O lugar dos Afetos. Crónica de Ana Lúcia Figueiredo

Numa conversa casual com uma criança, ela lamentava a postura de antipatia de um dos seus professores, em comparação com outro professor da mesma disciplina. Para eu compreender melhor o que ela sentia, explicou-me: “Com o outro professor, fazíamos exatamente as mesmas coisas, mas podíamos sorrir…”. O mal-estar desta criança denunciava naturalmente a falta de vínculo afetivo daquele professor com os alunos.

Grandes pensadores, como Jean Piaget e Lev Vygotsky, atribuíram importância à afetividade no processo evolutivo, mas foi Henri Wallon que aprofundou a ligação entre afetividade e inteligência no desenvolvimento das crianças. Diz este autor, no livro “Do Ato ao Pensamento”, que “o espaço não é primitivamente uma ordem entre as coisas, é antes uma qualidade das coisas em relação a nós próprios, e nessa relação é grande o papel da afetividade, da pertença, do aproximar ou do evitar, da proximidade ou do afastamento.”

Somos sujeitos intelectuais e afetivos, que pensam e sentem em simultâneo e, como tal, quando uma criança entra numa sala de aula, transporta consigo uma cabeça pensante, mas leva também um corpo e emoções. A afetividade, entendida como resposta a um conjunto de fatores externos e de sensações internas, condiciona o comportamento, a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo, do mesmo modo que contribui para a estrutura da personalidade.

A aceitação ou a rejeição daquele espaço (sala de aula), que não pode deixar de ser também um lugar de afetos, está dependente da relação interpessoal professor – aluno. Não quer isto dizer que o professor deva dedicar um carinho especial a determinada criança, mas antes focar a afetividade na relação com o grupo de crianças, através de uma postura positiva que reflita uma autoridade baseada no respeito mútuo, na confiança e no diálogo e não um autoritarismo baseado na coerção, na obediência e na hostilidade.

Educar é facilitar ao educando a tomada de consciência de si mesmo, dos outros e do mundo, através da interação com o meio social e da construção de relações afetivas. Na sala de aula, a afetividade manifesta-se na partilha de decisões, na liberdade de expressão, no estímulo à participação, na possibilidade de movimento, na valorização de ideias e sugestões, na promoção de sonhos e sorrisos… Na educação de abordagem construtivista, a forma de ensinar é tão importante quanto o conteúdo a ser ensinado. O educador, enquanto sujeito mediador do processo ensino-aprendizagem, deve estar consciente de que é tão importante educar para a afetividade como educar na afetividade. Até porque “a vida sem ternura não é lá grande coisa” (in “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos).

Ana Lúcia Figueiredo

Programadora Cultural e Educativa

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