“A Toca do Lobo” : Um filme de memórias de família exibido na Fundação Lapa do Lobo

Catarina Mourão, conceituada realizadora de cinema, esteve presente no passado Sábado, dia 18 de Fevereiro, no Auditório Maria José Cunha, tendo como anfitrião Rui Fonte,para apresentar o seu mais recente documentário “A Toca do Lobo”, baseado no romance do seu avô, Tomaz de Figueiredo, que  conquistou o Prémio Eça de Queiroz em 1948, em que o escritor revive a sua infância e juventude. O filme explora sentimentos e emoções de família, ou seja, segundo a realizadora “retrata essencialmente a memória familiar”. Mas tem outros condimentos : segredos que ficam por desvendar, suspense e drama, história e política, nos anos amordaçados do Estado Novo. Uma obra intimista, histórica, e profundamente Portuguesa. Como referiu a autora “todos acabamos por, de uma forma ou de outra, nos rever no filme, pois ele busca as nossas raízes”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

E assim é. “A Toca do Lobo”, foi premiado no IndieLisboa e no festival Filhos do Homem, e toca-nos profundamente. São várias as “tocas” que podemos descortinar na narrativa. A realizadora viu, por exemplo, um lobo nos nós da madeira e vê na história muitos “refúgios”. Desde logo a profunda depressão que assombrou a vida de Tomaz de Figueiredo. Na “toca” de um hospital psiquiátrico, onde foi sujeito a choques elétricos, sentiu-se “um cadáver vivo”, como escreveu. A vida de Tomás de Figueiredo cruzou-se indelevelmente com a ditadura, e é, também por isso, envolto em enigmas e mistérios, não desvendando por exemplo “o que aconteceu ao tio?”, como questionou no final um dos  presentes na sessão, que praticamente encheu o auditório. “Há diversas questões que o filme levanta. Desde a procura da verdade à forma como cristalizamos memórias, como podemos revê-las”, explicou a realizadora, acrescentando que o filme “vai além da sua própria família, ao captar o que ela tem de mais universal e transcender a pequenez daquela família e da sua especificidade”.

A sua voz monocórdica percorre toda a história, transmitindo-lhe autenticidade. Catarina Mourão revelou que se sentiu impulsionada a fazer “A Toca do Lobo”, a partir do momento que descobriu, em imagens de arquivo, Tomaz de Figueiredo a mostrar uma coleção de saquinhos de cachimbo e a questionar se um dia uma neta sua, talvez de nome Catarina, poderia vir a brincar com elas. Isto antes da neta Catarina ter nascido. Esta premonição transporta-nos também para uma outra atmosfera.

Questionada, como pergunta no filme, sobre se o avô gostaria da obra, Mourão respondeu : “A minha intuição diz-me que, tendo em conta a escrita dele, que era tão autobiográfica, parece-me que sim, que haveria de ficar contente com o uso que fiz da herança que ele me deu”. E a obra ficará viva, perpetuando a história de uma família e de um grande escritor.

José Miguel Silva

Este portal utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização Saiba mais sobre privacidade e cookies