado segundo todas as regras de prevenção contra fogos. Temos o mato limpo, os chamados asseiros devidamente implantados e temos ainda 2 charcas de água devidamente ligadas a um sistema de bocas de incêndio espalhadas por toda a propriedade. Tivémos o grande azar de o fogo passar numa altura em que não havia bombeiros disponíveis. Se tal não tivesse sido o caso, o incêndio teria sido facilmente debelado. Atenção , não estou a dirigir qualquer crítica aos bombeiros da zona – sei bem porque não estiveram presentes no momento da passagem do fogo pela Lapa do Lobo. Estavam infelizmente noutras paragens a acudirem a outros fogos. Não há país algum em todo o mundo, sobretudo da nossa dimensão, que tenha bombeiros suficientes para acudir a 550 fogos simultâneos!

Mas o facto de o parque Vele do Lobo estar bem defendido é bem o sinal de como vale a pena investir no cuidado a ter: afinal as árvores não arderam e o fogo limitou-se a destruir sobretudo mato em zonas não arborizadas. Houve uma destruição angustiante da paisagem, mas não uma destruição maciça do espaço florestal. Se por acaso os terrenos confinantes estivessem tão bem tratados como o Vale do Lobo, os estragos teriam sido mínimos.

Não posso ainda, como cidadão, manifestar a minha estupefação pelo facto de ser visível em todas as reportagens televisivas do dia 16 que afinal, face à enorme tragédia nacional e a tudo o que estava a acontecer, a maior preocupação dos jornalistas e de um certa oposição era saber se o Primeiro Ministro ia ou não demitir a Ministra da Administração Interna. Por amor de Deus, haja bom senso!!!

Finalmente quero deixar aqui o meu (nosso) enorme agradecimento a toda a equipa da Fundação Lapa do Lobo, pelo grande empenho e dedicação  na noite fatídica. Estiveram sempre presentes e ajudaram no que foi possível: assim conseguiram salvar os cães, o tractor, as alfaias agrícolas e foi para nós, família, muito tocante percebermos que a aflição de toda esta equipa era tão grande como a nossa. Obrigado, queridos colaboradores e amigos!

Carlos Cunha Torres