Prova de Vinhos de Oliveira do Conde (Parte I) no “Pitada” em Canas de Senhorim

Foi num magnífico final de tarde, no passado Sábado, no Pitada (Rua do Comércio,60,Canas de Senhorim), que tivemos oportunidade de harmonizar vinhos, gastronomia, arte e cultura. Os convivas, para além da enóloga Canense, Patrícia Santos, e sua família (proprietários do espaço), foram o produtor, enólogo e “mestre” do Dão, Carlos Lucas e o artista plástico Canense, Aires dos Santos.

A hospitalidade Beirã não podia ser mais eloquente, com diversos petiscos a esperarem-nos. Iniciámos esta viagem sensorial pela micro região de Oliveira do Conde, que tantas alegrias e momentos de prazer nos tem dado, por dois Brancos, de uma colheita considerada de eleição (há quem a avalie como a melhor das últimas décadas) : Ribeiro Santo Encruzado e Quinta Mendes Pereira Colheita Selecionada, ambos de 2015. A complexidade, estrutura, mineralidade, final de boca longo, untuosidade forte e elegante, combinaram na perfeição com queijos, enchidos da beira, pataniscas de bacalhau e polvo, tudo servido com grande primor. Enquanto Aires dos Santos nos apresentava uma magnífica obra, ilustrando uma vindima, contou-nos a interessante história do “Vinho dos Mortos”.Uma história que remonta a 1808, quando os franceses invadiram a região de Boticas.O povo, com medo que lhes pilhassem os bens, escondeu o que conseguiu, tendo o vinho sido enterrado no chão das adegas, debaixo de pipas e dos lagares. Mais tarde, quando recuperaram os bens que restaram e ao desenterrarem o vinho,julgaram-no estragado.Porém, descobriram que estava muito mais saboroso, pois tinha adquirido propriedades novas. Era um vinho com graduação de 10º/11º, palhete, apaladado, e com algum gás natural, que lhe adveio de se ter produzido uma fermentação no escuro e a temperatura constante. Por ter sido “enterrado” ficou a designar-se por “Vinho dos Mortos” e passou a utilizar-se esta técnica, descoberta ocasionalmente, para melhor o conservar e otimizar a sua qualidade.

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Tintos de grande caráter e elegância

Patrícia Santos, não escondendo que alguns dos seus vinhos prediletos na região são da Quinta de Ribeiro Santo, descreveu os néctares que íamos degustando. Os Tintos em prova, foram o Mariposa, DOC de 2013, da jovem enóloga Lúcia Freitas, o Quinta Mendes Pereira, de 2012, e o Ribeiro Santo, Touriga Nacional de 2012. Harmonizados com os diversos petiscos, aos quais ainda se juntou um magnífico feijão preto, fígado e carapaus em escabeche, salientaram-se, a grande altura, o Mariposa e o Ribeiro Santo. Ainda tivemos oportunidade de conversar com a enóloga sobre a experiência de afundar garrafas na água, que lhe confere “uma conservação, com as mesma propriedades, durante mais tempo, logo uma maior longevidade, pois mantém-se a uma temperatura constante”, como fez recentemente o produtor Alentejano Ervideira, no Alqueva, e de falar dos primórdios da Quinta de Cabriz, com dois dos protagonistas : o pintor Aires dos Santos, que desenhou o primeiro rótulo e Carlos Lucas, sem dúvida um dos seus grandes impulsionadores, incluindo o mercado externo.

No final ainda houve tempo para falar um pouco e visualizar, a obra do fotógrafo Canense, Tito Mouraz (Casa das Sete Senhoras), que tendo por base uma lenda, retrata indelevelmente a desertificação do interior, o abandono das terras, a terra queimada, fustigada pelos incêndios e o envelhecimento e isolamento da população rural. Lembramos que este livro, foi oferecido pela Fundação Lapa do Lobo ao Papa Francisco, numa recente deslocação ao Vaticano, do Grupo de Cavaquinhos de Silgueiros.

Na segunda parte iremos provar mais alguns vinhos da notável colheita de 2015, desta vez da Quinta das Marias.