Hermínio Marques lança aos 83 anos a obra “O Carnaval através dos tempos”

No passado Domingo,16 de Setembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Carregal do Sal, teve lugar a apresentação pública do livro de Hermínio Cunha Marques “O CARNAVAL ATRAVÉS DOS TEMPOS – O MUITO QUE DELE VIVI – E OS 10 ANOS INOLVIDÁVEIS EM CARREGAL DO SAL”.

Estiveram presentes as mais altas individualidades do concelho, Presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal, Presidente da Assembleia Municipal,

Presidentes das Juntas de Freguesia e diversos outros autarcas. Esteve presente a esmagadora maioria dos elementos das comissões do antigo Carnaval de Carregal do Sal. Este evento, contou ainda com a presença da Juíza do Julgado de Paz de Carregal do Sal, do Presidente da Associação de Carnaval de Cabanas de Viriato, do Presidente da Associação “Folias e Tropelias” de Carregal do Sal e dirigentes de outras forças vivas do concelho. Estiveram, ainda, presentes todos os candidatos a Presidente da Câmara, das diversas forças políticas do concelho. A cerimónia contou com quase uma centena de participantes.

Usou da palavra, em primeiro lugar, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal, Rogério Mota Abrantes, que começou por felicitar Hermínio Cunha Marques, por mais este importante livro. Destacou o vasto leque de obras do autor com especial destaque para os livros “As Alminhas no Concelho de Carregal do Sal”, “A Estrada 230 Tondela-Carregal do Sal : história fascinante dum sonho de gerações”, “Carregalíadas”, “O cônsul português em rimas de acentos humanitários”, bem como a monografia “Carregal do Sal : no coração da Beira”. Rogério Mota Abrantes, passando a referir-se ao livro apresentado, destacou a importância do Carnaval na sede do concelho entre 1974 e 1983, referindo que o livro era um retrato fiel do glorioso carnaval de então. Aludiu ainda à sua participação direta na construção de carros alegóricos no seu bairro (Nossa Senhora das Febres) e destacou um deles: “O Casarão” baseado numa telenovela da altura, que satirizava a então Câmara Municipal de Carregal do Sal, no seu velho edifício,com o gabinete do então Presidente, Jorge Saraiva, também ali presente. Referiu que agora no concelho o Carnaval era representado pelo reputado Carnaval de Cabanas de Viriato. Terminou a sua alocação com um agradecimento ao legado que Hermínio Cunha Marques deixa ao concelho, nomeadamente para as gerações vindouras.

De seguida o autor do livro usou da palavra com um discurso que se transcreve:

«Embora com graves e recentes problemas familiares que foram surgindo em termos saúde e que se mantêm já depois da edição deste livro, em Agosto de 2016, sou agora como que forçado, passado mais de um ano a promover a sua apresentação, mas com muita tristeza dentro de mim. Contudo, e da solicitada divulgação, é com emoção que hoje avivo a chama ardente que tanto iluminou o meu saudoso Carnaval.

O Carnaval está comigo desde os tempos de rapazito que ia esperar, à entrada da vila, os ranchos e cegadas que vinham das terras circunvizinhas e acompanhava depois para a sede do concelho, onde se exibiam. Memórias ainda bem vivas desses tempos já distantes!…

Dentro deste espirito de “Carnavalite”, chamamos-lhe assim, e que tanto me dominava, tentei descortinar e assim conhecer as origens do Carnaval, a sua evolução desde os tempos remotos e depois as transformações operadas no seu percurso ao longo dos séculos. Na Itália, com Veneza, Roma, Florença e Nápoles, na França com Paris e Nice e nas Américas, o Brasil, onde ressalta o Rio de Janeiro. Também aqui, no nosso País, com Lisboa e Porto em tempos idos, na vanguarda, e chegando depois às aldeias do interior, com algumas que ainda mantêm a sua originalidade, até de origem pagã, com em Podence (concelho de Macedo de Cavaleiros), Lazarim (Lamego) e Lindoso (Ponte da Barca) e embora mais recente, mas já do século XIX, Cabanas do nosso concelho que hoje é vila e fez-lhe acrescer o Viriato.

