Lusovini pensa local agindo globalmente e planta nova vinha com castas perdidas no tempo

O primeiro espumante comercial do Dão, faz em julho 25 anos, foi por si elaborado, pois as suas origens são na Bairrada. Foi com esta tradição que Casimiro Gomes, Administrador da Lusovini, teve a feliz ideia de oferecer sempre um “flute” de espumante a todos os visitantes da grande infraestrutura de Enoturismo que a Lusovini implantou em Nelas, nas antigas instalações da icónica Adega que há uns anos adquiriu à insolvente Cooperativa de Vitivinicultores de Nelas.

“É uma oferta simplesmente por nos visitarem”, diz-nos o líder do projeto Lusovini, durante um magnífico almoço na Taberna da Adega, em que nos foi proporcionada a degustação do mais recente néctar lançado no mercado, e já premiado: Pedra Cancela Amplitude Tinto 2013. Sónia Martins, a enóloga responsável por esta marca âncora do projeto, carateriza-o: “é um blend, com notória presença de Touriga Nacional, proveniente de vinhas velhas, onde a diferença térmica entre a temperatura mais alta do dia e a mais baixa da noite, daí o nome amplitude, ajuda a potenciar a concentração de cor na película da uva, obtendo-se assim vinhos mais concentrados e estruturados, com as chuvas da região a proporcionarem também uma acidez mais elevada, conferindo-lhe um grande potencial de guarda”. “Pretendemos com este vinho recrear o Dão das décadas de 60 e 70, que, na nossa opinião, se caraterizava por vinhos com grande longevidade e estrutura, com alguma rusticidade, onde se nota alguma diferenciação em relação ao que se vai fazendo na atualidade”, realça, destacando que “não sendo consensual, pois não é exuberante nos aromas, é um vinho com muita complexidade, que lançámos no mercado já com algum estágio em garrafa”.

A Lusovini pretende proporcionar uma verdadeira experiência sensorial do que é o Enoturismo, com preços convidativos, premiando, também desta forma, os visitantes. A aposta na gastronomia, com a abertura do restaurante Taberna da Adega, passa por ter a cozinha à vista, numa culinária com criatividade, mas assente na tradição Portuguesa. O espaço está aberto os sete dias da semana, e tem um menu diário, ao almoço, com o preço de 9,9€, que inclui uma entrada, prato de peixe ou carne e vinho. Todo o Enoturismo é inovador na região, dado que o cliente circula por todos os espaços livremente, com tudo à vista, incluindo a loja de vinhos, onde pode fazer degustações e comprar vinhos, de todo o portfólio desta empresa criadora de marcas.

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A média mensal de visitantes é de 3 500, quando a expectativa “era de menos de metade”, frisa Casimiro Gomes, o que transforma este projeto num dos principais da região e quiçá do país.

Carlos Moura, responsável pela filial do Brasil, de passagem por Nelas, deu-nos conta das dificuldades de operar num mercado “que está em profunda recessão”. “Os nossos clientes afirmam mesmo que esta é a pior crise da história, pela envolvente económica, política e social”, conta-nos, assumindo que um dos principais fatores que explica o êxito da operação em terras de Vera Cruz, tem sido a “rapidez de resposta que conseguimos dar aos clientes, o que nos diferencia dos nossos concorrentes, pois assumimo-nos não apenas como fornecedores, mas como parceiros de negócio, fazendo degustações nos seus pontos de venda, sempre centrados principalmente no Dão, embora com um portfólio que percorre todas as regiões do país”. Casimiro Gomes admite que nestes oitos anos e fruto de uma estratégia “prudente e conservadora”, a Lusovini tem crescido sustentadamente, com uma forte aposta na internacionalização. “Trazemos a Nelas clientes de todo o mundo”, diz-nos orgulhoso. Curiosa é a regra recentemente adotada para horários de reuniões, via skype: “tivemos que adotar a hora Portuguesa, porque com gente na China, Brasil ou EUA, os fusos horários são muito distintos”. Este pensar global, com uma estratégia de proximidade e serviço eficaz, faz com que “mesmo que um cliente nos peça uma garrafa, ou algumas garrafas, para entrega em sua casa, fazemos chegá-las em poucos dias, a qualquer parte do mundo, como aconteceu há pouco tempo com um cliente particular na Dinamarca, para o seu 65º aniversário – 24 horas depois do pedido, tinha o vinho em casa”. A recuperação da essência ancestral dos vinhos da região, é outro dos pilares da estratégia da Lusovini. Essa essência e autenticidade, que muitas vezes se foi perdendo no tempo, está também presente no novo projeto da empresa: a plantação de uma vinha nova, com 25 hectares, em Alvarelhos (Carregal do Sal), com castas tradicionais do Dão, algumas que praticamente já não se usam, a pensar nos próximos 100 anos, com técnicas inovadores para a sua preservação, ou seja, “estamos a criar riqueza local, reforçando a identidade da região, mas pensando globalmente”, reafirma. Com 70% das vendas para o mercado externo, a visão da empresa é assim claramente virada para o futuro.