Mas se a história antiga reside neste estudo feito já há dezenas de anos, eu relato, sobremaneira, algo do muito que dele vivi, desde jovem. O meu espírito alegre e folgazão levava a deslocar-me aos bailes de toda esta região, onde eu nunca faltava. A dificuldade era escolher: Bombeiros do Carregal e de Cabanas, São João de Areias, Pinheiro de Ázere, Óvoa, São Joaninho, Casal da Torre, Midões, Tábua e tantos mais, onde toda a gente me conhecia, não só pela “dançomania” de que sofria, mas também pelas brincadeiras e “partidas carnavalescas” que, simultaneamente, estavam sempre comigo e que ainda hoje muita gente recorda. Conservo, ainda, desse tempo objectos e peças entrúdicas, cassetes, escritos e coisas mais no meu “Museu de Arte Carnavalesca”, assim lhe chamei. Dessas terras e gentes ficaram as mais gratas lembranças. E delas, e por aqui e além, com o perdão que ainda hoje solicito, quantas vítimas das minhas “tropelias e maquinações”!…

É também e com relevância, um justo manifesto de muito apreço à gente activa e de muito amor ao Carregal, já de velhos tempos, e onde um grupo de bons carregalenses, maioritariamente já “trintões” e “quarentões”, se juntou formando uma Comissão que, a partir de 1974 e com o apoio da juventude feminina e dos moradores dos bairros, começou a organizar o Carnaval, com todo o entusiasmo. Era o início de um movimento a que chamávamos a “Nossa Revolução Cultural”. Muito trabalho e grande sacrifício, nem sempre compreendido. E foram 10 anos de vida intensa (1974 a 1983), com bandas de música, tunas e tocatas, grupos de bombos e tambores, carros alegóricos, ranchos e cegadas, gaiteiros, gigantones e cabeçudos, desfile de marchas e danças, tudo em movimento, percorrendo a vila, com as ruas apinhadas de gente e um vistoso e imponente “Rei” (que tinha sempre um epíteto), incorporado no Cortejo, eleito democraticamente por voto secreto e apenas por um ano, que, no início do desfile, fazia a sua proclamação ao povo (eu fui o 1.º Rei), e à noite os famosos Bailes nos Bombeiros Voluntários, de intenso movimento, com coberturas televisivas e radiofónicas até de madrugada.

Foram 10 anos de grande Carnaval, vivido intensamente aqui na vila, sede do concelho, e que estão na base deste modesto trabalho, com milhares de entusiastas na rua, para o povo e feito pelo povo”, sem descriminações em seu lema, que começou em Fevereiro no raiar do ano que nos devolveu a democracia (1974). E nesses dias já fomos livres em fraterna convivência.

Mas foram apenas 10 anos, terminando em 1983 com o “Carnaval da Neve”, pois os elementos das comissões quase sempre os mesmos, já que não havia outros de gente activa, bem sólida e de muita garra, realce-se, e que tanto se sacrificavam para dar vida a esta festa do povo, foram afastados por gente mais nova, sem experiência, que queria fazer melhor, mas faltava-lhe o espírito de luta, tenacidade, funda dedicação e também o saber, o brio, e aquela força anímica e o dinamismo tão necessário, o que levou a uma rápida agonia nos três anos seguintes (o 3.º já quase não existiu) e depois tudo acabou. Dos antigos mosqueteiros muitos já partiram, deixando imensa saudade.

Só não aceito que pelas coisas do Carnaval, e como “galardão”, após anos de tanto trabalho e funda dedicação, tenha sido, pela voz de um estimado companheiro de equipa, talvez com razão por força do meu empenho e dedicação, quase doentia, às coisas do Carnaval, fosse considerado parvo e mesmo burro, e assim gozado por mais de 90 por cento da população, facto que então me magoou e referi na imprensa regional. Bastantes, talvez, mas não tantos. Contudo, se esse prezado combatente nos números tivesse razão, então só desejava que os tais escassos 10 por cento que não me condenaram tivessem a coragem de correr com os derrotistas, os habituais coveiros desta terra e conseguissem manter acesa e bem viva a chama do nosso Carnaval. Mas tudo acabou. Estava escrito: A lenda de “A CABEÇA DO BURRO ENTERRADA E NUNCA ENCONTRADA” ainda persistia.

Embora de cariz diferente manteve-se Cabanas com a sua dança original que se prende a uma valsa criada em 1865, numa peça de teatro, por Ricardo Gonçalves, e posta em movimento pelas ruas daquela localidade, mais tarde composta em partitura musical pelo irmão José Gonçalves Júnior, então regente da Sociedade Filarmónica, fundada em 1872.

Inicialmente denominada “CONTRADANÇA” e depois “BATUQE”, “DANÇA GRANDE” e mais recentemente “DANÇA DOS CUS”, já assim oficializada e que hoje se divulga e faz eco na rádio e televisão, a qual, sem fugir às suas origens centenárias, representa actualmente o Carnaval do nosso concelho com a sua activa Associação que a ele tanto se dedica. Assim se conserve pelos tempos fora.

Na minha juventude os antigos bailes de Carnaval nos Bombeiros Voluntários de Cabanas de Viriato deixaram-me saudades inapagáveis. Naquela Instituição fui sempre bem-recebido e deles guardo bem curiosas recordações. O mesmo sucedia com os Bombeiros do Carregal e a Filarmónica de São João de Areias, como refiro no livro hoje apresentado.

Do Carnaval dos anos setenta aqui na vila sede, ficaram nomes inapagáveis na memória e aqui citarei os locutores e sua equipa da Rádiodifusão Portuguesa, Sansão Coelho, Manuel Aragão, Fernando Geraldo, Pereira Monteiro, António José Lourenço, Carlos Aurélio, Juventino Ferreira, Soares Duarte, Linda Rosa, e os locutores da Emissora Regional das Beiras (Caramulo), Maria Helena e Lopes da Rosa, com o concurso das quadras sobre o Carnaval do Carregal, Rádio Altitude (Guarda), António Sala, da Rádio Renascença que fez ouvir o disco do e para o Carnaval, constituindo o Hino “Carregal Terra da Beira”, durante anos divulgado, chegando a todos os pontos do País, com letra minha e música de Eduardo Garcia. Uma generosa oferta do Augusto Azevedo, tal como o pai, um generoso carregalense.

Transmitiu ainda uma gravação em cassete, muito interessante, colhida pelo José Raul.

De referir ainda Firmino Antunes, da Rádio Comercial, com as suas intervenções em contacto direto.

Não posso esquecer o conjunto POP FIVE, de Penalva do Castelo, e com ele o Silva, músico, vocalista, primando pela graça e talento nas suas intervenções em cena nos bailes nocturnos dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal.

De grande valia citarei ainda além da Radiodifusão, a Rádio Televisão Portuguesa e os órgãos de comunicação social “Defesa da Beira”, “Notícias de Viseu”, “Diário de Coimbra”, “Primeiro de Janeiro”, “Portugal Hoje”, com o grande e saudoso jornalista de investigação Celestino do Amaral, nosso conterrâneo, e muitos mais jornais.

A minha gratidão aos Bombeiros, GNR e a todos aqueles que tanto apoiaram e inspiraram a quadra muitas vezes escrita nos jornais e ouvida na rádio: “Ao dares a gota que nasce/Do fundo do coração/A tua folha de alface/Para nós vale um milhão”. A folha de alface era então a nota de 20 escudos.

Este meu singelo trabalho é um livro de memórias impregnado de saudade e nostalgia e ao lerem o seu conteúdo nas suas 484 páginas, que incluem 176 fotografias (a grande maioria a cores), possivelmente algumas lágrimas vão caindo daqueles que o viveram e o guardam ainda dentro de si.

De muitos outros que já partiram fica a perene lembrança de tanto que o viveram, mas os seus familiares vão sentir funda emoção e hão-de querer tê-lo e guardá-lo como preciosa e sentida recordação.

Ele é também, em sua essência, um pedaço de vida feliz, quando eu, então já com responsabilidades familiares, como, aliás, acontecia com a maioria daqueles que comigo o viveram na década de oiro e ouviam na rádio e parafraseando o poeta, aquelas expressões de desalento quando terminava o Carnaval e ficaram para sempre indeléveis:

Carregal, quanto do teu sal são lágrimas do teu finado Carnaval!…

Mas ficou Cabanas de Viriato, com o seu genuíno e antigo Carnaval, a longa marcha valsejada pelas ruas da vila que jamais a vão deixar morrer, como desejo do fundo do coração.

E dentro deste princípio termino, dirigindo às gentes que pretendam adquirir este singelo historial, as palavras de António Aleixo, que, tão só, restrinjo ao Carnaval e nele expresso “Este é o livro que vos deixo”»

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